NE: Muito me orgulha ter participado da Antologia "Sensorium", coordenada pela confreira (APB-DF) Nauza Luza Martins. Poemas muito interessantes e impactantes, distribuídos entre poetas de várias partes do Brasil, com o selo da Editora "Antologias Brasil", cujo editor-responsável é Gercimar Martins. (MHL).
Em “Sensorium”, o poema, Nauza Luza Martins constrói uma poesia em que o corpo deixa de ser apenas o lugar físico dos sentidos e passa a funcionar como território de conhecimento. Desde o primeiro verso — “Ouço o azul da manhã” — a poeta rompe deliberadamente a ordem convencional da percepção. Cores são ouvidas, silêncios têm cheiro e gosto, a luz ganha voz, os sons exalam perfumes. Essa fusão sensorial, conhecida na literatura como sinestesia, não aparece como simples recurso lírico: é a própria arquitetura do poema. Nauza propõe que algumas experiências humanas não podem ser devidamente explicadas; precisam atravessar o corpo.
Há nessa construção uma dimensão filosófica muito clara. “Sensorium” se aproxima da tradição fenomenológica que compreende o ser humano como consciência, especialmente das reflexões de Maurice Merleau-Ponty, para quem nossa relação com o mundo nasce da percepção e da presença corporal antes de se transformar em conceito. Quando Nauza escreve que “os sentidos desaprendem seus limites”, o poema praticamente desfaz as divisões entre olhar, ouvir, tocar, provar e recordar. O mundo não chega ao sujeito organizado em compartimentos: chega inteiro. A experiência antecede a explicação.
Nesse ponto também se estabelece uma relação com a poética romântica como valorização da interioridade, da memória, da saudade e da emoção como formas legítimas de compreensão da existência. É particularmente expressiva a imagem da saudade que “pulsa áspera como ausência / doce como lembrança recém-nascida”. A contradição é profundamente humana: aquilo que dói também preserva; aquilo que desapareceu permanece sensorialmente dentro de quem recorda. O sentimento deixa de ser consequência da realidade e passa a participar da própria construção dessa realidade.
“Sensorium” adquire ainda outra possibilidade de leitura. Vivemos sob uma cultura de velocidade, estímulos permanentes, telas, informações sucessivas e necessidade quase compulsória de interpretar, classificar e responder. Nauza realiza o movimento inverso. Seu poema reivindica o direito de perceber antes de concluir. Há uma espécie de resistência poética nessa desaceleração. Sentir o azul, ouvir a luz, tocar a saudade ou reconhecer sabores capazes de acender memórias significa recuperar uma humanidade que frequentemente se perde quando tudo precisa possuir utilidade imediata.
A força do poema aumenta à medida que ele se aproxima do final. As imagens inicialmente dispersas encontram uma espécie de síntese filosófica: “O ver escuta / O ouvir saboreia / O sentir se torna verbo”. Esse último verso é particularmente significativo. Transformar o sentir em verbo significa conceder-lhe movimento, ação e existência. Sentir deixa de representar uma condição passiva e passa a ser uma maneira de agir sobre o mundo e de nele existir. A linguagem nasce, assim, de uma experiência anterior às palavras.
É nesse ponto que “Sensorium” ultrapassa o exercício da sinestesia e alcança sua dimensão existencial. Nauza Luza Martins não despreza a razão; recorda apenas que ela não contém toda a experiência humana. Há acontecimentos, perdas, afetos, lembranças e formas de beleza que resistem à explicação. A poesia começa justamente nesse território.
A presença de Nauza como autora ganha significado adicional por sua atuação como organizadora da própria antologia em que o poema está inserido. O perfil apresentado na publicação registra uma trajetória extensa: participação em numerosas academias e movimentos culturais, cinco livros publicados, presença como coautora em mais de 250 obras coletivas e organização de 24 antologias. Integrante da Academia Poética Brasileira, Seccional Distrito Federal, (APB-DF) e condecorada pela instituição, Nauza reúne atividades que se pode aplaudir sempre: a criação literária e a capacidade de organizar, preservar e colocar em circulação a produção de outros autores. Sua atuação como antologista ganha relevância precisamente porque não se limita ao trabalho editorial; nasce também da experiência de quem conhece o poema por dentro.
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Destarte, “Sensorium” é um poema sobre percepção, memória e presença. Nauza Luza Martins faz do corpo uma espécie de biblioteca sensorial: nele ficam arquivadas cores que falam, silêncios que possuem gosto, ausências que podem ser tocadas e lembranças capazes de reacender mundos. E talvez esteja justamente aí uma das funções mais antigas e necessárias da poesia: dar linguagem àquilo que sentimos muito antes de conseguirmos explicar.
O POEMA: SENSORIUM
*Nauza Luza Martins
(Pags. 125/126-Antologia SENSORIUM -A fusão dos sentidos)
Ouço o azul da manhã
Escorrer lento pelas paredes do quarto
Ele sussurra promessas mornas
No idioma macio da esperança.
O cheiro do silêncio
Tem gosto de fruta madura
Quando a tarde repousa
Sobre os ombros do tempo
Toco a palavra saudade
Que pulsa áspera como ausência
Doce como lembrança recém-nascida.
A luz tem voz de vento
Canta nos meus olhos
Uma canção amarela
Que aquece o pensamento.
Há sons que exalam perfumes
Cores que arranham a pele
Sabores que acendem memórias
E me atravessam inteira.
No meu corpo
Os sentidos desaprendem seus limites:
O ver escuta
O ouvir saboreia
O sentir se torna verbo.
Desse modo,
A realidade se dissolve
Não para ser entendida
Mas para ser sentida.
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