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A Liberdade se reinventou e hoje (re)escreve e conta sua própria História

Bairro centenário em São Luís hoje é referência em Afroturismo de Experiência e Economia Criativa

14/06/2026 às 14h44 Atualizada em 14/06/2026 às 15h59
Por: Mhario Lincoln Fonte: Marcus Saldanha (autor)
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Convidado FT
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Marcus Saldanha – Historiador, jornalista e escritor
Já foi tempo que os moradores da Liberdade, localizado da região central de São Luís do Maranhão formado pelo complexo dos bairros da Liberdade, Camboa, Fé em Deus, Floresta, Formosa, Diamante e Sítio do Meio, precisavam dar o endereço de parentes de outras regiões para conseguir emprego no centro da cidade. Vítimas da ausência de políticas públicas do Estado, de toda a violência decorrente disso e do estigma reforçado pelos cadernos policiais dos jornais ludovicenses por décadas, conseguiram “dar a volta por cima”. Hoje, reconhecido como o maior Quilombo em área urbana da América Latina, a seus mais de 160 mil moradores, encontraram na história e cultura, não só seus maiores orgulhos, como sua maior força e fonte de renda.

Originário do antigo Sítio Itamacaca, com seus poços de propriedade de Ana Jansen que controlava a venda de água em São Luís no século XIX e do posterior Matadouro Modelo (Municipal) instalado estrategicamente às margens do Rio Anil na primeira metade do século XX e que só teve as atividades encerradas em 1980. Hoje no local, que recebeu aterramento, foi construída uma praça ao redor que recebe eventos culturais e uma escola pública no que restou da construção histórica.

Mas enquanto o Matadouro operou com gado desembarcado pela ferrovia São Luís-Teresina, atraiu centenas de pessoas em busca de trabalho, moradia e comida, oriundas principalmente de comunidades rurais quilombolas da Baixada Maranhense, de Alcântara ou que desciam pela Campina do Matadouro juntando-se aos antigos moradores, definindo assim a história da região que completou 108 anos no dia 25 de maio de 2026.

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A data, apesar de polêmica, é resultado de pesquisa documental e da memória de antigos moradores que serviu de base para a Lei Municipal 6.250 de 2017 de autoria do vereador César Bombeiro. Vale lembrar que nome atual Liberdade, tenha sido oficializado por um projeto de lei n. 1.749, de 17 de maio de 1967.  

O fato é que a comunidade é marcada pela permanente luta comunitária e resistência cultural negra. Basta lembrar da greve de 1951 quando moradores, entre eles Seu Apolônio (Boi de Apolônio) organizaram barricadas para proteger a comunidade do quebra-quebra instalado na cidade; a histórica luta do “Movimento de Favelados e Palafitados” liderada por seu Basílio (mestre da Cultura Popular) e a atual bandeira de luta pela da melhoria do transporte público coletivo na região.

Não à toa o antigo “Matadouro”, importante centro de luta, resistência e cultura negra com um legado histórico cheio de valores, tradições, conhecimentos, realizações e patrimônios (materiais e imateriais) deixados pelas gerações passadas foi certificado pela Fundação Cultural Palmares em 13 de novembro de 2019 como o primeiro quilombo em centro urbano e reconhecido oficialmente como Patrimônio Cultural do Maranhão em 2025.

Em sua diversidade cultural, concentra cerca de 200 manifestações e entidades, destacando-se o Bumba Meu Boi, Tambor de Crioula, Reggae Roots, Cacuriá, Blocos Tradicionais, Blocos Afros, Samba, Artesanato, Moda, Música, Culinária e Terreiros de Matriz Africana, gerando trabalho e renda para milhares de pessoas, fortalecendo um importante setor, chamado hoje de Economia Criativa.

Historicamente discriminado como uma área periférica e marginalizada, o bairro se reinventou por meio da força de sua comunidade, tornando-se um bairro referência em Afroturismo de Experiência que conecta viajantes à cultura, história e ancestralidade negra. Se no passado, as hortaliças e a carne que abasteciam o Mercado de São Luís vinham da Liberdade, hoje seus braços e mentes alimentam sobretudo a alma do nosso povo.

Em sua gente, vive o orgulho de sua história, que levanta bandeiras sociais e culturais e inspira novas gerações. Aliás, é um dos poucos bairros no mundo que possui uma bandeira, que tem como cor predominante o verde do mangue, que é a vegetação típica entre a terra e o mar da Liberdade, o rio Anil.

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Sua gente não parou no tempo, apesar da dor. Muito pelo contrário, ao reconhecer o legado de antigas gerações aponta ponta para o futuro e vira referência de como a força da comunidade pode não só reescrever, como contar uma nova história, onde os protagonistas são e estão na sua própria gente. Nada mais decolonial e atual.

 

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AlcinaHá 1 hora São PauloParabéns a Plataforma por trazer assuntos tão bons como essa numa internet tão mal-cheirosa espalhada por aí.
Marcio TrintaHá 1 hora Cidade do México Excelente história. Para eu, maranhense, da Belira, ler isso aqui, é uma volta ao passado.
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