XAXIM-BUGIO
Joema Carvalho
Passamos uma semana em uma área de conservação, denominada “parque”, para um estudo da vegetação. Região montanhosa, constituída por floresta nativa e plantios de araucária e pinus. O cenário revelava alterações florestais causadas, sobretudo, por extração de madeira, com poucos elementos dentre aqueles que queríamos ver, como sassafrás, imbuia, xaxim-bugio e erva-mate.
As plantas embaixo do pinus, tentavam sobreviver à guerra química ̶ efeitos alelopáticos entre as próprias plantas - e também ao confinamento, em função das acícolas do pinus, folhas parecidas com agulhas, que formam uma espécie de manto quando caídas sobre o terreno.
Os plantios estavam abandonados. Eram da época do incentivo fiscal florestal, período de ouro desse setor no Brasil, que durou da década de 60 até 80. Porém, em função da falta de técnica, muitas árvores foram plantadas em locais de difícil acesso, impedindo o corte da madeira, ou em locais de fragilidade ambiental, onde a dispersão das espécies exóticas invasoras, utilizadas como madeira, competiram e comprometem, até hoje, a vegetação do seu entorno. Além da questão ambiental, processos jurídicos de empresas que terceirizaram o manejo desses plantios, sem retorno da produção, estão ativos até hoje.
O pinus no parque era um desses passivos jurídicos. Sob grutas e estepes, substituíra a vegetação nativa e a pressionava, dentro de uma área de conservação.
Seu Chico era nosso guia na floresta. Conhecia as árvores, do jeito que seu pai e seu avô haviam ensinado. Alguns nomes coincidiam com os que usávamos, como cedro-rosa, miguel-pintado, cuvatã, gabiroba, açoita-cavalo, cambuí e ingá-feijão. Porém, a maioria era como ele havia aprendido: “cambroé”, “govitinga”, “vatinga”, “carandá-branco”, “carandá-miúdo”, “mexerico” e “caujuja”. A vara de “exemplo-menino” servia de corretivo no traseiro de moleque. Chamava a canjarana de “canharana”.
Era um prazer escutar as histórias do seu Chico: “Na época do encanto a saracura encantou-se”. A saracura parece uma galinha-do-mato, muito espalhafatosa e estridente quando corre e canta. Dizem que, quando grita, anuncia chuva.
Seu Chico não morava mais com a esposa. Gastava quase nada por mês, dizia. Plantava o próprio alimento e o excedente trocava com os vizinhos. Sempre ia para o bar tomar um “teco” com os amigos e estava procurando outra mulher “pra casar”, contava.
Era inverno, época das mimosas. Havia um pé carregado delas, próximo ao alojamento. Enchíamos uma sacola e chupávamos depois do almoço, sob o sol preguiçoso e ardido, típico da estação.
Um dia recebemos a visita de um bugio, mais ou menos domesticado. Veio comer mimosa conosco. Quando não dei, aquele bicho lindo gritou, mostrando os dentes e as garras. Seduzida, tive de ceder.
O campo seguia ao longo da semana. Ali vim a conhecer uma árvore difícil de ser encontrada, parente da gabiroba e da pitanga, o craveiro. Suas folhas, quando maceradas, têm um dos cheiros mais gostosos que conheço, de cravo adocicado.
Andamos alguns quilômetros em uma outra vez, quando precisamos ir até o vilarejo mais próximo. Não havia acesso a carros. Um local parado no tempo. Cenário do início do século XX, sem asfalto ainda. Os cachorros e as crianças se espalhavam por todos os lugares, correndo sem preocupação.
Todos os moradores dali se comunicavam através de um único aparelho telefônico, localizado em uma das vendas. Quando tocava, o moleque corria para chamar a pessoa que estava recebendo a ligação. Todos conheciam todos.
O trabalho seguiu, até concluirmos o que havia sido definido. Voltamos para casa com um gosto a mais de vida, com outros temperos que não dispenso.
Soube, tempo depois, que seu Chico tinha em seu guarda-roupa uma foto nossa, com toda a equipe. Ficara doente e falecera. O plantio de pinus foi cortado. A vegetação dali teve a oportunidade de recuperar o espaço que lhe era de direito, em diversidade e identidade.

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