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Cultura Ceará vive Cultura

Literatura cearense ocupa a cena com sertão, memória e poesia escrita por mulheres

O projeto da UECE, conduzido pelo “Coletivo Ao Pé da Letra” é vinculado à Pró-Reitoria de Extensão.

02/07/2026 12h28
Por: Mhario Lincoln Fonte: Universidade Federal do Ceará
(Divulgação).
(Divulgação).

Editoria de Cultura da Plataforma Nacional do Facetubes

A literatura cearense vive, nesta quinta-feira, um movimento que ultrapassa a simples agenda de lançamentos. De um lado, a Universidade Estadual do Ceará amplia a circulação pública do projeto Linhas de um sertão que há-via, dedicado à memória sertaneja e nordestina.

Por um lado, a força desse projeto está na maneira como a literatura passa a circular. Ao unir material impresso, recursos digitais, vídeos, acessibilidade e diálogo com a educação básica, a UECE desloca o texto literário do espaço fechado do livro para uma experiência mais ampla de leitura pública. Esse gesto tem peso cultural e pedagógico. Num país em que a formação leitora ainda é desigual, fazer a literatura sertaneja chegar a estudantes, comunidades, pessoas surdas, pessoas com deficiência visual e diferentes faixas etárias é transformar memória em política de acesso.

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"Semilua" e "Monólito"

Por outro, a cidade de Fortaleza recebe o lançamento duplo dos livros semilua, de Carolina Torquato, e monólito, de Raisa Christina, duas obras que recolocam a poesia escrita por mulheres no centro de uma conversa sobre identidade, corpo, maternidade, desejo, território e amadurecimento. As duas obras chegam ao público por caminhos distintos, mas unidas por uma convivência literária marcada por leituras, amizade e acompanhamento mútuo da produção poética. As duas publicações integram a coleção Diabo na aula, da Mórula Editorial, voltada à poesia brasileira contemporânea e à circulação de vozes que não se limitam ao eixo editorial mais previsível do país.

 

Em semilua, Carolina Torquato trabalha uma poesia voltada às zonas de transição: aquilo que se revela e aquilo que permanece oculto, o desejo e a incompletude, a liberdade e a maturidade afetiva. A imagem da semilua sugere um corpo que não precisa estar inteiro aos olhos dos outros para possuir força própria. Sua poesia se move nesse território em que o íntimo não é confissão gratuita, mas elaboração da experiência. Há, nessa direção, um gesto de afirmação: a mulher que escreve não pede licença para existir em palavra.

Em monólito, Raisa Christina aproxima poesia e visualidade, texto e desenho, memória e paisagem. A referência a Quixadá, no Sertão Central cearense, dá ao livro uma dimensão territorial que não se reduz ao cenário. O monólito aparece como pedra, permanência, corpo e matéria da lembrança. A autora trabalha com imagens ligadas ao sertão, à leitura, à maternidade e à paixão, fazendo da palavra uma superfície de contato entre o mundo exterior e as camadas internas da experiência.

Assim, os dois movimentos — o projeto da UECE e o lançamento das poetas cearenses — revelam uma mesma direção: a literatura nordestina não está presa a uma moldura regionalista antiga. Ela continua falando do sertão, da memória e da terra, mas também fala de mulheres, subjetividade, linguagem, educação, acessibilidade e futuro. O Nordeste literário contemporâneo não se apresenta como relíquia cultural. Apresenta-se como produção viva, urbana e sertaneja, íntima e coletiva, tradicional e experimental.

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Portanto, valem aplausos ao projeto da UECE, conduzido pelo Coletivo Ao Pé da Letra e vinculado à Pró-Reitoria de Extensão, por apresentarem a literatura como instrumento de formação e acesso. A coletânea reúne 24 contos voltados ao cotidiano sertanejo e nordestino, preservando formas de vida, paisagens afetivas e experiências que atravessam gerações. Não se trata apenas de narrar o sertão como lugar geográfico. O que se percebe é uma tentativa de reconhecer o sertão como linguagem, memória e campo simbólico, onde a oralidade, o trabalho, a família, a religiosidade, a natureza e as rupturas sociais compõem uma espécie de arquivo vivo do Nordeste.

 

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