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A angústia de Nauro Machado: o corpo também participa do poema?

As mudanças bioquímicas do organismo podem influenciar a maneira como um poeta escreve? A angústia diante da morte e das dúvidas sobre a existência participa desse processo? Essas perguntas oferecem uma possibilidade de leitura da poesia de Nauro Machado, na qual o corpo e o sofrimento aparecem ligados à busca de compreender a vida.

27/09/2026 09h54 Atualizada há 3 horas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Pesquisa e Extensão. Texto final de Mhario Lincoln.
Nauro Machado (releituraGinaiFT)
Nauro Machado (releituraGinaiFT)

Editoria de Pesquisa e Extensão. Texto final de Mhario Lincoln.

Eu sei que haverá discordância em ‘gênero, número e grau’ com pertinência a este meu texto. Justo! Sou a favor do livre pensamento e da livre interpretação. Por isso o escrevi fugindo um pouco das linhas tradicionais, geralmente usadas em biografias ou críticas literárias. Decidi ir mais longe, a partir do momento que reli a entrevista publicada pelo jornal/revista Rascunho, em maio de 2003 e organizei trechos de pesquisa devidamente recolhidas pela equipe da Editoria de Pesquisa e Extensão do Facetubes.

 

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No jornal/revista Rascunho o entrevistador foi Ricardo Leão - poeta e ensaísta – que identificou, nessa conversa com Nauro Machado, uma reflexão existencial marcada pela angústia. Aproximar essa entrevista dos meus estudos sobre os sentimentos, a mim me permitiu investigar como a experiência de sentir pode chegar à linguagem. Ou seja, procurei acrescentar à genialidade do grande poeta Nauro, algo um pouco mais além do que sua poética exterior. Assim, peço aos leitores, paciência e entendimento. 

Vamos começar com estudos dos neurocientistas associados ao Brain and Creativity Institute na University of Southern California (USC), António Damásio e Gil B. Carvalho. Ambos oferecem um ponto de partida: em artigo publicado em 2013, descrevem os sentimentos como experiências mentais dos estados do corpo. Nessa perspectiva, o que sentimos envolve a maneira como o cérebro acompanha e representa o funcionamento do organismo.

Assim, a aproximação com os dilemas existenciais, por exemplo, pode ser formulada como uma hipótese de leitura: pensar na morte, recordar uma perda ou enfrentar a solidão acaba por envolver sensações corporais que participam da experiência emocional e literária. Não que tal assertiva possa ter sido elaborada especialmente para casos como o de Nauro Machado. Porém, por outras vertentes, vale acreditar que uma maior “tempestada química: solidão, angustia etc” poderia ter influenciado a linha lírica de Nauro, a partir do momento em que seu pai faleceu. Ele mesmo, na entrevista a Ricardo Leão, disse.

 

Isso porque, a possibilidade de uma mudança química intensificar a ansiedade (e outros sentimentos doídos) possui apoio experimental. Em 1984, Dennis Charney, George Heninger e Alan Breier - renomados médicos, neurocientistas e pesquisadores norte-americanos que ganharam grande destaque internacional por suas contribuições revolucionárias na área da neurobiologia - estudaram os efeitos de uma substância cerebral que aumenta a atividade do sistema ligado à noradrenalina, envolvido nas respostas de alerta.  

Observaram aumento da ansiedade mais pronunciado entre pacientes com influência direta da química do próprio organismo, sobre o estado emocional. Outros estudos chegaram a mesma conclusão ao analisarem dezenas de trabalhos líricos e constatarem que a passagem desse estado orgânico para um poema angustiado tem amparo direto, ainda que no campo da hipótese. Todavia, com amplas chances de ser estudado mais profundamente.

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Essa minha linha de leitura, mais próxima de uma abordagem científica, só reforça a maestria e a dimensão da obra de Nauro Machado. Porque não se trata de uma poesis lyrica communis, em que sofrer basta para produzir poesia. Em Nauro, o sofrimento não aparece como matéria bruta transposta diretamente para o verso. Ele passa por um processo de elaboração, tensão e transformação. Sob essa ótica, Nauro não está apenas poetando dentro de uma forma autêntica de criação: atua como um artesão das próprias entranhas, convertendo em linguagem poética aquilo que apreendeu no disforme da realidade, com seus medos, com sua solidão (lírica) e com os conflitos mais profundos de sua experiência poética.

