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Mundo Música Internacional

Entre São Luís e Grenoble, João Pedro Borges afirmou a universalidade do violão brasileiro

Em recitais realizados na França entre 1996 e 1999, o concertista maranhense João Pedro Borges, membro da APB-MA, apresentou a amplitude da música brasileira e enfrentou, com “Folias da Espanha”, uma fronteira invisível: a ideia de que um artista brasileiro deveria permanecer confinado ao repertório de seu país.

27/08/2026 09h48
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Música da Plataforma Nacional do Facetubes
Em cima de foto original: ginaiFT
Em cima de foto original: ginaiFT

Editoria de Música da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln.

“Tenho o direito de tocar música europeia também na Europa”.

Há uma frase no depoimento de João Pedro Borges (ouça abaixo da matéria completa), que ultrapassa a simples recordação de uma temporada internacional: “Tenho o direito de tocar música europeia também na Europa”. A declaração resume um dos momentos mais significativos de sua carreira. Entre 1996 e 1999, ao realizar uma série de concertos na França, sobretudo em Grenoble (FR) e em cidades do sul francês, o violonista maranhense não apenas divulgou a música brasileira. Ele reivindicou para o intérprete brasileiro o direito de circular por toda a tradição musical do Ocidente, sem fronteiras impostas pela nacionalidade.

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Os franceses demonstravam interesse particular em ouvi-lo interpretar compositores brasileiros. Havia uma razão compreensível: os grandes instrumentistas europeus já mantinham em circulação permanente o repertório clássico do continente. João Pedro Borges representava, para aquele público, a oportunidade de conhecer outra tradição violonística, construída pela combinação entre música de concerto, choro, canção, ritmos populares e experimentação contemporânea. Seu primeiro grande programa naquela temporada percorreu obras de Villa-Lobos, João Pernambuco, Paulinho da Viola, Lina Pires de Campos e Marlos Nobre. Não era uma seleção aleatória, mas uma cartografia do violão brasileiro em suas diversas linhagens.

O gesto seguinte, contudo, foi ainda mais revelador. João Pedro Borges decidiu preparar um recital integralmente dedicado à música associada à Espanha. Nascia “Folias da Espanha”, apresentado, segundo seu relato, em 1998. O programa anexado ao depoimento confirma a extensão e o rigor dessa construção artística: Luys de Narváez, Gaspar Sanz, Dionisio Aguado, Francisco Tárrega, Isaac Albéniz e Manuel María Ponce formam uma sequência histórica que conduz o ouvinte do Renascimento à modernidade violonística.

De Narváez, o recital reunia “Canción del Emperador” e as variações sobre “Guárdame las vacas”. Gaspar Sanz aparecia por meio de formas como Españoleta, Pavanas, Marizápalos, Zarabanda e Canarios. Aguado representava a consolidação técnica do violão no período clássico. Tárrega surgia com peças como “Marieta” e “Recuerdos de la Alhambra”, enquanto Albéniz comparecia com “Granada” e “Asturias”. A obra que ofereceu identidade ao concerto foi “Variações e Fuga sobre Folias de Espanha”, do mexicano Manuel María Ponce. A presença de Ponce ampliava o conceito do programa: a Espanha não aparecia somente como território geográfico, mas como matriz musical reelaborada também pela América Latina.

Essa arquitetura de repertório desmonta a falsa separação entre o violão erudito e o popular. João Pedro Borges nunca precisou abandonar um universo para entrar no outro. Sua trajetória foi construída justamente na zona de encontro entre esses campos. O programa brasileiro apresentado na França e o recital europeu que veio depois não constituíam movimentos contraditórios. Eram manifestações de uma mesma compreensão: o violão é um instrumento de trânsito, memória e tradução cultural.

O folheto francês apresentado pelo artista registra também uma biografia destinada ao público europeu. Informa que João Pedro Borges nasceu em São Luís, iniciou seus estudos musicais com o professor Luís Almeida e, em 1970, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde estudou com Jodacil Damaceno e Ian Guest, aperfeiçoando-se posteriormente com Turíbio Santos. Em entrevista publicada pelo próprio Facetubes, o músico recordou que seu contato inicial com o instrumento ocorreu ainda no fim dos anos 1950, durante as rodas de choro promovidas pelo padrinho José Silva, que lhe ensinou as primeiras notas e lhe deu um pequeno violão.

