
Plataforma Nacional do Facetubes c/ a colaboração do Coronel Carlos Furtado.
A história da ADAPI não cabe apenas nos registros de uma entidade assistencial. Ela pertence a uma parte sensível de São Luís, aquela que sobrevive longe dos discursos oficiais, nas salas de creche, nos pratos servidos, nas professoras que ficam, nas diretoras que não desistem e nas crianças que chegam cedo, ainda pequenas demais para compreender a dureza do mundo.
Criada em 10 de setembro de 1911 pela dra. Lucília Wilson Coelho de Sousa, como Associação das Damas de Assistência e Proteção à Infância, a ADAPI nasceu com uma missão simples e profunda. Proteger crianças. Amparar mães. Dar algum chão a famílias que, muitas vezes, não tinham para onde levar os filhos enquanto lutavam pelo sustento. Décadas depois, quando Genu Moraes assumiu a direção, em 1952, encontrou pouco mais que um livro de atas, sem sede própria e sem estatuto registrado. Não recuou. Organizou a instituição, buscou apoio, conseguiu terreno e ergueu uma sede de 780 metros quadrados destinada ao atendimento de crianças e mães de comunidades carentes.
O que impressiona nessa trajetória não é apenas a longevidade. É a forma como a ADAPI atravessou o tempo sem perder o centro de sua razão de existir. Ali, a infância nunca foi estatística. Foi rosto, nome, fome, sono, medo, aprendizado e esperança. O material recuperado no livro Genu Moraes, A Mulher e o Tempo, de Kenard Kruel, mostra uma entidade construída com disciplina, prestação de contas, campanhas, festas beneficentes, colaboração comunitária e trabalho de mulheres que fizeram da assistência social uma forma concreta de responsabilidade pública.
Hoje, a antiga instituição permanece como creche e espaço de acolhimento. A presença de Valdiene Oliveira do Nascimento na direção guarda essa linha de continuidade. Não se trata apenas de administrar uma casa. Trata-se de manter viva uma obra que depende, muitas vezes, da boa vontade de poucos para atender à necessidade de muitos.
Por isso, ainda existem instituições sérias que visam essa doação íntegra da ajuda "para continuar viva a obra". Foi assim que o Senac Maranhão, em 2016, registrou, em ação pública, a participação da ADAPI no projeto “Emendando com Carinho”, que reaproveitou tecidos de ateliês e malharias para produzir almofadas, cortinas, tapetes e aventais, tornando o ambiente mais acolhedor para crianças e educadores.
Contudo, foi a visita do coronel Carlos Furtado à sede da ADAPI, no mês passado (abril de 2026), que acabou por reacender no presente, uma memória tanto da instituição - a qual ele fez parte dessa história como aluno - quanto da própria equalização administratriva atual. Ao entrar no lugar onde um dia também esteve, ainda criança, reconheceu não apenas paredes e espaços, mas a continuidade de um tempo que não volta. Lembrou o pé de abricó, as professoras, a diretora Dona Ana, a rotina simples e a autoridade silenciosa que educava sem precisar de excesso. Há lugares que não desaparecem de nós. Mesmo quando amadurecemos, eles continuam trabalhando por dentro, como uma espécie de raiz moral.
Então, a mesma luz das recordações, acendeu um alerta sobre a situação atual da instituição. O coronel ficou sabendo que, com o fim de convênios, especialmente da Prefeitura Municipal de São Luís, que antes ajudavam na sustentação da creche, a ADAPI passou a depender ainda mais de voluntárias, amigos, doadores e pessoas dispostas a compreender que uma criança desassistida não é problema alheio. É sinal de falha coletiva.
Por isso, a possível mobilização da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares, AMCLAM, por iniciativa do próprio coronel Carlos Furtado, pode representar mais que um apoio eventual. Pode abrir uma frente de solidariedade organizada, capaz de envolver comunidade, empresários, instituições e cidadãos indo ao encontro de uma instituição filantrópica que grita por continuidade. Pede condições mínimas para seguir fazendo o que faz há muitos anos.
Vale lembrar, ainda, que a cidade (ou seus cidadãos de bem) que esquecem suas instituições de cuidado também esquecem uma parte de si. Contudo, há algo maior que move a ADAPI e a faz resistir, porque, antes dela, resistiram mulheres como Lucília Wilson Coelho de Sousa, Genu Moraes, Helosine, Felicidade Rêgo, Maria Domingues Abreu, Maria da Paz Orquídea Santos, Josenilde de Carneiro Lopes e Valdiene Oliveira do Nascimento. Cada uma, em seu tempo, segurou (e ainda segura) uma ponta dessa história.
Portanto, há uma dignidade silenciosa nas obras que não aparecem todos os dias nos jornais, mas sustentam a vida real. A ADAPI é uma dessas obras. Nela, parte de uma infância de São Luís encontrou abrigo, alimento, disciplina, afeto e memória. A pergunta que fica é simples. Quem, diante disso, aceitará permanecer apenas olhando?"
O músico Chiquinho França, sensibilizado com a situação, também disposoto a colaborar com a AMCLAM, também disse: "Uma pergunta que é necessária fazer: quem, diante desta escassez de contribuição humana, vai ficar somente assistindo às dificuldades desse lindo projeto criado para o bem comum?"
Essa é a pergunta que não vai calar!
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