Ora, para transformar um sofrimento tão explicitamente vivido em obra de arte — com ou sem a participação dessas intensas “tempestades químico-elétricas”¹ que acompanham a atividade cerebral — é necessário algo que ultrapasse a simples experiência da dor: sofrer, por si só, não produz literatura. A matéria dolorosa precisa atravessar linguagem, consciência, memória e elaboração estética até adquirir forma.

 

É nesse território que Nauro Machado se aproxima de escritores que fizeram da tensão interior uma das forças de sua criação, entre eles Fiódor Dostoiévski, autor frequentemente associado à ideia de que o sofrimento pode conduzir o homem a regiões mais profundas da consciência.

“O sofrimento não é um acaso pessimista, mas o motor central da condição humana e a única via para a lucidez e a purificação da alma.” — frase atribuída a Fiódor Dostoiévski

Aliás, Nauro recorria ao escritor russo em suas próprias “iluminações”, conforme declarou na entrevista concedida a Ricardo Leão, em 2003. A aproximação não parece casual. Dostoiévski levou à literatura conflitos morais, espirituais e psicológicos alojados nas regiões mais profundas da experiência humana. Nauro, em outra linguagem e dentro de sua própria arquitetura poética, também avançou sobre esses territórios: o medo, a morte, a solidão, o corpo, o abismo existencial e aquilo que o homem procura esconder de si mesmo.

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É nesse sentido que sua poesia se apresenta despojada, muitas vezes corporalmente exposta. Donaldo Schüler, escritor, tradutor, ensaísta e professor, sintetizou essa característica ao observar:

“Nauro oferece corpo e poema despidos, de modo a expor as partes normalmente encobertas (...).”

Há ainda um depoimento de Nauro Machado que merece atenção especial. Na mesma conversa com Ricardo Leão, o poeta fala de uma “abissal angústia existenciária”. A expressão ajuda a compreender a recorrência de determinadas imagens, temas e tensões em sua obra. A poesia parece retornar continuamente a núcleos abrasivos, como se a escrita procurasse dar forma ao que permanecia internamente sem resolução definitiva. E mais: foi justamente nessa entrevista que surgiu uma pista para outra possibilidade de leitura de sua criação. Nauro admitiu que a morte do pai poderia ter despertado um impulso poético que já existia nele. A afirmação não autoriza diagnóstico nem conclusão causal. Abre, contudo, uma hipótese de investigação: a de que determinados acontecimentos biográficos tenham atuado como disparadores de processos emocionais, cognitivos e criativos, presentes em sua estrutura íntima.

 

A partir daí, a Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes passou a considerar outro caminho de estudo para a obra do poeta ludovicense-universal, nascido em 2 de agosto de 1935. Não o caminho de uma explicação médica de sua poesia, nem a tentativa de reduzir sua criação à bioquímica cerebral. O interesse passou pela observação de: até que ponto a experiência, memória, sofrimento, atividade emocional de Nauro podem ter encontrado elaboração estética na construção de uma linguagem poética que transformou matéria íntima em obra literária?

A conclusão é de que a poesia de Nauro Machado pode ultrapassar os limites da crítica literária e alcançar uma zona de interpretação mais ampla. Sua poética mantém relação constante com perda, memória e necessidade de expressão. A adversidade, nesse campo, deixa de ser apenas experiência dolorosa e passa a funcionar como matéria de elaboração. Destarte, se pode compreender a passagem entre um simples poeta e aquele - poeta maximus - capaz de converter conflito íntimo em linguagem de plenitude.

Nauro pode ser lido, por hipótese, à luz de certas ideias associadas ao Übermensch, de Nietzsche, assim como em aproximação com conceitos da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Mas, não se trata de enquadrá-lo em qualquer dessas teorias, e sim de perceber como sua obra transforma tensão, perda e angústia em forma poética de forma extraordinariamente incomum.

 

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Capa da época, acrescida da chamada.

