Carlos Furtado*
Tem-se tornado cada vez mais comum que escritores deste novo momento literário maranhense e brasileiro se autointitulem poetas. Basta que se proponham a escrever, e alguns, sob minha ótica, fazem-no muito bem, para que, em suas biografias e minibiografias, disponibilizadas em coletâneas e antologias, incluam entre suas habilidades a condição de poeta.
Inicialmente, eu também procedia assim. Afinal, se ensaiava alguns versos e, em determinados textos, reconhecia características da prosa poética, parecia-me natural concluir: “Sou um poeta!”
Acontece que, à medida que aprofundamos nossos estudos, conhecemos escritores que nos antecederam e nos inserimos de maneira mais consistente no universo literário, percebemos o quanto ainda temos a aprender. No meu caso, começo a compreender que há muito a percorrer e a escrever antes de me sentir verdadeiramente à vontade para assumir essa condição, especialmente diante da grandeza da poesia e do conhecimento acumulado por seus estudiosos, mestres e críticos literários.
E neste universo, vem a luma a clássica pergunta: O que é, em realidade, um poeta?
De tudo o que já li e ouvi, ousaria dizer que poeta é aquele que enxerga aquilo para o qual muitos olham, mas que poucos conseguem perceber.
É quem escuta o silêncio, traduz sentimentos em palavras e encontra beleza até nas dores que a vida insiste em lhe apresentar.
O poeta não é apenas aquele que escreve versos, combina rimas ou organiza estrofes. É, sobretudo, alguém que sente o mundo com uma intensidade que nem sempre consegue explicar. Carrega no peito emoções que transbordam, pensamentos que inquietam e sonhos que resistem às adversidades da realidade.
É um observador da existência, um intérprete da alma humana, um semeador de esperanças. Transforma saudades em versos, lágrimas em inspiração, alegrias em canções e contradições da vida em reflexões que nos convidam a pensar.
Às vezes, é incompreendido porque fala a linguagem dos sentimentos em um mundo que insiste em responder com a lógica. Em outras ocasiões, é considerado sonhador porque se recusa a aceitar que a realidade se limite àquilo que os olhos conseguem enxergar.
O poeta não escreve apenas o que sente. Muitas vezes, dá voz àquilo que outras pessoas também sentem, mas nunca encontraram palavras para expressar.
Talvez resida aí uma de suas maiores missões: dar voz aos silêncios, eternizar instantes e fazer com que uma experiência individual se transforme em sentimento coletivo.
E há algo ainda mais profundo: o verdadeiro poeta não precisa estar diante de uma folha de papel para poetizar. Pode revelar sua poesia em um gesto de solidariedade, em um abraço sincero, na defesa da justiça, na contemplação de um amanhecer ou na coragem de continuar acreditando na humanidade.
Em verdade, o poeta é um eterno aprendiz da vida. Nunca sabe tudo, nunca sente tudo, nunca consegue traduzir inteiramente aquilo que lhe vai na alma. Por isso, continua escrevendo, buscando, sonhando e tentando compreender os mistérios da própria existência.
Ser poeta é ter a alma inquieta, o coração atento e a sensibilidade desperta para perceber aquilo que a indiferença humana tantas vezes nos impede de enxergar.
Talvez a definição mais simples seja esta: poeta é aquele que, mesmo sabendo que não pode mudar o mundo inteiro, insiste em escrever versos que possam transformar o mundo de alguém.
Esta é uma reflexão de quem compreende a poesia não apenas como a arte das palavras, mas como uma maneira peculiar de sentir, interpretar e viver a vida.
Entretanto, quando volto o olhar para mim mesmo, as certezas dão lugar às dúvidas, e a reflexão se transforma em um exercício de autocrítica.
Se, mesmo após quase uma década de trajetória literária e já tendo ultrapassado seis décadas e meia de existência, ainda não consigo fazer com que minha companheira de mais de duas décadas e meia se apaixone por mim a cada dia, a cada gesto ou a cada diálogo; se, muitas vezes, me faltam palavras de conforto para oferecer a quem delas necessita; se nem sempre consigo enxergar a beleza que existe nas pequenas coisas ou compreender plenamente a maravilha que é o mundo, apesar de todas as suas contradições, como poderia me autointitular poeta?
Se as coisas materiais ainda insistem em ocupar espaço demasiadamente importante em minha vida; se, não raro, me deixo levar pela intransigência, convencido de que estou com a razão; se o egoísmo ainda encontra espaço em determinados momentos da minha existência, como poderia me considerar um poeta?
Se ainda tenho dificuldade em compreender a finitude da vida terrena, embora me orgulhe de buscar o conhecimento da Palavra de Deus e acredite que, um dia, estaremos todos reunidos no Paraíso, conscientes de que seremos julgados por nossos atos, como posso afirmar que alcancei a sensibilidade que atribuo àqueles que fazem da poesia uma expressão profunda da alma?
E se considero que poetizar é apenas transcrever para o papel emoções e sentimentos, sem compreender que a poesia também se manifesta na solidariedade ao próximo, na defesa intransigente da justiça, no exercício da empatia e na capacidade de acreditar no semelhante, independentemente de suas opiniões ou manifestações, não estarei reduzindo a poesia à simples arte de escrever?
Talvez o meu equívoco esteja justamente em imaginar que ser poeta é alcançar uma condição definitiva, quando, na realidade, pode significar percorrer um caminho interminável de descobertas, amadurecimento e transformação interior.
Afinal, quem disse que o poeta precisa ser perfeito? Talvez sua grandeza não esteja na ausência de falhas, mas na capacidade de reconhecê-las, de se inquietar diante delas e de buscar, a cada dia, tornar-se um ser humano melhor.
Não pretendo, portanto, negar a poesia que eventualmente exista em meus escritos, tampouco desmerecer a trajetória que venho construindo no universo literário. O que procuro é compreender a dimensão da palavra que, tantas vezes, utilizamos com tanta facilidade para definir a nós mesmos.
Por ora, só consigo compreender que ser poeta é muito mais do que escrever poesia: é desenvolver uma maneira peculiar de sentir, interpretar e viver a vida. É um exercício permanente de sensibilidade, humanidade e autoconhecimento, para o qual talvez nunca estejamos inteiramente preparados, mas ao qual podemos nos dedicar todos os dias.
Quem sabe as próximas gerações, ao conhecerem meus escritos e examinarem minha trajetória, consigam enxergar em mim aquilo que hoje ainda questiono. Talvez, então, possam incorporar à minha biografia futura essa condição de poeta que tantos escritores assumem no presente e que eu, humildemente, continuo tentando compreender.
Até lá, prefiro seguir escrevendo, aprendendo e observando a vida, sem a pretensão de haver alcançado o que ainda busco.
Afinal, talvez a difícil arte de ser poeta comece justamente quando deixamos de nos preocupar em ser reconhecidos como tal e passamos a nos preocupar em sentir, compreender e traduzir, com verdade, a essência da vida.
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Escritor*
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