Por Esmeralda Costa, titular da Coluna do Cordel Brasileiro.
Foto: Raimunda Máximo (professora, historiadora e cordelista) , Lindomar Castilho (representante do CVTEC Campos Sales-CE), Magnólia Arrais (Diretora da ECEIBA), Esmeralda Costa (professora e poeta cordelista), Gilvanete Vieira (CVTEC Campos Sales-CE), Amanda Sousa (Multiartista campossalense).
Há histórias que o tempo não consegue silenciar. Há mulheres cuja trajetória ultrapassa os limites de uma época e continua inspirando novas gerações. Bárbara Pereira de Alencar é uma delas.
Heroína da Revolução Pernambucana e da Confederação do Equador, considerada a primeira presa política do Brasil, Bárbara teve sua importância reconhecida oficialmente pelo Estado do Ceará com a criação do Dia Estadual em Homenagem à Heroína Bárbara Pereira de Alencar, celebrado anualmente em 28 de agosto, conforme a Lei nº 18.757, de 2 de maio de 2024.
Em Campos Sales, porém, a memória de Bárbara já vinha sendo celebrada antes mesmo da instituição oficial da data. A cidade foi pioneira na realização de uma programação especial em homenagem à heroína no dia 28 de agosto de 2025, por iniciativa da Estação de Cultura Ecopedagógica e Instituto Bárbara de Alencar – ECEIBA.
Cordelistas, repentistas e amantes da história se reuniram para celebrar uma mulher que fez da coragem uma bandeira. Na ocasião, a professora e cordelista Raimunda Máximo apresentou o cordel "A trajetória de Bárbara de Alencar". Também tivemos a oportunidade de apresentar duas obras de nossa autoria: Bárbara de Alencar – Heroína Nacional e Dona Bárbara – Do Pernambuco pro Crato e do Crato pro Brasil.
A programação contou ainda com a presença do repentista Antônio Poeta, que abrilhantou o momento com a cantoria de improviso, mostrando que a tradição oral continua sendo uma das formas mais fortes de preservar a memória do nosso povo.
Uma rota para contar a história
Em 2026, a homenagem ganhou uma nova dimensão.
A história de Bárbara passou a integrar uma proposta de turismo cultural que pretende transformar sua trajetória em experiência de conhecimento e pertencimento: os Caminhos de Bárbara de Alencar.
A iniciativa nasceu de uma parceria entre o Instituto Centro de Ensino Tecnológico – Centec e o Sindicato dos Fazendários do Ceará – Sintaf, com o objetivo de formar condutores de turismo preparados para apresentar aos visitantes os lugares relacionados à trajetória da heroína.
A rota contempla localidades do Cariri, como Crato e Campos Sales, além de Exu, em Pernambuco, e Fronteiras, no Piauí, podendo envolver ainda comunidades quilombolas, sítios paleontológicos e outros espaços de relevância histórica e cultural.
Para isso, o CVTec Crato ofereceu gratuitamente um curso de qualificação, unindo conteúdos sobre a própria rota, turismo sustentável, patrimônio, empreendedorismo, inglês e outros conhecimentos necessários à formação dos futuros condutores.
E foi a primeira turma concluinte dessa formação que escolheu a ECEIBA, em Campos Sales, para celebrar esse momento especial.
Uma celebração memorável
No dia 28 de agosto de 2026, exatamente na data dedicada à heroína, os concluintes do curso, foram recebidos na Estação de Cultura Ecopedagógica e Instituto Bárbara de Alencar para um almoço oferecido pela Fundação Sintaf.
Mas aquele encontro foi muito além de uma confraternização.
Foi um encontro com a memória.
Ao chegarem à ECEIBA, os novos condutores tiveram a oportunidade de conhecer um espaço cultural que guarda um expressivo acervo de cordéis e livros sobre Bárbara de Alencar.
E é justamente aí que o encontro ganha uma dimensão especial.
