Esmeralda Costa , Professora e poetisa cordelista de Campos Sales-CE.(*)
Durante muito tempo, ouviu-se dizer que a modernidade colocaria fim às manifestações populares. Que os livros de papel perderiam espaço para as telas. Que os jovens já não se interessariam pela poesia. Que o cordel, tão presente nas feiras nordestinas, acabaria restrito às estantes dos pesquisadores ou às lembranças dos mais velhos.
O tempo, porém, tratou de desmentir essas previsões.
A literatura de cordel não apenas resistiu, como encontrou novas formas de florescer. Hoje, ela percorre caminhos antes inimagináveis: está nas escolas, nas universidades, nas redes sociais, nas bibliotecas digitais, em festivais literários e em projetos culturais que aproximam crianças, adolescentes e adultos desse patrimônio tão precioso. O folheto continua sendo símbolo de sua história, mas os versos já atravessam telas de celulares e computadores, alcançando leitores em todas as partes do Brasil e também do mundo.
Essa renovação não significa abandonar as raízes. Pelo contrário. O cordel permanece fiel à sua essência: contar histórias, preservar memórias, registrar acontecimentos e dar voz ao povo. O que mudou foi a forma de dialogar com uma sociedade que também mudou.
Os grandes mestres do passado versavam sobre acontecimentos do seu tempo, transformando fatos cotidianos em poesia. Os cordelistas de hoje seguem exatamente essa mesma tradição. Falam sobre meio ambiente, educação, inclusão, tecnologia, direitos humanos, saúde, inteligência artificial e tantos outros temas que fazem parte da vida contemporânea. A métrica segue firme, a rima permanece encantando, mas os assuntos que são os mais variados, acompanham os desafios do século XXI.
Outro movimento merece ser celebrado: a presença cada vez mais expressiva das mulheres na literatura de cordel. Durante décadas, muitas poetisas produziram belíssimos trabalhos sem receber o reconhecimento merecido. Felizmente, esse cenário vem sendo transformado. Hoje, escritoras ocupam espaços de liderança em academias, desenvolvem pesquisas, promovem oficinas, conquistam premiações e mostram, por meio de seus versos, que o cordel também é território de vozes femininas, plurais e indispensáveis.
Talvez uma das maiores vitórias do cordel esteja justamente na sala de aula. Quantos estudantes descobriram o prazer da leitura por meio de uma sextilha? Quantos compreenderam melhor a história, a cultura, a língua portuguesa e a identidade nordestina ao folhear um pequeno livreto? Quando o cordel entra na escola, ele não leva apenas poesia. Leva pertencimento. Leva autoestima. Leva o reconhecimento de que a cultura produzida pelo povo também ocupa lugar de destaque no conhecimento. Foi nessa perspectiva que nasceu o projeto: Entre Versos e Memórias, o Cordel Como Voz e Identidade de um Povo, que visa valorizar a Literatura de Cordel como uma importante manifestação da cultura popular nordestina e como instrumento de preservação da memória, da história e da identidade de nosso povo. Ao longo das oficinas, os participantes conhecerão a origem do cordel, suas características, alguns dos seus principais autores e aprenderão, de forma prática, a criar seus próprios versos.
Mais do que aprender técnicas de escrita, esta experiência busca despertar nos estudantes o gosto pela leitura, pela pesquisa e pela valorização da história e da cultura local. Dentre as várias atividades, que serão desenvolvidas nas oficinas do projeto, será produzido coletivamente um cordel sobre o Tabelião Vicente Alexandrino de Alencar, personagem de grande relevância para a história do município e para a escola que recebe o seu nome, o projeto aprovado pela Política Nacional Aldir Blanc, será desenvolvido com 30 alunos da Escola de Ensino Fundamental em Tempo Integral Tabelião Vicente Alexandrino de Alencar e tem como objetivo contribuir para o registro e a divulgação da memória local.
O reconhecimento da Literatura de Cordel como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 2018, foi uma conquista histórica. Mas nenhum título oficial, por mais importante que seja, consegue explicar sozinho a permanência dessa arte. O cordel continua vivo porque continua sendo necessário. Ele emociona, informa, diverte, denuncia, educa e faz pensar.
Vivemos numa época em que tudo parece acontecer com extrema rapidez. As notícias envelhecem em poucas horas, os conteúdos são consumidos em segundos e a atenção se dispersa facilmente. Nesse cenário, o cordel oferece algo raro: tempo para ouvir, refletir e sentir. Seus versos nos convidam a caminhar sem pressa, lembrando que a palavra, quando bem trabalhada, continua sendo uma das formas mais poderosas de construir pontes entre pessoas, gerações e culturas.
Ver jovens escrevendo cordéis, professores utilizando essa literatura em suas aulas, pesquisadores dedicando-se ao estudo do gênero e novos leitores descobrindo a beleza da poesia popular é motivo de esperança. Não porque o cordel esteja vivendo uma moda passageira, mas porque demonstra uma característica presente desde sua origem: a extraordinária capacidade de se reinventar sem perder sua identidade.
Talvez, por isso, seja equivocado afirmar que o cordel está renascendo. Na verdade, ele nunca morreu. Permanece vivo nas feiras, nas escolas, nas praças, na voz dos repentistas, nas estantes dos apaixonados pela cultura popular e, sobretudo, no coração de quem acredita que a poesia também pode transformar a realidade.
Enquanto houver alguém disposto a rimar a vida, contar histórias e preservar a memória do seu povo, haverá cordel. E enquanto houver cordel, continuará viva uma das mais belas expressões da alma nordestina e da cultura brasileira.
(*) Esmeralda Costa, Professora e poetisa cordelista de Campos Sales-CE.
Membra da Academia Poética Brasileira, Academia Cearense de Literatura de Cordel, Academia Internacional de Literatura Brasileira e Academia Groairense de Letras.
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