Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
Há livros de crítica literária que explicam uma obra. Outros conseguem fazer algo mais difícil: obrigam o leitor a voltar ao texto original com novos olhos. A prosa gótica de Álvares de Azevedo em Noite na Taverna, de Dione M. S. Rosa, está nesse segundo grupo. Publicado pela Editora Prismas, em 2017, o estudo tem origem na dissertação de mestrado em Teoria Literária defendida pela autora na Uniandrade, em 2016, sob orientação da professora Anna Stegh Camati. Essa procedência acadêmica ajuda a compreender a consistência de um trabalho que não se limita a classificar Noite na Taverna como obra sombria: Dione procura demonstrar de onde vêm suas sombras, como se organizam e por que continuam perturbando o leitor quase dois séculos depois.
Álvares de Azevedo morreu em 1852, aos 20 anos, e praticamente toda a sua produção chegou ao público depois de sua morte. A Academia Brasileira de Letras o reconhece como poeta, contista e ensaísta e patrono da cadeira nº 2. Durante muito tempo, parte da crítica leu sua obra excessivamente pela biografia do jovem estudante melancólico, rebelde e prematuramente morto. Esse caminho começou a perder força quando estudos posteriores passaram a observar com maior atenção a construção literária de Azevedo. Em reportagem da Pesquisa FAPESP, Vagner Camilo sustenta que aquela interpretação biografista “atrasou a percepção de aspectos que realmente importam”, entre eles a ironia. Cilaine Alves Cunha registra mudança semelhante e atribui importância decisiva aos estudos de Antonio Candido na renovação da leitura do escritor.
É justamente nesse campo crítico mais exigente que o trabalho de Dione M. S. Rosa ganha valor. Ela examina Noite na Taverna por sua arquitetura literária, pelo horror gótico, pelo estranho, pela narrativa em moldura e pela associação entre desejo, transgressão e morte. O chamado Liebestod — amor e morte aproximados até quase se confundirem — deixa de ser mero ornamento romântico para se tornar uma chave de leitura dos destinos narrados por Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann e Johann. A autora percorre Lovecraft, Noël Carroll, Todorov, Freud, Antonio Candido, Cilaine Alves, Karin Volobuef e Daniel Serravalle de Sá, construindo uma base teórica suficientemente ampla para não reduzir o gótico a cemitérios, cadáveres, noites escuras ou personagens delirantes.
Esse ponto merece atenção. O gótico de Noite na taverna assusta porque seus monstros nem sempre precisam ser sobrenaturais. Karin Volobuef questionou justamente a classificação automática desses contos como fantásticos: em sua leitura, o centro das narrativas está menos em acontecimentos sobrenaturais do que na degradação humana, no crime, na perversão e na morte. Essa observação não enfraquece a interpretação de Dione; ao contrário, torna sua pesquisa mais interessante. O horror de Álvares de Azevedo pode surgir de um cadáver, de uma atmosfera espectral ou de uma situação inexplicável, porém pode nascer igualmente de um homem capaz de violar todos os limites morais. O terror deixa então de morar fora do indivíduo. Passa a morar nele.
Antonio Candido oferece outra das linhas fundamentais dessa discussão ao aproximar Macário, de Noite na taverna. Cilaine Alves Cunha desenvolveu essa interpretação ao mostrar que a cena final de Macário, na qual Satã conduz o jovem para observar pela janela uma orgia, pode funcionar como passagem para o universo da taverna. O que Macário contempla seria uma experiência levada aos extremos da crueldade, da perversão e do crime. Dessa maneira, Noite na taverna deixa de parecer uma reunião aleatória de histórias escabrosas e passa a integrar um projeto literário de maior extensão, em que Álvares de Azevedo testa os limites morais do indivíduo e, ao mesmo tempo, os limites formais da própria literatura romântica.
Há ainda uma dimensão histórica importante. O gótico brasileiro não foi simples cópia tardia do europeu. Álvares de Azevedo leu Byron, dialogou com tradições estrangeiras, afastou-se do nacionalismo indianista dominante e procurou outra solução para a literatura que se construía no país. Cilaine Alves observa que Noite na taverna retoma deliberadamente a tradição ocidental, inclusive técnicas, situações e motivos associados a autores como José Cadalso e Byron. Já Alexandre de Melo Andrade, pesquisador da Universidade Federal de Sergipe ouvido pela Pesquisa FAPESP, considera a obra “precursora na adaptação da narrativa do horror no Brasil”. A mesma reportagem registra algo impressionante: Homero Pires chegou a relacionar dezenas de narrativas góticas posteriores influenciadas pela novela azevediana.
Essa permanência talvez explique uma das decisões mais acertadas do estudo de Dione M. S. Rosa: não encerrar a investigação no século XIX. A autora acompanha Noite na taverna até sua transposição para os quadrinhos em 2011 e concentra atenção especial em “Solfieri”. Palavra, imagem, expressão corporal, sombra, composição gráfica e atmosfera passam a participar da mesma narrativa. É uma escolha crítica relevante porque demonstra que um clássico permanece vivo quando consegue atravessar linguagens sem perder sua capacidade de inquietar. Pesquisa posterior publicada pela Universidade Federal de Sergipe confirma a força particular de “Solfieri”, estudando os espaços da cidade, da morte e da vida percorridos pelo narrador-personagem.
E há nisso um mérito especial de Dione M. S. Rosa. Sua obra não se satisfaz com a imagem escolar de Álvares de Azevedo como poeta adolescente, mórbido e fascinado pela morte. Ela o devolve ao leitor como escritor consciente de procedimentos estéticos, leitor da tradição europeia, experimentador de gêneros e autor capaz de colocar amor, sexo, culpa, violência, transgressão, medo e morte dentro de uma mesma engrenagem narrativa. É um estudo sério, documentado e intelectualmente inquieto. Ao iluminar a escuridão de Noite na Taverna, Dione acaba demonstrando um aparente paradoxo: quanto mais profundamente se investigam aquelas sombras, mais claramente se percebe a modernidade de Álvares de Azevedo.
Talvez seja esta a força maior do livro: mostrar que o gótico não sobrevive porque gostamos de fantasmas, cadáveres e noites tempestuosas. Sobrevive porque continua falando de uma região humana que a razão nem sempre governa. Medo, desejo, impulso, violência, morte e fascínio pelo proibido atravessaram o século XIX e continuam diante de nós. A prosa gótica de Álvares de Azevedo em Noite na Taverna reconhece essa permanência e lhe oferece fundamento crítico. Dione M. S. Rosa realiza, assim, um trabalho que ultrapassa a homenagem a Álvares de Azevedo: ajuda a compreender por que Noite na Taverna ocupa posição singular na formação e na história da literatura de horror no Brasil.
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