Antes de conduzir turistas pelos caminhos geográficos de Bárbara, aqueles profissionais tiveram a oportunidade de entrar em contato com os caminhos da palavra.
Porque o cordel também é caminho.
É caminho de memória, de identidade, de resistência e de conhecimento.
O cordel como guardião da memória
Em um espaço dedicado a Bárbara de Alencar, a presença do cordel não é apenas decorativa. Ela é essencial.
Os versos populares ajudam a aproximar a personagem histórica das pessoas. Transformam datas, acontecimentos e personagens em narrativas que podem ser lidas, declamadas e compartilhadas.
O visitante que chega à ECEIBA encontra livros que registram a história e cordéis que a fazem pulsar.
É a história acadêmica dialogando com a poesia popular.
É o documento encontrando a oralidade.
É a pesquisa encontrando a rima.
É a memória encontrando o povo.
Nesse cenário, a presença das cordelistas Raimunda Máximo e Esmeralda Costa, autoras de obras dedicadas à heroína, representa também o reconhecimento do papel que a Literatura de Cordel desempenha na preservação da história de Bárbara.
Os cordéis ali presentes são, de certa forma, pequenas estradas de papel. Cada estrofe conduz o leitor a um episódio, a uma lembrança, a uma reflexão.
E quando esses versos chegam às mãos dos futuros condutores turísticos, eles ganham ainda outra função: podem se tornar instrumento de interpretação cultural para aqueles que irão apresentar a história de Bárbara a visitantes de diferentes lugares.
Entre livros, cordéis e novos caminhos
O encontro contou com a presença da diretora da ECEIBA, Magnólia Arrais; das professoras e poetas cordelistas Raimunda Máximo e Esmeralda Costa; de representantes do CVTec, unidade de Campos Sales; da multiartista e educadora Amanda Sousa; e do artista de Lentes do Sertão, João Leandro.
Cada um, a seu modo, contribuiu para tornar aquele momento ainda mais significativo.
Educação, turismo, literatura, fotografia, arte e memória se encontraram sob o mesmo teto.
E talvez essa seja uma das grandes lições do dia: preservar a história não significa apenas olhar para trás. Significa criar caminhos para que ela continue chegando ao futuro.
A formação dos novos condutores representa exatamente isso.
Eles irão percorrer estradas, visitar lugares, receber pessoas e contar histórias. E, ao fazê-lo, poderão levar consigo não apenas informações históricas, mas também a sensibilidade de quem conheceu um espaço onde a memória de Bárbara é preservada por meio da literatura, especialmente pela Literatura de Cordel.
Bárbara segue viva
Celebrar o Dia de Bárbara de Alencar em Campos Sales é reconhecer que a história pode permanecer viva de muitas maneiras.
Pode estar em um livro, em uma fotografia, na beleza de uma cantoria, na voz de uma professora, em uma sala de aula ou nos versos e rimas de um cordel.
E pode estar, também, no caminho percorrido por um visitante que deseja conhecer a história de uma mulher que ousou lutar por seus ideais.
Bárbara continua caminhando.
Caminha pelas páginas dos livros, pelas estantes da ECEIBA, pelas vozes dos poetas e pelos versos dos cordéis.
Agora, caminha também pelos novos Caminhos de Bárbara de Alencar, conduzida por aqueles que receberam a missão de apresentar sua história às novas gerações.
E que bom que, nessa caminhada, o cordel também está presente.
Porque quando a história encontra a poesia popular, ela deixa de ser apenas lembrança.
Ela ganha voz, ganha verso, ganha identidade e permanece viva.
Salve o Dia de Bárbara de Alencar!
Viva a ECEIBA!
E Viva o Cordel Brasileiro!
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Esmeralda Costa é natural de Campos Sales-CE. Membra da Academia Poética Brasileira(APB), Membra Fundadora da Academia Cearense de Literatura de Cordel (ACLC), Membra da Academia Internacional de Literatura Brasileira(AILB) e Sócia Correspondente da Academia Groairense de Letras(AGL)
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