Sharlene Serra
Quem nunca ouviu a pergunta da rainha em Branca de Neve?
"Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?"
Durante muito tempo, pensei que o espelho fosse um dos vilões daquela história. Muitos estudiosos até defendem essa interpretação. Mas, com o tempo, cheguei a outra conclusão.
O espelho nunca foi o vilão.
Ele apenas refletia a verdade que era perguntada. Quem transformava aquela verdade em inveja, competição e desejo de destruição era a rainha. O problema nunca esteve no espelho. Estava no olhar de quem não conseguia enxergar além de si mesma.
Ela enxergava ameaça onde havia apenas outra pessoa.
Talvez seja assim a vida.
Os espelhos nunca foram nossos inimigos. Eles apenas devolvem imagens.
Somos nós que decidimos o que fazer com elas.
Há quem olhe para um rosto e encontre rugas.
Há quem encontre histórias.
Há quem veja dor.
Há quem descubra cor.
Há quem enxergue uma limitação.
Há quem reconheça possibilidades.
O reflexo é o mesmo.
O olhar, nunca.
Foi então que compreendi que vivemos cercados de espelhos. Cada encontro devolve algo sobre quem somos. Porque a forma como enxergamos o outro revela a qualidade do nosso próprio olhar.
Na inclusão, isso se torna ainda mais evidente.
Podemos olhar para uma criança e enxergar apenas seu diagnóstico. Ou podemos olhar para uma criança e enxergar sonhos, talentos, afetos e possibilidades.
Podemos olhar uma pessoa com deficiência e perceber apenas a sua condição ou podemos reconhecer tudo aquilo que ela é capaz de construir, ensinar e inspirar.
Podemos enxergar apenas aquilo que falta ou reconhecer tudo aquilo que já existe.
Nosso olhar pode ferir.
Mas também pode acolher.
Pode excluir.
Ou fazer alguém sentir, que pertence.
A verdadeira inclusão não começa nas leis,nas adaptações ou nos discursos. Ela começa no olhar.
A verdadeira evolução acontece quando deixamos de olhar apenas para o reflexo e aprendemos a enxergar a pessoa.
Quando entendemos que ninguém cabe em um rótulo, em uma condição, em uma aparência ou em um instante da vida.
Cada pessoa carrega histórias aos olhos apressados demais para ver e que acabam enxergando o superficial.
E talvez seja justamente por isso que o mundo precise de menos espelhos que alimentem vaidades e de mais olhares capazes de revelar a humanidade que existe em cada encontro.
Então, antes de conversar com o espelho sobre o que ele vê sobre você e sobre o outro, pergunte para si que tipo de olhar estou oferecendo ao mundo?
Porque os espelhos refletem imagens.
Mas somos nós que precisamos olhar além dos reflexos.
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