Nota do editor: Não é toda vez que a Plataforma Nacional do Facetubes tem o privilégio de publicar textos ou poemas da incrível Nauza Luza Martins. Mulher destemida, corajosa, - eu a tenho com grande admiração - cujo trabalho literário vem sendo aplaudido no Brasil e no Exterior. Afora suas escritas, louva-se a capacidade que ela tem para reunir poetas e escritores em torno de suas Antologias de sucesso. Mas, quando o assunto é literatura autoral, vê-se uma Nauza madura, consciente e viril, como no texto abaixo, exclusivo para a Plataforma do FT. Obrigado sempre pelo envio de suas reflexões que são compartilhadas com muuitas pessoas que gostariam de ler esse texto.
Nauza Luza Martins – Lua de Vênus
Desde aquela noite, passei a observar a lua de um jeito diferente. Não porque ela tivesse mudado. Eu mudara e percebi que há encontros que acontecem antes mesmo de duas pessoas caminharem lado a lado. Eles começam dentro da alma, quando alguma presença desconhecida desperta perguntas que estavam adormecidas havia muito tempo.
Foi assim. Não sei exatamente quando aquele homem entrou nos meus pensamentos. Talvez tenha sido durante uma conversa breve. Talvez por causa de um olhar mais demorado. Ou quem sabe ele sempre estivesse por perto e eu só agora tivesse aprendido a percebê-lo.
Há homens que chegam fazendo barulho. Outros chegam em silêncio. Os primeiros costumam impressionar. Os segundos permanecem. Ele pertencia ao segundo grupo.
Nunca falava mais do que o necessário. Escolhia as palavras com cuidado, como quem conhece o peso que elas carregam. Havia serenidade em sua voz, mas também uma espécie de distância que eu não conseguia decifrar. Aquilo despertava minha curiosidade. Não para invadir seus segredos. Mas para compreender quais histórias haviam construído aquele silêncio.
Com o passar dos dias, comecei a imaginar que homens maduros talvez amassem de maneira diferente. Já não precisam provar sua força. Precisam apenas encontrar alguém diante de quem possam descansar a armadura.
Durante muitos anos pensei que somente as mulheres colecionassem cicatrizes afetivas. Hoje sei que não. Os homens também atravessam desertos. Também perdem. Também choram, ainda que muitas vezes aprendam a esconder as lágrimas atrás da firmeza que o mundo lhes ensinou a exibir. Talvez seja por isso que ele parecesse caminhar com tanta cautela. Talvez estivesse protegendo o coração ou apenas aguardasse o instante em que a confiança florescesse naturalmente, como florescem os ipês de Brasília depois de um longo período de seca.
Então compreendi que não desejava respostas imediatas. A maturidade nos ensina que as melhores histórias não acontecem depressa. Elas amadurecem como o vinho servido em noites especiais. Ganham sabor com o tempo. Ganham verdade com a espera.
Naquela noite, voltei à janela. A lua continuava no mesmo lugar. Sorri ao imaginar que ela conhecia aquele homem muito antes de mim. Talvez já tivesse iluminado seus caminhos em noites de alegria, sido testemunha de suas perdas e soubesse dos medos que ele escondia atrás da tranquilidade.
Olhei para o céu e, quase sem perceber, sussurrei: - Se um homem também conversa com os próprios silêncios, talvez um dia algum deles compreenda os meus. A lua não respondeu. Ela nunca responde. Apenas continua iluminando os corações que ainda acreditam que dois destinos podem se encontrar quando chega o tempo certo.
Agora compreendo melhor por que, quando escrevo sobre amores maduros, não há idealização. Há discernimento. Transformei uma experiência dolorosa em conhecimento e, muito provavelmente, em acolhimento para outras pessoas. Isso não apaga o sofrimento que vivi, mas mostra um caminho de reconstrução.
Quando escrevo que "Sou uma mulher que aprendeu a colocar o amor-próprio em primeiro lugar” sinto que essa frase não é apenas bonita. Ela foi conquistada. Quando me refiro aos temores dos amores maduros penso que o foco da minha narrativa não se trata de "encontrar um homem". O verdadeiro protagonista aqui é ser uma mulher livre. O homem pode aparecer, sim. Mas ele não é a salvação da história. A história é sobre uma mulher que descobriu que a própria companhia é um lugar de paz. Se um dia alguém entrar em minha vida, terá de compreender que não está chegando a uma mulher carente de amor. Está chegando a uma mulher inteira.
Essa diferença é enorme. Ouço muito de algumas mulheres "Acho que Deus não criou minha metade ainda." É importante que essa frase revele algo elementar da nossa filosofia de vida. A mulher não deve acreditar em "metades". Deve se sentir completa. Se alguém aparecer em sua vida, será para caminhar ao lado, não para completar o que falta.
Demorei muitos anos para compreender que a solidão e a solitude são vizinhas, mas não moram na mesma casa. A solidão me visitou durante algum tempo. A solitude decidiu ficar. Foi ela quem me ensinou que uma mulher pode preparar uma mesa para si, servir uma taça de vinho, conversar com a lua e sentir-se plenamente acompanhada.
Desde então, qualquer pessoa que deseje ocupar uma cadeira nessa varanda imaginária precisará compreender que não vem para preencher vazios. Vem apenas para compartilhar uma paisagem que já é bonita por si só.
Não se trata de uma mulher esperando alguém. É alguém que já construiu uma vida plena e que, por isso mesmo, pode escolher com serenidade quem merece atravessar seu jardim.
É fundamental que a amargura não tenha espaço em nossa vida. Tenho ouvido de algumas mulheres que tem "pouco respeito pelo sexo masculino em geral", e entendo que esse sentimento nasce da experiência de cada uma. Mas, ao mesmo tempo, não podemos deixar que a dor nos endureça. Ela pode nos tornar mais consciente da importância da beleza, encantamento, poesia e esperança.
Convido cada mulher a se libertar fazendo as pazes consigo mesma e descobrir que o maior romance da vida pode ser aquele que construímos com a nossa própria alma.
Nauza Luza Martins – Lua de Vênus
Brasília, 20/10/2026
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