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Josué Montello fez de São Luís uma das grandes geografias literárias do romance brasileiro. Ruas, sobrados, igrejas, cais, terreiros, famílias tradicionais, tensões raciais e disputas de poder atravessam uma obra que transformou o Maranhão em matéria narrativa de alcance nacional. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1954, aos 37 anos, Montello construiu uma trajetória que ultrapassou a ficção: dirigiu a Biblioteca Nacional, presidiu o Conselho Federal de Cultura, representou o Brasil junto à Unesco e publicou mais de 120 livros entre romances, contos, ensaios, diários, teatro e literatura infantojuvenil.
Entre seus livros, Os Tambores de São Luís, publicado em 1975, ocupa posição central. O romance acompanha Damião, homem negro de 80 anos, em uma caminhada pelas ruas da capital maranhense para conhecer um descendente recém-nascido. Durante o percurso, a memória recompõe décadas de violência, escravidão, religiosidade, trabalho, resistência e relações familiares. São Luís deixa de ser simples cenário e participa diretamente da narrativa. Becos, igrejas, casarões, cais e terreiros integram uma cidade marcada pelas consequências históricas da escravidão e pela permanência da cultura africana.
A Casa das Minas assume importância decisiva nesse universo. Os tambores estabelecem a ligação entre ancestralidade, memória e continuidade religiosa, dando à experiência negra uma posição central na formação social brasileira apresentada pelo romance. Antonio Olinto considerou Os Tambores de São Luís a obra principal de Montello e registrou que o escritor alcançou nela “o ponto mais fundo e mais sério” da diversidade racial brasileira. Octavio de Faria também situou o livro entre os pontos máximos da produção montelliana, destacando sua construção narrativa, a intensidade humana dos personagens e o domínio técnico do romance.
A dimensão internacional da obra ganhou confirmação em 1987, quando Os Tambores de São Luís foi publicado em Paris pela Flammarion com o título Les Tambours noirs: la saga du nègre brésilien. Traduzido por Jacques Thiériot, Marie-Pierre Mazéas e Monique Le Moing, o volume integrou a Collection UNESCO d’œuvres représentatives, iniciativa destinada à circulação internacional de obras representativas de diferentes culturas. A tradução levou ao público francófono uma narrativa profundamente vinculada ao Maranhão e ampliou o alcance de uma história sobre escravidão, racismo, resistência e permanência cultural. Outros romances de Montello também chegaram ao exterior, consolidando sua presença para além da literatura brasileira.
Essa obra permanece acessível às novas gerações graças à "Casa de Cultura Josué Montello", em São Luís, instituição criada a partir do acervo doado pelo próprio escritor e dirigida por Joseana Souza (vide entrevista exclusiva abaixo). Ali estão preservados dezenas de milhares de livros, aproximadamente 35 mil correspondências, fotografias, manuscritos, originais datilografados de romances, recortes de jornais, móveis, documentos e objetos pessoais.
É um patrimônio indispensável à pesquisa sobre Montello, sobre a literatura maranhense e sobre a própria história cultural brasileira. Merece reconhecimento especial o trabalho magnífico de sua gestora, que mantém esse patrimônio vivo por meio da preservação documental, da pesquisa, das exposições, das atividades literárias e da aproximação permanente entre a Casa, os pesquisadores e o público.
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VALE LEMBRAR: Josué Montello compreendeu que contar São Luís era também contar parte decisiva do Brasil. Em Os Tambores de São Luís, colocou a trajetória de Damião no centro de uma narrativa em que escravidão, religião, racismo, família e memória atravessam gerações. A edição francesa demonstrou que essa história maranhense possuía força para alcançar outros idiomas e outros leitores. A Casa de Cultura Josué Montello mostra que o autor levou São Luís para dentro do grande romance brasileiro. Seu legado permanece vivo porque a cidade que ele escreveu continua sendo estudada, lida, preservada e apresentada ao mundo.
VÍDEO-BÔNUS (TVFacetubes)
Joseane Sousa e Souza
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