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A força sensorial da antologista e poeta Nauza Luza Martins (APB-DF).

“Sensorium” é um poema sobre percepção, memória e presença. Nauza Luza Martins faz do corpo uma espécie de biblioteca sensorial: nele ficam arquivadas cores que falam, silêncios que possuem gosto, ausências que podem ser tocadas e lembranças capazes de reacender mundos.

14/08/2026 09h03 Atualizada há 4 semanas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Nauza Luza Martins/Poema (autora)
Nauza Luza Martins, imortal APB-DF
Nauza Luza Martins, imortal APB-DF

NE: Muito me orgulha ter participado da Antologia "Sensorium", coordenada pela confreira (APB-DF) Nauza Luza Martins. Poemas muito interessantes e impactantes, distribuídos entre poetas de várias partes do Brasil, com o selo da Editora "Antologias Brasil", cujo editor-responsável é Gercimar Martins. (MHL).

Em “Sensorium”, o poema, Nauza Luza Martins constrói uma poesia em que o corpo deixa de ser apenas o lugar físico dos sentidos e passa a funcionar como território de conhecimento. Desde o primeiro verso — “Ouço o azul da manhã” — a poeta rompe deliberadamente a ordem convencional da percepção. Cores são ouvidas, silêncios têm cheiro e gosto, a luz ganha voz, os sons exalam perfumes. Essa fusão sensorial, conhecida na literatura como sinestesia, não aparece como simples recurso lírico: é a própria arquitetura do poema. Nauza propõe que algumas experiências humanas não podem ser devidamente explicadas; precisam atravessar o corpo.

Há nessa construção uma dimensão filosófica muito clara. “Sensorium” se aproxima da tradição fenomenológica que compreende o ser humano como consciência, especialmente das reflexões de Maurice Merleau-Ponty, para quem nossa relação com o mundo nasce da percepção e da presença corporal antes de se transformar em conceito. Quando Nauza escreve que “os sentidos desaprendem seus limites”, o poema praticamente desfaz as divisões entre olhar, ouvir, tocar, provar e recordar. O mundo não chega ao sujeito organizado em compartimentos: chega inteiro. A experiência antecede a explicação.

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Nesse ponto também se estabelece uma relação com a poética romântica como valorização da interioridade, da memória, da saudade e da emoção como formas legítimas de compreensão da existência. É particularmente expressiva a imagem da saudade que “pulsa áspera como ausência / doce como lembrança recém-nascida”. A contradição é profundamente humana: aquilo que dói também preserva; aquilo que desapareceu permanece sensorialmente dentro de quem recorda. O sentimento deixa de ser consequência da realidade e passa a participar da própria construção dessa realidade.

Sensorium” adquire ainda outra possibilidade de leitura. Vivemos sob uma cultura de velocidade, estímulos permanentes, telas, informações sucessivas e necessidade quase compulsória de interpretar, classificar e responder. Nauza realiza o movimento inverso. Seu poema reivindica o direito de perceber antes de concluir. Há uma espécie de resistência poética nessa desaceleração. Sentir o azul, ouvir a luz, tocar a saudade ou reconhecer sabores capazes de acender memórias significa recuperar uma humanidade que frequentemente se perde quando tudo precisa possuir utilidade imediata.

A força do poema aumenta à medida que ele se aproxima do final. As imagens inicialmente dispersas encontram uma espécie de síntese filosófica: “O ver escuta / O ouvir saboreia / O sentir se torna verbo”. Esse último verso é particularmente significativo. Transformar o sentir em verbo significa conceder-lhe movimento, ação e existência. Sentir deixa de representar uma condição passiva e passa a ser uma maneira de agir sobre o mundo e de nele existir. A linguagem nasce, assim, de uma experiência anterior às palavras.

É nesse ponto que “Sensorium” ultrapassa o exercício da sinestesia e alcança sua dimensão existencial. Nauza Luza Martins não despreza a razão; recorda apenas que ela não contém toda a experiência humana. Há acontecimentos, perdas, afetos, lembranças e formas de beleza que resistem à explicação. A poesia começa justamente nesse território.

