ELOY MELONIO
CONVERSA VAI, CONVERSA VEM
Agosto chegou, trazendo as tradicionais convenções político-partidárias. E com elas, a mesma conversa de sempre. Podem até parecer mais sinceras que as anteriores, mas geralmente carregadas de metáforas com cara de narrativas. Cada candidato com seu estilo afetado. E muitos eleitores perdidos entre uma e outra conversa. Porque ainda há quem não conheça as raposas do seu galinheiro.
Aproveito-me do verso de um samba para enfatizar que “falar é bom/ me faz renascer”. Porque se estiverem duas ou mais pessoas num mesmo espaço, com a mesma intenção, lá estará a conversa. E conversas cercam-se de palavras, não é verdade? Se voassem, podíamos olhar para o céu à noite e vê-las tentando ocupar o lugar das estrelas.
Quem não gosta de um bom papo? De uma conversa mole carregada de palavras flexíveis? Ou dois dedos de prosa que cabem numa mão inteira? Quem sabe aquele papo caloroso num encontro de velhos amigos que não se viam há muito tempo? Ah! Isso tudo é tão bom que, numa conversa telefônica, tive de pedir a um amigo que encurtasse a história. De nada adiantou.
O lado bom da conversa... sim, ele existe. Especialmente se acontece num clima de intimidade e de boas ideias. Imaginei, então, um curta-metragem intitulado “Nascidos pra conversar”, com música-tema de Ritchie, o britânico que envenena os corações brasileiros desde 1972: “Pra conversar, te convencer/ Te confessar, quero só você”.
Certa noite, numa quitanda perto de casa, um motoqueiro pediu um “Hot-alguma coisa”. “Uh!?” Achei que ele queria um cachorro quente. Que nada! Ele sorriu e disse que pedira um Rothmans. E me apresentou o maço de um cigarro popular. Desse papo casual nasceu uma conversa enfumaçada de passado. Lembramos dos comerciais do Hollywood, nas décadas de 1980 e 1990, mostrando belas praias, surf, gente bonita e saudável. Nem Ayrton Senna escapou, pois a marca Marlboro também corria nas laterais do seu carro. Animado com esse cenário dos velhos tempos, revelei ao rapaz que, ainda jovens, — quando num barzinho sexta à noite —, por “pura exibição”, eu acendia um Carlton e adorava ver minha mulher fumando um Charm.
Em casa, “ela” (sim, a mesma do barzinho) perguntou por que eu tinha demorado tanto. Desconfiado, respondi: “Nada não. Tava só conversando com um motoqueiro”.
Certa manhã, voltando da padaria, vi duas amigas que mais conversavam do que caminhavam. Acho que iam para o trabalho num condomínio ali perto. Reduzi o passo e afinei os ouvidos para captar a conversa. “Sabe quem tava lá?” Sem esperar a resposta, a amiga adiantou: “A podre da Selma”. “Não acredito!” “Ela mesma, conversando com todo mundo”. “Sério?! É de admirar, porque ninguém mais aguenta o papo dessa maluca”. “Pois é! Toda falante numa pose que só vendo. Sabe por quê? Agora ela é gerente do Mercadinho DIZ AÍ”. “Ixe! Agora mesmo é que ela vai soltar a língua”. Acelerei o passo, e imaginei a pobre amiga coçando as orelhas nas primeiras horas do dia.
Não sei o resto da conversa, mas, “faria tudo outra vez”. Não pela conversa em si, mas para apreciar como as pessoas se conectando numa boa prosa. E é essa conexão que nos faz mais gente, mais íntimos um do outro.
Em seu livro “Sapiens: uma breve história da humanidade”, Yuval Noah Harari diz que os sapiens desenvolveram sua capacidade de falar porque eram fofoqueiros. Faz sentido, porque o fofoqueiro começa com uma conversa mole, preparando o terreno para plantar a semente da inveja e da discórdia. Sabidinhos esses sapiens, não?
Na Pracinha do Conversê, muitas protagonistas: conversa fiada, conversa pra boi dormir, conversa mole. Essa, aliás, é prima do papo furado. E as coadjuvantes: “jogar conversa fora”, “ir na conversa de alguém”. Na citação a seguir, o jornalista e escritor Antônio Carlos Vilaça resume: “era um grande conversador e ficava batendo papo, uma conversa fiada que não tinha fim” (A Descoberta do Morro).
E, por fim, a pergunta que quer saber: como encerrar uma conversa que se prenuncia interminável? Cada um tem seu método. Um deles é infiltrar na interlocução um indicador de fim de papo: “Pois é, depois a gente vê isso”, “Então ficamos assim, OK?”. Se o interlocutor é do tipo que não ouve, você precisa ser mais direto: “Foi bom falar com você, querida, mas...”, ou: “Desculpa, amigo, tô saindo aqui”.
Se nossa conversa se alongou foi porque eu sabia que estava falando com gente de bom senso. E porque — como bem ensina a vida — “é conversando que a gente se entende”.