
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.
“O episódio de Pedro, negando Jesus, mostra e prova o quanto a palavra humana pode ser mais apressada do que o coração”. (Mhl).
Nos livros de Mateus, Marcos, Lucas e João, a Semana Santa aparece como o centro dramático da fé cristã. Nesses quatro Evangelhos se concentram a entrada de Jesus em Jerusalém, a ceia com os discípulos, a agonia no Getsêmani, o julgamento diante das autoridades, a passagem por Pôncio Pilatos, a crucificação e a entrega final do espírito.
A Semana Santa, entendida à luz desses Evangelhos, não é apenas a narrativa de um martírio. É a exposição crua da alma humana. Jesus entra em Jerusalém aclamado, mas caminha para o abandono. Na ceia, parte o pão e dá ao gesto um sentido que atravessaria séculos — “isto é o meu corpo” e “isto é o meu sangue” — como quem transforma despedida em aliança e dor em memória viva.
Depois, no Getsêmani, a fé deixa de ser ornamento e vira obediência sob lágrimas. Quando Jesus ora “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres”, o texto bíblico não esconde a gravidade da hora. Cristo não encena serenidade fácil. Ele atravessa o medo, o peso e a solidão. E justamente por isso sua entrega é tão alta. Ali, a Semana Santa mostra que a coragem espiritual não é ausência de angústia, mas permanência no dever, mesmo quando a alma treme.
Os discípulos também entram nessa hora como espelho da nossa própria fraqueza. Pedro afirma com ímpeto que morreria com o Mestre e jamais o negaria. Todos dizem o mesmo. Mas a noite prova o quanto a palavra humana pode ser mais apressada do que o coração. Judas, por sua vez, deixa escapar uma das confissões mais duras de todo o relato: “Pequei, traindo sangue inocente.” A Semana Santa não absolve a covardia nem simplifica a culpa. Ela mostra que o homem pode amar e falhar, prometer e recuar, tocar o sagrado e ainda assim cair.
No tribunal, Pôncio Pilatos se torna a figura trágica da consciência que enxerga e, mesmo assim, cede. Marcos registra sua pergunta direta — “Que mal fez?” — e João conserva a frase solene e amarga — “Eis aqui o vosso Rei”. Pilatos percebe a desproporção entre a acusação e a sentença, mas prefere satisfazer a multidão. É uma das cenas mais atuais da Escritura: a justiça derrotada não pela falta de evidência, mas pela fraqueza moral de quem tinha poder para agir e não agiu.
Na cruz, a narrativa atinge uma altura que nenhuma linguagem humana consegue esgotar. João registra “Está consumado”, a palavra final de quem cumpriu até o fim sua missão. Lucas, antes disso, guarda a frase que talvez melhor revele a dimensão espiritual desse sofrimento: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” A morte de Cristo, assim narrada pelos Evangelhos, não é a vitória da violência. É o instante em que o perdão se levanta dentro do próprio horror, sem ruído, sem revanche, sem ódio. A Semana Santa é forte porque não anestesia a dor, mas também não entrega a última palavra ao desespero. Ela coloca diante do homem a verdade mais difícil: “Deus ferido ainda escolhe amar”, disse o Papa João Paulo II.
Por isso essa semana permanece viva para além do calendário religioso. Ela fala da inocência condenada, da multidão que oscila, do amigo que falha, do governante que hesita, do traidor que se destrói por dentro e, acima de todos, do Cristo que não desce da cruz porque decidiu ir até o fim no amor.
Destarte, a maturidade da fé (só) nasce quando se entende que a paixão de Jesus não foi um espetáculo para comover a plateia, mas um chamado severo à consciência. Cada leitor sério dos Evangelhos sai desses capítulos menos inclinado a julgar os personagens e mais obrigado a reconhecer a si mesmo neles. E, quando enfim o madeiro se torna silêncio, sobra no mundo inteiro uma frase que ainda nos acusa e ainda nos pede compaixão: Eles não sabem o que fazem.
VÍDEO-BÔNUS
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.
Mín. 13° Máx. 20°