Capa. (Divulgação).

A presença de Nauza como autora ganha significado adicional por sua atuação como organizadora da própria antologia em que o poema está inserido. O perfil apresentado na publicação registra uma trajetória extensa: participação em numerosas academias e movimentos culturais, cinco livros publicados, presença como coautora em mais de 250 obras coletivas e organização de 24 antologias. Integrante da Academia Poética Brasileira, Seccional Distrito Federal, (APB-DF) e condecorada pela instituição, Nauza reúne atividades que se pode aplaudir sempre: a criação literária e a capacidade de organizar, preservar e colocar em circulação a produção de outros autores. Sua atuação como antologista ganha relevância precisamente porque não se limita ao trabalho editorial; nasce também da experiência de quem conhece o poema por dentro.

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Destarte, “Sensorium” é um poema sobre percepção, memória e presença. Nauza Luza Martins faz do corpo uma espécie de biblioteca sensorial: nele ficam arquivadas cores que falam, silêncios que possuem gosto, ausências que podem ser tocadas e lembranças capazes de reacender mundos. E talvez esteja justamente aí uma das funções mais antigas e necessárias da poesia: dar linguagem àquilo que sentimos muito antes de conseguirmos explicar.

O POEMA: SENSORIUM
*Nauza Luza Martins
(Pags. 125/126-Antologia SENSORIUM -A fusão dos sentidos)

Ouço o azul da manhã
Escorrer lento pelas paredes do quarto
Ele sussurra promessas mornas
No idioma macio da esperança.

O cheiro do silêncio
Tem gosto de fruta madura
Quando a tarde repousa
Sobre os ombros do tempo
Toco a palavra saudade
Que pulsa áspera como ausência
Doce como lembrança recém-nascida.

A luz tem voz de vento
Canta nos meus olhos
Uma canção amarela
Que aquece o pensamento.

Há sons que exalam perfumes
Cores que arranham a pele
Sabores que acendem memórias
E me atravessam inteira.

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No meu corpo
Os sentidos desaprendem seus limites:
O ver escuta
O ouvir saboreia
O sentir se torna verbo.

Desse modo,
A realidade se dissolve
Não para ser entendida
Mas para ser sentida.

Diploma concedido em 14.08.2025

 

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Waltenis A Oliveira Há 4 semanas atrásÁguas Lindas de Goiás Tela conosco no processo de formalização e fundação da nossa Acadêmica Brasileira Rotária de Letras - ABROL GOIÁS LESTE, Águas Lindas de Goiás-GO é uma grande honra. WALTENIS ALVES DE OLIVEIRA PRESIDENTE FUNDADOR ACADEMIA BRASILEIRA ROTÁRIA DE LETRAS SECCIONAL ÁGUAS LINDAS, ABROL GOIÁS LESTE
Waltenis Alves de OliveiraHá 4 semanas atrásÁGUAS LINDAS DE GOIÁSParabéns
Nauza Luza MartinsHá 4 semanas atrásBrasíliaNobilíssimo Mhario Lincoln, sua resenha alcançou lugares do meu poema Sensorium que talvez nem eu soubesse nomear. Você não apenas leu meus versos, você os escutou. Minha gratidão pela delicadeza do olhar, pela profundidade da análise e, sobretudo, por transformar a leitura em reconhecimento da qualidade da minha escrita. Que privilégio ter minha poesia acolhida por um olhar tão atento. Muito obrigada!
Marcia Maria Fonseca Prates Há 4 semanas atrásBrasília-DFImpressionante. Lindo e sensível. Nauza é uma poeta excepcional e um lindo ser humano. Obrigada Nauza, por me permitir fazer parte de seu círculo de amizades. E muito sucesso sempre!
Dorcas Amorim Miguins AnjosHá 4 semanas atrásMonção MA Parabéns querida Poetisa, você é excelente !
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