Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
A Academia Maranhense de Letras promove, na quinta-feira, 10 de setembro, às 18 horas, o encontro “Ferreira Gullar e os 50 anos do Poema sujo”, reunindo os acadêmicos Félix Alberto e José Neres e o ator maranhense Breno Nina. A programação será aberta ao público, com entrada gratuita.
Publicado em 1976, Poema sujo nasceu em circunstâncias que ultrapassam a história particular de seu autor. Gullar vivia exilado em Buenos Aires, depois de passar por Moscou, Santiago e Lima. O Brasil estava sob a ditadura militar e a possibilidade de retorno permanecia incerta. Foi nesse ambiente que o poeta reconstruiu São Luís pela memória, fazendo a cidade reaparecer através das ruas, das casas, dos cheiros, do corpo, da família, das águas, dos ruídos e das experiências de uma vida que parecia distante.
Há um episódio que dimensiona a trajetória singular da obra. Escrito entre maio e outubro de 1975, em Buenos Aires, o poema chegou ao Brasil antes de sua publicação em livro por meio de uma gravação em fita cassete, na própria voz de Ferreira Gullar, trazida da Argentina por Vinicius de Moraes. O recurso evitava o risco de transportar os originais escritos em plena repressão política latino-americana. Transcritos no Rio de Janeiro, os versos começaram a circular entre escritores e intelectuais e rapidamente chamaram a atenção para aquele longo poema produzido no exílio.
O próprio Gullar revelou, em carta enviada à poeta Olga Savary em novembro de 1975, que havia escrito um poema de cerca de 90 páginas “sobre São Luís do Maranhão e sobre tudo”. A frase ajuda a compreender a dimensão da obra.
Poema sujo parte de uma geografia reconhecível e alcança questões maiores: existência, memória, matéria, desigualdade, desejo, medo, história e pertencimento. A São Luís recuperada pelo poeta não é apenas cenário. É uma cidade interiorizada, submetida ao movimento da lembrança e novamente colocada no presente pela palavra.A Academia Brasileira de Letras registra Poema sujo como obra decisiva na trajetória de Ferreira Gullar e destaca o enorme impacto causado por sua publicação no Brasil. O livro também contribuiu para criar condições políticas e culturais para o retorno do poeta ao país, ocorrido em 1977.
Décadas depois, a obra permanece como uma das referências da poesia brasileira do século XX, traduzida e publicada em outros países. Gullar ingressaria na Academia Brasileira de Letras em 2014, ocupando a cadeira 37, dois anos antes de sua morte, no Rio de Janeiro.
O encontro promovido pela Academia Maranhense de Letras ganha relevância exatamente por ocorrer no espaço geográfico que alimentou boa parte da construção do poema. Félix Alberto e José Neres deverão abordar diferentes aspectos da produção gullariana, sua posição na literatura brasileira e os vínculos do escritor com o Maranhão. A leitura de trechos da obra ficará sob responsabilidade de Breno Nina, ator, diretor e roteirista maranhense, vencedor do Kikito de Melhor Ator no Festival de Gramado por O Último Cine Drive-in. Assim, a leitura pública possui significado próprio quando se trata de Poema sujo. Ritmo, respiração, repetições, interrupções e mudanças de velocidade integram sua arquitetura.
A palavra impressa convive com uma forte dimensão oral. O fato de uma das primeiras formas de circulação da obra ter ocorrido justamente pela voz gravada de Gullar torna o recital, cinco décadas depois, uma espécie de reencontro com a própria história material do poema.
Celebrar os 50 anos de Poema sujo em São Luís significa, portanto, mais do que assinalar uma data editorial. Significa devolver à cidade um texto que nasceu longe dela e que encontrou na memória a possibilidade de reconstruí-la. Meio século depois, permanece uma questão essencial colocada pela obra de Ferreira Gullar: quanto de uma cidade continua vivendo dentro de quem a deixou? O encontro da AML recoloca essa pergunta no lugar de onde partiram muitas das imagens que fizeram do poema uma das obras centrais da literatura brasileira contemporânea.
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Fontes: Academia Maranhense de Letras/Informações divulgadas pela imprensa maranhense; Academia Brasileira de Letras; Instituto Moreira Salles — Acervo Ferreira Gullar./Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln.
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