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JOÃO AURÉLIO DO VALE: “ENQUANTO HOUVER QUEM CARREGUE ESSA BANDEIRA, A HISTÓRIA DO MEU PAI NÃO IRÁ MORRER”

Filho de João do Vale fala sobre o homem por trás do compositor, as lembranças da infância, a importância da educação na família e a responsabilidade de preservar uma das obras fundamentais da música popular brasileira.

29/08/2026 10h48
Por: Mhario Lincoln Fonte: Iva Lima ENTREVISTAS
Iva e João aurélio do Vale. (Arte: mhl/ginaiFT).
Iva e João aurélio do Vale. (Arte: mhl/ginaiFT).

Entrevistadora: Iva Lima
Entrevistado: João Aurélio do Vale
Produção editorial: Plataforma Nacional do Facetubes

Aos 47 anos, João Aurélio do Vale carrega no nome e na memória uma ligação direta com um dos grandes compositores da música brasileira. Nascido em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, graduado em Administração pela Universidade Paulista (UNIP) e produtor cultural, dedicou parte de sua trajetória à preservação e difusão da cultura nordestina e, em especial, da obra de seu pai, João do Vale. Produziu no Rio de Janeiro eventos como o Tributo a João do Vale, a Live na Casa de João e o Prêmio João do Vale. Foi diretor da Escola de Música A Voz do Povo e gestor do Parque João do Vale, onde desenvolveu eventos culturais. Nesta conversa com Iva Lima, fala menos do monumento chamado João do Vale e mais do pai, do homem, das lembranças familiares e da responsabilidade de fazer essa história chegar às novas gerações.

IVA LIMA — Olá, queridos leitores do Facetubes. Mhario Lincoln, querido, estou aqui maravilhada. Estou conhecendo pessoalmente João Aurélio, filho do nosso eterno mestre João do Vale. É uma mistura de emoção, nervosismo e gratidão a Deus por esta oportunidade. João, quero começar perguntando: quem foi e quem é João do Vale para você?

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JOÃO AURÉLIO DO VALE — Primeiro, estou muito feliz e também um pouco tímido, porque sou uma pessoa tímida. Para mim, João do Vale, o artista, foi um dos maiores. É como um menino que gosta de futebol e tem o Pelé como referência, como o rei. No meu caso, esse homem é meu pai. É um orgulho que não tem tamanho.

Fico muito feliz pelo legado e pelas obras que ele deixou. Até hoje, em todo lugar aonde vou, encontro pessoas que falam sobre suas músicas e demonstram carinho pela obra dele. Isso me dá muito orgulho.

IVA LIMA — João, se você tivesse hoje a oportunidade de estar diante do seu pai, o que diria a ele?

JOÃO AURÉLIO DO VALE — Essa pergunta chega a me emocionar. Eu diria que o amo muito. Quando meu pai faleceu, eu tinha 21 anos. Era muito jovem e, infelizmente, não pude viver com ele tudo o que gostaria de ter vivido. Deus sabe de todas as coisas e aquela foi a hora da partida dele.

Uma coisa que me entristece é justamente ter vivido pouco tempo com meu pai em determinadas fases da vida dele. Antes de falecer, ele sofreu um derrame que trouxe muitas limitações. Eu era ainda muito novo e tive poucas oportunidades de acompanhá-lo em shows.

Então, se pudesse falar com ele hoje, diria que o amo muito e que tenho um orgulho enorme da história dele. Um menino pobre, negro, que saiu do interior do Maranhão ainda muito jovem, foi para o Rio de Janeiro sem conhecer praticamente ninguém e conquistou tudo o que conquistou. Esse é um orgulho enorme que ele deixou para mim.

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IVA LIMA — Existe alguma música de João do Vale que marcou particularmente a história de vocês dois? Uma música que, quando você escuta, imediatamente traz alguma lembrança dele?

JOÃO AURÉLIO DO VALE — Existem várias. “Carcará”, claro, é uma música que não pode faltar quando se fala de João do Vale.

Só que existe uma que mexe muito comigo: “Orós II”. Ela me marca porque acompanhei o período em que aquela música nasceu. Meu pai a dedicou ao Fagner, que depois a gravou. Então, quando escuto “Orós II”, a lembrança é muito forte para mim.

IVA LIMA — Como é carregar o nome João do Vale?

JOÃO AURÉLIO DO VALE — É uma responsabilidade muito grande. Às vezes, as pessoas esperam que eu tenha também o talento artístico do meu pai. Em muitos lugares a primeira pergunta que fazem é: “Você canta?”.

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Não. Eu não sou artista. Não recebi esse dom.

