Por uma dessas coincidências que aproximam biografias, o poeta Álvaro Eduardo Monteiro de Castro nasceu em 26 de março; eu, em 27. Há, entre nós, seis anos de diferença — cheguei primeiro. A coincidência, naturalmente, pouco importa diante do que realmente me interessa: sua experiência como poeta e sua formação humana, vindas também de uma profissão ligada ao cuidado, a Medicina Veterinária. Ao conhecer melhor sua trajetória, lembrei-me de São Francisco de Assis, pela relação com os animais, pelo sentido de fraternidade e pela disposição de servir. Esse espírito aparece ainda em sua atuação no Rotary Club de Cambé, no Paraná, instituição que fez da solidariedade uma prática permanente.
Contudo, nem todos os poetas são anjos. Talvez o inverso seja mais verdadeiro: os anjos, quando chegam à palavra, parecem poetas. A tradição cristã guardou por séculos a saudação de Gabriel a Maria: “Ave Maria, cheia de graça; o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres”. A poesia, porém, também conhece regiões muito distantes da serenidade angelical. Augusto dos Anjos construiu versos atravessados pela decomposição, pela morte e pela matéria, como em “Deus-Verme”. Edgar Allan Poe levou para a literatura o medo, a perda, as sombras e os labirintos da consciência. São poetas de outra temperatura: transformam inquietação em linguagem e sofrimento em matéria literária.
Em Os Anjos e o Poeta, Álvaro de Castro escolhe outro caminho. Logo nas primeiras páginas, a lembrança de sua mãe, Stella Maria, sobre a morte de dois irmãos ainda pequenos estabelece o tom afetivo do livro: “Quando o cortejo voltou havia mais um anjinho, todo vestido de azul, de mãos dadas com Jesus”. A perda surge filtrada pela ternura de uma mãe tentando explicar a morte a uma criança. Não há escárnio nem revolta destrutiva. Há memória. Parece-me que aquelas palavras permaneceram no menino e, de alguma forma, ajudaram a formar o homem e o poeta. A busca pela paz, pela compreensão e pela esperança reaparece em versos como: “O sonho / É a luz que acende / Emitindo um sinal / Para que avancemos ao encontro / Da felicidade pessoal”.
A escrita de Álvaro de Castro não procura esconder suas intenções. É direta, livre e comprometida com aquilo que ele aprendeu observando a vida. Amor, perdão, fé, sofrimento, solidariedade e consciência pessoal atravessam o livro sem necessidade de grandes artifícios. “Não fiques reclamando da vida / Dizendo que carregas uma cruz”, escreve o poeta, antes de lembrar que outras pessoas podem carregar pesos ainda maiores. Em “Pontos de Vista”, recomenda: “Não devem jamais / Procurar se anular, / Tendo a preocupação / De aos outros agradar”. Em “Mendigo”, pede simplesmente: “Não os critique!”. São versos que partem da experiência cotidiana e procuram alcançar o leitor pela clareza.
Essa mesma preocupação humana aparece em poemas como “Metamorfose”, “Escravidão”, “Guerras”, “Mutilados”, “Mentira”, “Eutanásia” e “O Beijo”. Álvaro observa o seu tempo, suas contradições e suas fragilidades sem abandonar a convicção de que alguma transformação ainda é possível. Essa percepção não fica apenas no papel.
A renda de Os Anjos e o Poeta foi destinada à Missão Belém, iniciativa voltada ao acolhimento de pessoas que procuram reconstruir a vida longe das drogas. Literatura e ação social encontram-se, assim, no mesmo percurso. Talvez por isso o poema “Ainda há Tempo” funcione quase como síntese do livro: “Ainda há tempo / De não cair nas armadilhas / Para não se ferir (...) Ainda há tempo / De saber que a luz estará presente / Quando o dia amanhecer”.
No fim, Álvaro de Castro abre as comportas da própria memória e deixa correr aquilo que acumulou ao longo da vida: família, perdas, profissão, fé, filantropia, dúvidas, conselhos e esperanças. Uma cheia que não destrói; fertiliza, como as águas antigas do Nilo fertilizavam suas margens.
Existem poetas e anjos, anjos e poetas, poetas que procuram os anjos e homens que os encontram dentro de si. Lembrei-me, então, dos versos do português António Ladeira: “Há anjos que leem livros / anjos que escrevem poemas”. Talvez seja essa a imagem que melhor acompanhe a leitura de Os Anjos e o Poeta. Álvaro de Castro escreve tentando aproximar vida e palavra, corpo e espírito, experiência e solidariedade. E deixa um convite que ultrapassa o livro: ainda precisamos encontrar, dentro de nós, o anjo que a rotina tantas vezes faz esquecer.