O mesmo documento francês relaciona passagens importantes de sua carreira: concertos e conferências no continente africano em 1973 e 1974; turnê sul-americana com Turíbio Santos; apresentação de música brasileira no Lincoln Center, em Nova York; participação no Carrefour Mundial da Guitarra, na Martinica, ao lado de nomes como Baden Powell e Leo Brouwer; além da atuação com cantores líricos, quartetos de cordas, orquestras sinfônicas e a Camerata Carioca. Essa presença na Camerata inscreveu João Pedro Borges em um capítulo decisivo da renovação do choro, ao lado de músicos ligados a Radamés Gnattali. O acervo Discografia Brasileira registra sua participação em 60 gravações distribuídas por 12 discos, incluindo trabalhos dedicados a Paulinho da Viola, Vivaldi, Pixinguinha, Villa-Lobos e ao repertório espanhol.

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O espaço escolhido para alguns desses encontros contribuía para a força da experiência. A capela barroca do Musée dauphinois, instalada no antigo convento de Sainte-Marie-d’en-Haut, em Grenoble, reúne arquitetura religiosa, pinturas em perspectiva e um ambiente de reconhecida densidade histórica. O próprio museu descreve o local como um espaço dedicado não apenas ao patrimônio alpino, mas também ao diálogo entre culturas e a diferentes campos artísticos. Naquele cenário, o violão de um maranhense atravessava séculos de música europeia sem perder sua origem brasileira.

Uma festa de sucesso e prestígio desse artista nascido no Maranhão. Assim, de volta ao Brasil e ao Maranhão, João Pedro Borges realizou o recital de inauguração da Escola de Música do então CEUMA, em São Luís. Vale ainda suscitar que sua dimensão pedagógica é inseparável dessa história. O Sesc Maranhão registra que João Pedro Borges foi professor de músicos como Guinga, Raphael Rabello, César Teixeira e Josias Sobrinho, além de destacar sua formação erudita e sua participação em discos fundamentais da música instrumental brasileira. Outras fontes lembram sua contribuição para a criação da Escola de Música do Maranhão e sua presença continuada em festivais, encontros de violão e projetos de formação.

*****

Conclusão: os recitais franceses não constituem apenas um episódio internacional em uma biografia extensa. Eles condensam a posição artística de João Pedro Borges. Diante de um público que desejava ouvir o Brasil, ele apresentou o Brasil. Diante de uma tradição europeia aparentemente reservada aos europeus, ele tomou o violão e demonstrou que a música não reconhece passaportes. Entre São Luís e Grenoble, sua execução converteu-se em afirmação de maturidade, pertencimento e liberdade.

Editoria de Pesquisa e Extensão — Plataforma Nacional do Facetubes

Fontes de apuração: depoimento em áudio e programa de concerto fornecidos por João Pedro Borges; Plataforma Nacional do Facetubes; Discografia Brasileira; Sesc Maranhão; Museu da Cultura e História do Maranhão; Musée dauphinois.Sobre Grenoble: está situada entre os rios Drac e Isère, em uma paisagem marcada pela presença imponente das montanhas alpinas, cenário que lhe rendeu o conhecido apelido de “Capital dos Alpes”. Sua história remonta à Antiguidade: a cidade teve origem no período romano, por volta de 43 a.C., e atravessou séculos como importante ponto estratégico e cultural do sudeste da França. Em 1968, ganhou projeção internacional ao sediar os Jogos Olímpicos de Inverno, evento que reforçou sua identidade ligada aos esportes de montanha e consolidou Grenoble como uma das cidades mais emblemáticas dos Alpes franceses.

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FRANCISCO DE ASSIS MACHADO REISHá 11 horas atrásCAMPINAS-SPSou Francisco Reis amigo desde a infância de João Pedro. Esse brilhante texto, vai além da qualidade relacional ao sintetizar a trajetória brilhante desse grande violonista que considero ser um diamante que se originou no Maranhão, nao da Rocha Kimberlito,mas da arte de nossa querida São Luís. Eu e todos os maranhenses deveríamos nos orgulhar e reverencia-lo. Obrigado pelo texto.
João Pedro BorgesHá 13 horas atrásWhatsApp S.Luis MaMeu queridissimo Confrade, que maravilha de texto. Fiquei tão comovido que precisei de esforço para deixar a emoção apenas no nó da garganta sem progredir para uma pequena lágrima. Quanto eu não daria da minha pequena arte para escrever assim! Não se trata de redação nem mesmo de concordância verbal mas, de penetrar no espírito da coisa. Minha gratidão a este filho da meiga Flor de Lyz que me honra e premia com sua amizade!
Fátima MeloHá 14 horas atrásSan Francisco, Califórnia Ele arrasa!
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