A minha responsabilidade é outra. Trabalhei na gestão do Parque João do Vale, um espaço que conta a história do meu pai e guarda parte dessa memória. Então existe uma responsabilidade de fazer com que as novas gerações saibam quem foi João do Vale, qual é a importância dele para o Maranhão e o lugar que sua obra ocupa na música popular brasileira.

IVA LIMA — E como você enxerga hoje o reconhecimento da obra de João do Vale no Brasil?

JOÃO AURÉLIO DO VALE — Vou contar uma coisa que me marcou. Sou muito chamado para ir às escolas falar sobre meu pai. Certa vez, um avô veio falar comigo porque o neto dele, um menino de aproximadamente cinco anos, era fã de João do Vale e queria tirar uma fotografia comigo.

Aquilo me tocou profundamente. Meu pai faleceu há muitos anos e, mesmo assim, uma criança de cinco anos conhece e gosta da obra dele.

Quando vejo escolas trabalhando sua história e crianças conhecendo suas músicas, fico muito feliz. É a demonstração de que ele continua sendo reconhecido e acredito que continuará sendo durante muitos anos.

IVA LIMA — E nós, que fazemos parte desse universo do forró, ficamos sempre na expectativa de que esses mestres sejam cada vez mais conhecidos e valorizados. Qual lembrança de seu pai ficou mais profundamente marcada na sua vida?

JOÃO AURÉLIO DO VALE — Uma história que marcou profundamente meu pai foi ter sido retirado da escola, ainda criança, para que sua vaga fosse dada ao filho de um coletor de impostos que havia chegado a Pedreiras.

Aquilo marcou a vida dele e, de certa forma, passou para nós. Meu pai sempre cobrou dos filhos os estudos. Sempre nos mostrou a importância que a educação tem na vida de uma pessoa.

Ele sofreu muito por ter perdido aquele direito quando criança. Foi uma frustração que o acompanhou e acabou marcando toda a família. Talvez exatamente por ter sido impedido de estudar ele tenha feito tanta questão de mostrar aos filhos o valor da educação.

 

IVA LIMA — Além de filho, você acabou se tornando também um dos guardiões desse legado. O que o Brasil talvez ainda não conheça sobre João do Vale?

JOÃO AURÉLIO DO VALE — Acho que muita gente conhece o João do Vale artista. O que talvez conheça menos é o João do Vale pai.

Era um homem muito carinhoso com os filhos. Falava muito sobre a importância dos estudos, justamente porque haviam tirado dele essa oportunidade quando criança.

E meu pai, apesar de não ter tido a formação escolar que desejava, era uma pessoa extremamente culta. Quem conviveu com ele sabe disso. Conversava sobre tudo: futebol, política, música, a vida. Era um homem muito inteligente.

Tenho muito orgulho dele.

IVA LIMA — Um orgulho para todos nós. E acredito que, enquanto existirem pessoas comprometidas com o forró de raiz e o pé de serra, a história de João do Vale continuará viva.

JOÃO AURÉLIO DO VALE — É isso. A continuidade depende também de nós. E fico feliz porque existem músicos, familiares, amigos e muita gente tocando João do Vale, cantando suas músicas e levando essa história adiante.

Isso vai formando uma família. E, quando digo família, não falo somente dos parentes. Falo também dos amigos, das pessoas agregadas, de todos aqueles que carregam essa bandeira e ajudam a preservar essa história.

IVA LIMA — É um verdadeiro clã cultural, uma família formada também por aqueles que assumiram a defesa dessa obra. Há músicos, pesquisadores, forrozeiros e pessoas de diferentes lugares levando João do Vale em seus repertórios e projetos. Inclusive fora do Brasil existem pessoas empenhadas nessa divulgação.

JOÃO AURÉLIO DO VALE — Exatamente. Enquanto houver pessoas fazendo isso, a história do meu pai não irá morrer.

 

IVA LIMA — João Aurélio, muito obrigada por este momento e por sua disponibilidade. Quero dizer que você pode contar conosco para ajudar a levar o nome de João do Vale aos quatro cantos do mundo, sem fronteiras. Para encerrarmos, gostaria que você deixasse uma mensagem para Mhario Lincoln, editor da Plataforma Nacional do Facetubes.

JOÃO AURÉLIO DO VALE — Meu amigo Mhario Lincoln, quero primeiramente agradecer o convite e a oportunidade de participar e falar um pouco da história do meu pai.

Quero também parabenizar essa iniciativa de reconhecer e valorizar os grandes mestres, que merecem esse reconhecimento.

Vocês estão de parabéns. Muito obrigado.

IVA LIMA — Obrigada.

 

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Aglair de Jesus BessaHá 3 horas atrásRio de JaneiroGente, não conhecia esse lado do João do Vale. Perfeita a entrevista. Aleluia! Que Deus o tenha. O conheci aqui no Rio no Bar Degraus.
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