SOCORRO GUTERRES, colunista da Plataforma Nacional do Facetubes
O Estrangeiro é o romance mais famoso do escritor franco-argelino Albert Camus, obra que se tornou um marco literário no século XX e expõe o conceito do absurdo por meio da história de Meursault, homem que comete um crime numa praia da Argélia; delito que tem como fator desencadeante o sol, o qual na história é como um microcosmo a refletir uma estrutura maior nas sensações físicas do calor, do suor e da luz.
O livro, pequeno e simples de ler, tem como cenário a Argélia Colonial, e é escrito de forma a parecer um diário, com frases curtas e justapostas, num tempo presente que não permite digressões. Por toda a trama o anti-herói Meursault passa a sensação de alheamento, que se resume a uma expressão recorrente na história de sua vida: "tanto faz". Essa alienação do protagonista se revela em diversos momentos, no que concerne ao amor, ao casamento e à própria morte da mãe, exprimindo a condição de homem desconectado do mundo e a filosofia do absurdo, expressos no deslocamento interno e social do personagem, que o faz aceitar os fatos sem emoção ou culpa. Tal filosofia nasce do confronto entre a aspiração humana por significado e a total indiferença do universo. Vejamos a clássica frase inicial do livro: “Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem”. Essa dúvida atemporal conduz a reflexão para o leitor, que vai pensar sobre esse estranho personagem, pois não há uma consciência organizadora que dê sentido à narração.
Meursault em sua honestidade radical e em sua recusa a fingir sentimentos, ou seguir regras sociais, se assemelha ao otimismo do Cândido, de Voltaire, e à pureza do Príncipe Michkin, em O Idiota, de Fiódor Dostoiévski, personagens que também se comportam como “estranhos” diante de uma sociedade convencional. O sentimento do absurdo surge nas ações cotidianas de Meursault, no trabalho diário de simples funcionário sem um propósito aparente, e um despertar consciente; ou melhor, o absurdo de Camus está no choque entre o desejo de clareza do homem e a “terna indiferença do mundo”.
A obra foi escrita antes da segunda guerra, mas com publicação no ano de 1942, em pleno contexto do conflito global. Dividido em duas partes, o livro apresenta na primeira metade a frieza de Meursault no funeral da mãe, seu envolvimento com uma mulher mesmo sem expressar paixão e o assassinato na praia, devido ao calor excessivo do sol; circunstâncias que servem para discutir um personagem que não segue as regras do jogo. Na segunda parte ocorre o julgamento (a meu ver o momento mais importante da narrativa), em que Meursault situa-se como um espectador e passa assim a ser um estrangeiro no embate entre advogados de defesa e acusação, ou seja, um alienado em relação ao próprio comportamento e às expectativas coletivas. Na verdade, o julgamento enfatiza a falta de emoções do réu mais do que propriamente o crime em si, transformando Meursault em um marginal moral perante a sociedade.
O filósofo Jean-Paul Sartre e o crítico literário Harold Bloom abordam O Estrangeiro como obra central do absurdismo, no que diz respeito à falta de sentido inerente à existência, na qual o protagonista age com total indiferença e rejeita as convenções morais que a sociedade exige. Na história de Albert Camus (que foi Nobel de Literatura em 1957 pelo conjunto da obra) um homem mata outro homem sob um sol escaldante, mas no tribunal o promotor dedica pouco tempo ao assassinato ocorrido na praia e ressalta sobretudo a apatia do réu no enterro da mãe. Assim, a falta de um convencionalismo emocional torna-se a prova de uma alma criminosa.
Ao ser indagado sobre os motivos que inspiraram seu ato, Meursault relata “que fora por causa do sol”, elemento físico sufocante. Então, o suor e a claridade refletida na areia branca juntamente com o calor quebram a lucidez; e o disparo do revólver seria um reflexo à luz e à temperatura, não ao ódio. Alegação que é ridicularizada no tribunal judicial, que acaba por condenar à morte Meursault, não pelo disparo efetivado, mas por não chorar no enterro da mãe. Seria o sol o catalisador para a ação do personagem? Seria a indiferença do universo o fator que contribui para essa irracionalidade? Ao final de O Estrangeiro a inevitabilidade da morte confronta Meursault com a condição humana. No romance, o sol que não permite sombras é metáfora para muitos significados e a leitura dessa narrativa é luz calorosa que transborda das páginas.
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