Sábado, 25 de Julho de 2026 12:06
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Brasil Exclusivo

De Carlos Nina, especial para a Plataforma Nacional do Facetubes: “A erosão do discernimento”.

Carlos Nina é advogado, consultor jurídico, ex-presidente da Ordem dos advogados, seccional MA

25/07/2026 09h49
Por: Mhario Lincoln Fonte: Dr. Carlos Nina (autor)
Arte: MHL/GinaiFT
Arte: MHL/GinaiFT

Carlos Nina

"O problema não está em ver tudo. Está em começar a sentir quase nada."

Há algo de inquietante acontecendo diante dos nossos olhos — e talvez justamente por isso já não consigamos mais enxergar com clareza.

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Nunca tivemos acesso tão imediato ao mundo. Em poucos segundos atravessamos continentes, acompanhamos guerras, festas, tragédias e conquistas. A promessa tecnológica era ampliar consciência, aproximar pessoas e democratizar o conhecimento. Mas o resultado parece paradoxal: quanto mais vemos, menos compreendemos; quanto mais somos expostos ao sofrimento e à celebração, menos conseguimos distinguir o que realmente importa.
Nas redes sociais, os acontecimentos perderam hierarquia emocional.

Uma partida de futebol provoca explosões de alegria; logo adiante surgem imagens de destruição; vídeos de luxo ostensivo, consumo transformado em espetáculo e vidas cuidadosamente editadas para parecer perfeitas. Depois, tragédias pessoais, degradação urbana, escândalos e descartes humanos. Tudo ocupa o mesmo espaço. Tudo recebe o mesmo gesto mecânico: deslizar o dedo.

 

O problema não está em ver tudo. Está em começar a sentir quase nada.

O filósofo Guy Debord antecipou que viveríamos numa sociedade do espetáculo (1967). Hoje, o espetáculo deixou de ser apenas representação e tornou-se ambiente permanente da existência. Não apenas observamos o mundo: passamos a habitá-lo como fluxo contínuo de imagens.

(Arte:MHL/GinaiFT)

Nesse processo, o extraordinário e o banal perderam fronteiras.

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A repetição do sofrimento produz anestesia. A guerra torna-se atualização. A catástrofe vira tendência. A dor converte-se em conteúdo. Não porque as pessoas tenham se tornado necessariamente cruéis, mas porque nenhum indivíduo suporta permanecer indefinidamente em estado de choque.

Para continuar funcionando, aprendemos a nos proteger pela indiferença.

Ao mesmo tempo, consolidou-se uma cultura da exposição permanente. Não basta viver; é preciso mostrar. Não basta possuir; é necessário exibir. O luxo torna-se performance pública enquanto o lixo também ganha visibilidade e circulação. Tudo entra na mesma economia da atenção.

 

Como se não bastasse, cresce uma crise ainda mais profunda: a da verdade.

Nunca circularam tantas informações e nunca foi tão difícil distinguir realidade e fabricação. Conteúdos manipulados, imagens descontextualizadas e uma enxurrada de falsidades desorientam o julgamento e corroem a confiança coletiva.
Nesse cenário surge a inteligência artificial — ferramenta poderosa e, ao mesmo tempo, fonte de novas inquietações. Se imagens, vozes e textos podem ser produzidos artificialmente com aparência de autenticidade, instala-se uma dúvida silenciosa: aquilo que vemos aconteceu de fato ou são manipulações que subvertem o espaço público? (Paulo Menezes, 2020).

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O desafio do presente não é reduzir o fluxo das telas, mas recuperar o discernimento.
Num mundo em que um gol e um bombardeio disputam o mesmo espaço e o mesmo segundo de atenção, preservar o espanto, a sensibilidade e o senso crítico talvez seja uma das últimas formas de resistência humana.

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Dra. Professora Amélia Duarte BelchiorHá 2 horas atrásUberlândia - MinasEsta é a maior plataforma do Brasil. Basta abrir e aqui está: um artigo sóbrio, forte e pronto para que eu compartilhe com minha lista de amigos e amigas. Obrigado, dr.
Maria Lucia VinhasHá 2 horas atrásSão Luís MaSerá que esses energúmenos vão entender, caro Nina: O desafio do presente não é reduzir o fluxo das telas, mas recuperar o discernimento.
Dr. Tertuliano de Azevêdo BacchaHá 2 horas atrásRio de Janeiro RJIncomensuráveis palavras, caro Mestre.
Dr. Juarez Miranda SobrinhoHá 2 horas atrásBrasília DFImpossível não concordar.
Alexandre GomesHá 2 horas atrásSão Paulo SPTexto explosivo, caro Nina.
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