Marcus Saldanha – Historiador, jornalista e escritor.
Que o Maranhão no século XX foi um celeiro cultural de compositores, cantores e musicistas de variados estilos para o cenário musical nacional, isso não é novidade. Dilú Melo, Alcione, Nonato Buzar, João do Vale, Cláudio Fontana, Papete, Zeca Baleiro e Rita Bennedito, são alguns dos que desfilam numa seleta lista de artistas que conquistaram reconhecimento no Brasil, a partir do eixo Rio-São Paulo.
É verdade que outros até chegaram lá, mas não conseguiram, por motivos variados, pelo menos até agora, o concorrido assento no restrito mercado musical e midiático. Por outro lado, alguns poucos, considerados regionalistas e com engajamento político-cultural demais para o mercado comercial fonográfico, acabaram injustamente esquecidos, inclusive pela sua própria gente.
Este talvez seja o caso da cantora, compositora e violonista maranhense, Irene Portela. Nascida no dia 29 de junho de 1945 na cidade de Codó, destacou-se na Música Popular Brasileira (MPB) no final dos anos 70 e início dos anos 80.
Fez certinho o dever de casa: profundo conhecimento musical e multitalentos com domínio do instrumento e voz; mudou para São Paulo, centro da efervescente cena musical brasileira, onde resistiu na luta por décadas, mantendo contato com gravadoras e outros artistas, mas não abriu mão da sua identidade essencial. Manteve a bússola musical sempre apontada para o rumo norte que era a cultura e as tradições populares de sua região.
Perseverou por uma década, até lançar seu primeiro LP, Rumo Norte em 1979 pela gravadora Discos Marcus Pereira, quando finalmente saiu do anonimato e do bem sucedido “A Missa do Vaqueiro”, onde fazia parte como intérprete, compositora e diretora musical.
No mesmo ano, participou do 1º Festival Universitário da Música Popular Brasileira com a canção “Sonho das Águias”. Seguiu contribuindo com composições em projetos individuais, como o de Ana de Hollanda que gravou “Três Marias” e “Ciranda” (1980).
Já em projetos coletivos, participou com “Sabiá” no aclamado álbum conceitual do violeiro e pesquisador mineiro, Décio Marques Canto Forte – Coro de Primavera (1979), do Tributo a Marcus Pereira (1982), onde interpretou “De Teresina a São Luís”, também registrada em História da Música Popular Brasileira – Série Grandes Compositores – João do Vale, lançada pela Abril Cultural (1983), mesmo ano do projeto Coração de Índio de Dércio Marques, onde contribuiu com a coautoria de “Boi Encantado do Maranhão” (1983).
Fez aparições memoráveis em programas televisivos de grande audiência nacional, como o Som Brasil e arrancou elogios de ninguém menos que o cantor e compositor, Gilberto Gil que lhe segredou nunca falhar na intuição de reconhecer quem levava jeito. E Irene Portela definitivamente levava jeito.
Apesar disso, aos poucos caiu no esquecimento. O músico e compositor Gerude lembra da oportunidade que teve de conhecer a sua conterrânea, quando ainda era um garoto: “Ela cantou e tocou para mim e eu toquei para ela. Cantava e tocava muito bem. Fiquei encantado. Me estimulou foi muito, mas esse foi o único contato que tive com ela.”, recorda.
O cantor e compositor maranhense, Chico Saldanha também lembra de alguns encontros com a artista em São Paulo. Num deles, Irene já enfrentava problemas financeiros e de saúde: “Estava internada com problemas nervosos. Depois deu uma melhorada e ainda foi almoçar com minha família no meu apartamento. Ela estava numa situação financeira péssima.”, relembra.
Irene faleceu no dia 17 de setembro de 1999, com apenas 54 anos, vitimada pelo câncer no município de Itapecerica da Serra (SP). Sua partida precoce interrompeu uma trajetória profundamente dedicada à valorização da cultura nordestina.
Baião, xote, forró, cirandas, aboio, cantigas de vaqueiros, toadas e bumba meu boi sempre estiveram presentes no repertório de Irene, além das canções de João do Vale e a primorosa percussão de Papete que em muito ajudou a divulgar.
Talvez pela força de sua originalidade, sua obra ainda vive nos sebos, nas plataformas de músicas digitais, no espetáculo “Atemporais” (Projeto idealizado e dirigido pelo violeiro Ricardo Vignini que revisita o trabalho de compositoras e intérpretes fundamentais e negligenciadas pela indústria de massa), no circuito de festivais e projetos coletivos de resgate da música regional.
Além de registros musicais, a obra de Irene Portela é objeto de um trabalho acadêmico em andamento do historiador, músico e pesquisador da História e da Canção Popular Brasileira, o piauiense radicado no Maranhão, Prof, Dr. Jonas Moraes (UFMA\Codó).
Mas os maranhenses, ainda lhe devem o justo reconhecimento pela obra e dedicação não só a música, mas à sua gente, a quem nunca virou as costas, muito pelo contrário, sempre apontou a direção e o rumo.
Marcus Saldanha – Historiador, jornalista e escritor.
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