Mhario Lincoln
Editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes
nasceu em 26 de março; eu, em 27. Há, entre nós, seis anos de diferença — cheguei primeiro. A coincidência, naturalmente, pouco importa diante do que realmente me interessa: sua experiência como poeta e sua formação humana, vindas também de uma profissão ligada ao cuidado, a Medicina Veterinária. Ao conhecer melhor sua trajetória, lembrei-me de São Francisco de Assis, pela relação com os animais, pelo sentido de fraternidade e pela disposição de servir. Esse espírito aparece ainda em sua atuação no Rotary Club de Cambé, no Paraná, instituição que fez da solidariedade uma prática permanente.
Contudo, nem todos os poetas são anjos. Talvez o inverso seja mais verdadeiro: os anjos, quando chegam à palavra, parecem poetas. A tradição cristã guardou por séculos a saudação de Gabriel a Maria: “Ave Maria, cheia de graça; o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres”. A poesia, porém, também conhece regiões muito distantes da serenidade angelical. Augusto dos Anjos construiu versos atravessados pela decomposição, pela morte e pela matéria, como em “Deus-Verme”. Edgar Allan Poe levou para a literatura o medo, a perda, as sombras e os labirintos da consciência. São poetas de outra temperatura: transformam inquietação em linguagem e sofrimento em matéria literária.
Em Os Anjos e o Poeta, Álvaro de Castro escolhe outro caminho. Logo nas primeiras páginas, a lembrança de sua mãe, Stella Maria, sobre a morte de dois irmãos ainda pequenos estabelece o tom afetivo do livro: “Quando o cortejo voltou havia mais um anjinho, todo vestido de azul, de mãos dadas com Jesus”. A perda surge filtrada pela ternura de uma mãe tentando explicar a morte a uma criança. Não há escárnio nem revolta destrutiva. Há memória. Parece-me que aquelas palavras permaneceram no menino e, de alguma forma, ajudaram a formar o homem e o poeta. A busca pela paz, pela compreensão e pela esperança reaparece em versos como: “O sonho / É a luz que acende / Emitindo um sinal / Para que avancemos ao encontro / Da felicidade pessoal”.
A escrita de Álvaro de Castro não procura esconder suas intenções. É direta, livre e comprometida com aquilo que ele aprendeu observando a vida. Amor, perdão, fé, sofrimento, solidariedade e consciência pessoal atravessam o livro sem necessidade de grandes artifícios. “Não fiques reclamando da vida / Dizendo que carregas uma cruz”, escreve o poeta, antes de lembrar que outras pessoas podem carregar pesos ainda maiores. Em “Pontos de Vista”, recomenda: “Não devem jamais / Procurar se anular, / Tendo a preocupação / De aos outros agradar”. Em “Mendigo”, pede simplesmente: “Não os critique!”. São versos que partem da experiência cotidiana e procuram alcançar o leitor pela clareza.
Essa mesma preocupação humana aparece em poemas como “Metamorfose”, “Escravidão”, “Guerras”, “Mutilados”, “Mentira”, “Eutanásia” e “O Beijo”. Álvaro observa o seu tempo, suas contradições e suas fragilidades sem abandonar a convicção de que alguma transformação ainda é possível. Essa percepção não fica apenas no papel.
A renda de Os Anjos e o Poeta foi destinada à Missão Belém, iniciativa voltada ao acolhimento de pessoas que procuram reconstruir a vida longe das drogas. Literatura e ação social encontram-se, assim, no mesmo percurso. Talvez por isso o poema “Ainda há Tempo” funcione quase como síntese do livro: “Ainda há tempo / De não cair nas armadilhas / Para não se ferir (...) Ainda há tempo / De saber que a luz estará presente / Quando o dia amanhecer”.
No fim, Álvaro de Castro abre as comportas da própria memória e deixa correr aquilo que acumulou ao longo da vida: família, perdas, profissão, fé, filantropia, dúvidas, conselhos e esperanças. Uma cheia que não destrói; fertiliza, como as águas antigas do Nilo fertilizavam suas margens.
Existem poetas e anjos, anjos e poetas, poetas que procuram os anjos e homens que os encontram dentro de si. Lembrei-me, então, dos versos do português António Ladeira: “Há anjos que leem livros / anjos que escrevem poemas”. Talvez seja essa a imagem que melhor acompanhe a leitura de Os Anjos e o Poeta. Álvaro de Castro escreve tentando aproximar vida e palavra, corpo e espírito, experiência e solidariedade. E deixa um convite que ultrapassa o livro: ainda precisamos encontrar, dentro de nós, o anjo que a rotina tantas vezes faz esquecer.
Mhario Lincoln
Editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes
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