Por Mhario Lincoln c/Editoria de Comportamento da Plataforma Nacional do Facetubes
Existe uma diferença profunda entre pronunciar - muito obrigado - e experimentar gratidão. O primeiro pode ser apenas uma fórmula de civilidade; a segunda pressupõe reconhecer que alguém nos alcançou por meio de um gesto, de uma palavra ou de uma percepção verdadeira.
A psicologia positiva (ramo mais novo da psicologia ativa) vai mais longe. Robert Emmons e Michael McCullough demonstraram experimentalmente que cultivar gratidão está associado a mudanças mensuráveis no bem-estar e na maneira como as pessoas avaliam a própria vida. Psicólogos ‘positivos’, norte-americanos como Sara Algoe, Jonathan Haidt e Shelly Gable ou brasileiros como Cláudio Simon Hutz (UFRGS): Pioneiro e principal organizador de compilações sobre Avaliação em Psicologia Positiva no Brasil, Debora Dalbosco Dell'Aglio e Silvia Helena Koller (UFRGS), na mesma área, mostraram outro aspecto decisivo: gratidão não funciona somente como pagamento moral de uma dívida — ela ajuda a formar e conservar relações. Mas há algo muito maior na gratidão: “eu percebi o que você fez e percebi o valor que esse gesto teve para mim”. Diz Gable.
Sim! Shelly Gable tem razão. É cada vez mais difícil a convivência com pessoas ‘ingratas’, egoístas ou aquelas que não encontram tempo para um abraço em um amigo, um ‘olá’. Estão sempre na “superioridade das suas arrogâncias”, ou simplesmente, como escreveu Walter Hugo Mãe, ainda vivendo em um “Século dos imbecis”, livro lançado em junho de 2026 pelo premiado escritor português Valter Hugo Mãe.
Contudo, existe um dado extraordinariamente próximo dessa questão no campo da neurociência que nos alivia e incentiva continuar nessa linha. Pesquisadores da Universidade de Tohoku(*) compararam, por ressonância magnética funcional, (achei o máximo, isso), o elogio sincero e a bajulação. O elogio confiável, relacionado ao desempenho real da pessoa, foi considerado mais verdadeiro e provocou resposta maior no núcleo cerebral accumbens (uma espécie de prazer em praticar coisas boas e saudáveis).
Já a ‘adulação’ levava o indivíduo ‘adulado’ a continuar praticando “farsas” para se recompensar de aplausos frágeis. Tanto um; quanto o outro, acabam influenciando – e muito - os circuitos cerebrais que respondem ao valor daquela informação social. Daí nasce uma frase que resume essa diferença: “Gratidão verdadeira é agradecer também à verdade que o outro reconheceu em nós; quando o elogio coincide com aquilo que realmente fizemos, o cérebro não recebe apenas agrado — recebe reconhecimento.” E é justamente aí que se separa “que texto é maravilhoso porque você é genial” de “esse texto funciona porque você encontrou uma imagem precisa, uma construção original, um pensamento que se sustenta”. O segundo elogio reconhece o que existe; não fabrica aquilo que o autor “deveria ser”.
Acontece que nem sempre nosso cérebro vai nessa constância. Os mesmos estudos citados acima demonstraram o outro lado da moeda, também. Há uma ironia demonstrada nessa pesquisa dentro da psicologia social: a bajulação pode funcionar no primeiro instante — nossa vaidade gosta dela — mesmo quando conscientemente desconfiamos das intenções do bajulador.
Aí aproveito para contar uma historinha interessante que eu costumo relembrar, antes de recair no mesmo erro. Consta que Florence Foster Jenkins, rica, mecenas e apaixonada por ópera insistiu durante anos em cantar apesar de graves limitações vocais. E o fez. Mas, segundo Gino Francesconi, diretor e arquivista do Museu do Carnegie Hall, nos recitais de Jenkins, os amigos chegavam a encobrir as gargalhadas da plateia com aplausos e gritos, o que a estimulava a prosseguir.
Em 25 de outubro de 1944, quando finalmente se apresentou para um público amplo no Carnegie Hall, o mecanismo de proteção desapareceu: vieram as risadas abertas e, no dia seguinte, críticas devastadoras. Então, Francesconi formulou a pergunta que permanece atual: por que ninguém lhe disse a verdade antes de permitir que continuasse a se expor?
