(Mhario Lincoln, Jornalista e Editor-Sênior da Plataforma Nacional do Facetubes)
No momento em que li esse card (ilustrativo) com obras de Maria José Lima, onde está escrito "apoie uma escritora maranhense", à princípio pensei: "poxa, até que ponto os leitores maranhenses podem ser assim tão reprimidos que precisam de um estímulo?". Passada a primeira impressão, pude ir muito além desse apelo feito no card promocional das obras (belas) da poeta. Eu – mais calmo - interpretei que a intenção de acrescentar essa linha foi, na verdade, de exaltar, antes de tudo, uma explícita responsabilidade cultural.
Sim, porque o apoio, nesse caso, não é egóico, nem individual. É universal, é coletivo! Esse apoio significa permitir que uma voz nascida entre nós ultrapasse o silêncio, atravesse gerações e leve consigo a memória da lírica de nosso povo. Esse apoio coletivo, sem dúvida, na minha pós-visão, passa a integrar uma corrente que sustenta autores, leitores, bibliotecas, escolas e a própria identidade desse Maranhão que um dia, já foi "Athenas Brasileira", mesmo que alguns prefiram 'esquecer' essa alcunha, por representar, presumidamente, algo como 'elitismo literário'.
Mutatis Mutandi, e falando especificamente do apelo, neste card, a literatura ganha muitas vidas, quando encontra leitores. Isso, então, universaliza a obra. Torna-se patrimônio de muitos. Maria José Lima quis exatamente dizer isso: escreve a partir do seu Maranhão, de suas lembranças, afetos, inquietações, descobertas e dividir essas inquietações líricas com todos os Apologistas (inclusive eu, um apologista, faminto por poesias). De toda forma, o apoio sugerido musculariza a voz dos poetas em geral e fortalece também o lugar de onde ela veio e a comunidade literária à qual sua obra se incorpora. Por isso, é impossível aqui eu não citar Liev Tolstói que sintetiza essa ideia: “Pinte sua aldeia e você pintará o mundo.”
A frase circula também em variantes como “descreva sua aldeia e você será universal”, sempre ligada ao princípio de que o universal pode nascer da experiência local, do apoio dado à comunidade produtiva, da efetiva leitura, comentário, distribuição e dinâmica das ideias das obras.
É exatamente assim que compreendo esse apelo. Apoiar uma escritora maranhense é ajudar o Maranhão a contar sua própria história ao mundo. É reconhecer que uma poeta pode partir de São Luís, de suas ruas, águas, memórias e sentimentos, e alcançar um leitor a milhares de quilômetros porque a dor, o amor, a ausência, a esperança e o desejo, matérias-primas de um bom verso, sempre estarão ligadas por contraturas humanas. Portanto, apoiar Maria José Lima, nesse sentido, é apoiar algo que começa nela, passa pelo Maranhão e termina onde toda literatura verdadeira deseja chegar: no coração nosso, dos leitores amantes da boa poesia.
Destarte, quando observo reunidos os livros de Maria José Lima, não vejo apenas capas, títulos ou uma sequência de publicações; e, lá no fundo, até mesmo – e porque não - um apelo literário magnífico, porque tais livros são uma espécie de cartografia íntima, onde cada obra parece guardar um ponto de sua travessia, uma memória que encontrou linguagem, uma emoção que decidiu permanecer. Tanto que a frase que acompanha esse conjunto promocional — “(...)cada livro conta um pedaço de alma” — alcança, nesse caso, um sentido que ultrapassa qualquer convite à leitura. Há ali uma autora entregando partes de si ao leitor.
Por isso que eu continuo acreditando que um poeta começa realmente a ocupar seu lugar quando descobre uma voz que não pode ser confundida com outra. É assim Maria José Lima. Ela segue construindo esse território. Cada livro acrescenta uma camada. Cada verso amplia sua presença. Cada poema acende uma pequena estrela nesse difícil céu dos aedos maranhenses, espaço onde a permanência não nasce apenas da publicação, e sim da capacidade de fazer a palavra sobreviver, depois que a página termina.
E vou mais longe – perdoem-me os inúteis - vejo a presença jovem de Maria José Lima dando continuidade a uma linhagem que o Maranhão - a muito custo - tenta preservar e que envolve belíssimas páginas históricas marcadas, também, com o banzo de Gonçalves Dias, a litania de Arlete Nogueira da Cruz, a vespasianidade de Maria Luz, o delicado estro de Laura Rosa e a revolução lírica de Lucy Teixeira; vozes reais, que inscreveram a experiência feminina no patrimônio de nossa literatura.
Essas citações me dão base incomensurável de que Maria José Lima está nesse percurso, andando com seus próprios passos e levando consigo o mote e o anelo que ninguém pode sentir, senão ela mesma. Por isso, para mim, falar desses livros significa falar de algo maior que o ato simples de "apoio a uma escritora maranhense".
Significa reconhecer a história feminina da lírica maranhense como uma construção ainda em curso, viva, inquieta, capaz de se renovar a cada página. Em cada livro escrito ontem ou hoje, há o registro de mulheres que transformaram experiência em linguagem, conhecimento em gesto poético, memória e luta.
Em cada verso, a digital de mulheres que desejaram, que perderam, que preservaram e as que ainda procuram compreender res in vicinia. A literatura, por sua própria natureza, permanece dinâmica, imprevisível, uma espécie de caixa de surpresas — e, por vezes, uma verdadeira caixa de Pandora, de onde emergem afetos, conflitos, descobertas e verdades até então em segredo.
Isso se torna ainda mais evidente quando as poetas trocam suas peles sentimentais pelos pontos, vírgulas, pausas e silêncios em seus versos. Cada poema passa a carregar algo que ultrapassa a palavra escrita: porque muitas vezes, determinados sentimentos não cabem, inteiros, no silêncio.
O apelo, é sobre essa – simbiose.
Mhario Lincoln é editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
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