Confesso que estou com dificuldades para finalizar este texto diante de tantas informações e da beleza e emoção que foi construir esse possível relacionamento de Nauro com a ciência neurológica. Foram vários dias de pesquisa com a ajuda da equipe da editoria. Mas, acho que posso imprimir um ‘the end’ voltando ao depoimento ao jornal/revista Rascunho, e recordando a leitura de Fritz Teixeira de Salles. Em determinado trecho, Nauro Machado referiu-se justamente ao encontro entre disciplina formal e experiência da tragédia. (Belo “start”). Esse testemunho ajuda a compreender a arquitetura de seus poemas, a inquietação das escolhas, as imagens do corpo, da morte e da existência.

Atenção: há um limite que precisa permanecer claro. Esta é apenas uma hipótese de leitura. Nunca me veio a ideia de reduzir as imagens líricas de Nauro a sintomas, circuitos ou respostas neurais. Nunca! Por isso que trabalhei e explicitei ‘hipóteses’. Se eu desse a esse meu insight algum tom afirmativo, significaria apagar aquilo que Nauro tem de essencial — a capacidade de transformar experiência em linguagem, dor em construção estética e conflito interior em poesia.

 

Portanto, a linha de raciocínio exigida por esta pauta apenas aproxima, como possibilidade interpretativa, as “tempestades elétricas e químicas” (electrical and chemical storms), evocadas por David Eagleman, e as “experiências mentais dos estados do corpo”, discutidas por António Damásio e Gil B. Carvalho. Porque a poesia de Nauro não se encerra nessas formulações. Elas apenas abrem outra janela de leitura para compreender de que maneira sofrimento, corpo, memória e consciência podem participar do processo criativo. Para Nauro, (repito) a angústia não permaneceu apenas como experiência íntima. Ganhou forma, ritmo, corpo e permanência por meio de seu trabalho com a linguagem. Porque nenhuma hipótese científica, filosófica ou psicológica pode substituir, reduzir ou dissimular a dimensão de uma obra construída por um dos grandes nomes da poesia brasileira do século XX. Nem mesmo quando “a lógica não atende”, como escreveu Henriqueta Lisboa ao ler os originais de Os Órgãos Apocalípticos e registrar, em uma das orelhas do livro, uma percepção que atravessou o tempo:

“O teor de sua poesia é de violência, tanto maior ao aproximar-se do plano metafísico, em angustiadas perquirições a que a lógica não atende.”

Talvez esteja aí uma das chaves de Nauro Machado: quando a lógica já não consegue responder, a poesia assume o risco de permanecer diante do abismo.

Uma vez Nauro, sempre Nauro.

Editoria de Pesquisa e Extensão. Texto final de Mhario Lincoln.

 

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Fontes: Ricardo Leão, Sina de solitário — entrevista com Nauro Machado, Rascunho, maio de 2003; António Damásio e Gil B. Carvalho, The Nature of Feelings: Evolutionary and Neurobiological Origins, Nature Reviews Neuroscience, 2013; Dennis Charney, George Heninger e Alan Breier, Noradrenergic Function in Panic Anxiety, Archives of General Psychiatry, 1984. Tradição e Ruptura-A Lírica Moderna de Nauro Machado/S.Luís2002, (Ricardo Leão). Henriqueta Lisboa, poetisa brasileira. Em 1963, foi a primeira mulher eleita membro da Academia Mineira de Letras. Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. ¹ Nota científica — corpo dois pontos menor: A expressão “tempestades elétricas e químicas” (electrical and chemical storms) é utilizada em linguagem de divulgação neurocientífica para representar a intensa atividade eletroquímica produzida por redes de neurônios envolvidas na formação de pensamentos, emoções, memória e percepção. O neurocientista David Eagleman recorre a imagens dessa natureza ao explicar o funcionamento dinâmico do cérebro. (https://rascunho.com.br/entrevista/sina-de-solitario/)

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Regis Furtado Há 2 horas atrásSão Luis - MABelo e lúcido texto. Parabéns!
Luis Covas NetoHá 2 horas atrásEditor/São PauloSPInalcansável o Nauro. Bem dito, Mário.
Jurandir Leite de MacedoHá 2 horas atrásSão Luís MaCom todo respeito. Mas essa observação do Mhario Lincon merece muita atenção. É diferente de tudo que havia lido sobre Nauro Machado.
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