Mutatis Mutandi, fiz toda essa introdução para dizer que eu sou muito mais agradecido a Nauza Luza Martins e Maria José Lima do que elas a mim, após ter eu escrito resenhas sobre seus trabalhos exemplares. Foram agradecimentos públicos, não individuais (por isso minha resposta), que me tocaram a alma septuagenária.
Sim! Muito obrigado. Sou grato por esse reconhecimento de vocês, não por mim simplesmente, mas pela leitura que fizeram dos meus textos, da sua pertinência e do trabalho que venho desenvolvendo em uma área específica.
Para essa avaliação — assim como para a escolha na APB-DF, aprovada pelos diretores-executivos — não recorri ao coração, à amizade ou a qualquer proximidade pessoal. Considerei a qualidade profissional, estética e criativa presente nas obras e nas atuações públicas de cada uma. Nauza, pela extraordinária capacidade de articulação literária, tornou-se uma das mais importantes antologistas do país, abrindo espaço para que inúmeros poetas tivessem oportunidade públicas para divulgar seus trabalhos. Maria José Lima, por sua vez, constrói livros nos quais a escrita parece alcançar a própria alma, revelando sensibilidade, densidade e identidade autoral.
Por isso, o gesto de gratidão de ambas me alcança de maneira especial: porque nasce de uma percepção verdadeira, assimilada a partir dos meus textos, das homenagens e do trabalho realizado. São, evidentemente, dois momentos distintos, duas trajetórias, duas formas de reconhecimento. A gratidão, porém, é a singularidade que une tudo isso.
Abaixo:
NAUZA LUZA MARTINS
Prezado Senhor Presidente,
Hoje, meu coração veste gala. Recebo, com profunda emoção, gratidão e humildade, a honra de ser reconhecida pela Academia Poética Brasileira – APB como Patrona da Cadeira 65 da Seccional APB-DF.
Há homenagens que chegam como aplausos. Outras chegam como silêncio, porque a emoção é tão grande que as palavras parecem pequenas diante do que sentimos.
Esta é uma dessas.
Receber este título é muito mais do que ocupar uma cadeira. É sentir que toda uma trajetória dedicada à literatura, à poesia e à palavra encontrou eco em corações que reconhecem e valorizam esse caminho.
Agradeço, com imenso carinho, ao Presidente da APB, Mhario Lincoln, e ao Presidente Executivo, Edmar M. de Oliveira, pela generosidade, pela confiança e por esta distinção que guardarei para sempre como uma das maiores honrarias da minha vida literária.
Hoje, a poeta Nauza Luza Martins celebra.
A mulher que caminhou, escreveu, sonhou e persistiu também celebra. E a menina que um dia descobriu que as palavras poderiam ser morada… essa, certamente, está sorrindo para a lua.
Recebo a Cadeira 65 com respeito, responsabilidade e o compromisso de honrar a poesia, a literatura e todos aqueles que acreditam na força transformadora da palavra.
Minha eterna gratidão à Academia Poética Brasileira.
Que esta cadeira seja, para mim, não apenas um lugar de honra, mas um lugar de continuidade, encontro, poesia e legado.
Com o coração em festa,
Nauza Luza Martins
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MARIA JOSÉ LIMA
Meu coração está profundamente agradecido ao jornalista e escritor Mhario Lincoln pela sensível e generosa resenha sobre minhas obras, a partir do card de divulgação.
Suas palavras foram muito além de uma análise literária: tocaram minha alma e reconheceram a essência do meu fazer poético, minha ligação com o Maranhão e tudo aquilo que entrego ao leitor através dos meus versos.
Receber um olhar tão cuidadoso sobre minha trajetória é uma honra e um grande incentivo para continuar escrevendo.
Muito obrigada por transformar em palavras aquilo que, muitas vezes, só consigo expressar através da poesia.
Com carinho e gratidão,
Maria José Lima.
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Notas de rodapé:
(*)Universidade de Tohoku é uma universidade pública de pesquisa localizada em Sendai, na província de Miyagi, Japão.
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