Editoria de Música da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln.
“Tenho o direito de tocar música europeia também na Europa”.
Há uma frase no depoimento de João Pedro Borges (ouça abaixo da matéria completa), que ultrapassa a simples recordação de uma temporada internacional: “Tenho o direito de tocar música europeia também na Europa”. A declaração resume um dos momentos mais significativos de sua carreira. Entre 1996 e 1999, ao realizar uma série de concertos na França, sobretudo em Grenoble (FR) e em cidades do sul francês, o violonista maranhense não apenas divulgou a música brasileira. Ele reivindicou para o intérprete brasileiro o direito de circular por toda a tradição musical do Ocidente, sem fronteiras impostas pela nacionalidade.
Os franceses demonstravam interesse particular em ouvi-lo interpretar compositores brasileiros. Havia uma razão compreensível: os grandes instrumentistas europeus já mantinham em circulação permanente o repertório clássico do continente. João Pedro Borges representava, para aquele público, a oportunidade de conhecer outra tradição violonística, construída pela combinação entre música de concerto, choro, canção, ritmos populares e experimentação contemporânea. Seu primeiro grande programa naquela temporada percorreu obras de Villa-Lobos, João Pernambuco, Paulinho da Viola, Lina Pires de Campos e Marlos Nobre. Não era uma seleção aleatória, mas uma cartografia do violão brasileiro em suas diversas linhagens.
O gesto seguinte, contudo, foi ainda mais revelador. João Pedro Borges decidiu preparar um recital integralmente dedicado à música associada à Espanha. Nascia “Folias da Espanha”, apresentado, segundo seu relato, em 1998. O programa anexado ao depoimento confirma a extensão e o rigor dessa construção artística: Luys de Narváez, Gaspar Sanz, Dionisio Aguado, Francisco Tárrega, Isaac Albéniz e Manuel María Ponce formam uma sequência histórica que conduz o ouvinte do Renascimento à modernidade violonística.
De Narváez, o recital reunia “Canción del Emperador” e as variações sobre “Guárdame las vacas”. Gaspar Sanz aparecia por meio de formas como Españoleta, Pavanas, Marizápalos, Zarabanda e Canarios. Aguado representava a consolidação técnica do violão no período clássico. Tárrega surgia com peças como “Marieta” e “Recuerdos de la Alhambra”, enquanto Albéniz comparecia com “Granada” e “Asturias”. A obra que ofereceu identidade ao concerto foi “Variações e Fuga sobre Folias de Espanha”, do mexicano Manuel María Ponce. A presença de Ponce ampliava o conceito do programa: a Espanha não aparecia somente como território geográfico, mas como matriz musical reelaborada também pela América Latina.
Essa arquitetura de repertório desmonta a falsa separação entre o violão erudito e o popular. João Pedro Borges nunca precisou abandonar um universo para entrar no outro. Sua trajetória foi construída justamente na zona de encontro entre esses campos. O programa brasileiro apresentado na França e o recital europeu que veio depois não constituíam movimentos contraditórios. Eram manifestações de uma mesma compreensão: o violão é um instrumento de trânsito, memória e tradução cultural.
O folheto francês apresentado pelo artista registra também uma biografia destinada ao público europeu. Informa que João Pedro Borges nasceu em São Luís, iniciou seus estudos musicais com o professor Luís Almeida e, em 1970, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde estudou com Jodacil Damaceno e Ian Guest, aperfeiçoando-se posteriormente com Turíbio Santos. Em entrevista publicada pelo próprio Facetubes, o músico recordou que seu contato inicial com o instrumento ocorreu ainda no fim dos anos 1950, durante as rodas de choro promovidas pelo padrinho José Silva, que lhe ensinou as primeiras notas e lhe deu um pequeno violão.
O mesmo documento francês relaciona passagens importantes de sua carreira: concertos e conferências no continente africano em 1973 e 1974; turnê sul-americana com Turíbio Santos; apresentação de música brasileira no Lincoln Center, em Nova York; participação no Carrefour Mundial da Guitarra, na Martinica, ao lado de nomes como Baden Powell e Leo Brouwer; além da atuação com cantores líricos, quartetos de cordas, orquestras sinfônicas e a Camerata Carioca. Essa presença na Camerata inscreveu João Pedro Borges em um capítulo decisivo da renovação do choro, ao lado de músicos ligados a Radamés Gnattali. O acervo Discografia Brasileira registra sua participação em 60 gravações distribuídas por 12 discos, incluindo trabalhos dedicados a Paulinho da Viola, Vivaldi, Pixinguinha, Villa-Lobos e ao repertório espanhol.
O espaço escolhido para alguns desses encontros contribuía para a força da experiência. A capela barroca do Musée dauphinois, instalada no antigo convento de Sainte-Marie-d’en-Haut, em Grenoble, reúne arquitetura religiosa, pinturas em perspectiva e um ambiente de reconhecida densidade histórica. O próprio museu descreve o local como um espaço dedicado não apenas ao patrimônio alpino, mas também ao diálogo entre culturas e a diferentes campos artísticos. Naquele cenário, o violão de um maranhense atravessava séculos de música europeia sem perder sua origem brasileira.
Uma festa de sucesso e prestígio desse artista nascido no Maranhão. Assim, de volta ao Brasil e ao Maranhão, João Pedro Borges realizou o recital de inauguração da Escola de Música do então CEUMA, em São Luís. Vale ainda suscitar que sua dimensão pedagógica é inseparável dessa história. O Sesc Maranhão registra que João Pedro Borges foi professor de músicos como Guinga, Raphael Rabello, César Teixeira e Josias Sobrinho, além de destacar sua formação erudita e sua participação em discos fundamentais da música instrumental brasileira. Outras fontes lembram sua contribuição para a criação da Escola de Música do Maranhão e sua presença continuada em festivais, encontros de violão e projetos de formação.
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Conclusão: os recitais franceses não constituem apenas um episódio internacional em uma biografia extensa. Eles condensam a posição artística de João Pedro Borges. Diante de um público que desejava ouvir o Brasil, ele apresentou o Brasil. Diante de uma tradição europeia aparentemente reservada aos europeus, ele tomou o violão e demonstrou que a música não reconhece passaportes. Entre São Luís e Grenoble, sua execução converteu-se em afirmação de maturidade, pertencimento e liberdade.
Editoria de Pesquisa e Extensão — Plataforma Nacional do Facetubes
Fontes de apuração: depoimento em áudio e programa de concerto fornecidos por João Pedro Borges; Plataforma Nacional do Facetubes; Discografia Brasileira; Sesc Maranhão; Museu da Cultura e História do Maranhão; Musée dauphinois.Sobre Grenoble: está situada entre os rios Drac e Isère, em uma paisagem marcada pela presença imponente das montanhas alpinas, cenário que lhe rendeu o conhecido apelido de “Capital dos Alpes”. Sua história remonta à Antiguidade: a cidade teve origem no período romano, por volta de 43 a.C., e atravessou séculos como importante ponto estratégico e cultural do sudeste da França. Em 1968, ganhou projeção internacional ao sediar os Jogos Olímpicos de Inverno, evento que reforçou sua identidade ligada aos esportes de montanha e consolidou Grenoble como uma das cidades mais emblemáticas dos Alpes franceses.
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