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Leonardo Magalhães retoma a literatura chinesa por meio de autores que ajudam a compreender as mudanças sociais, políticas e culturais ocorridas na China entre o fim do Império e a consolidação da República Popular. Sua análise parte da obra de Lao She, um dos nomes centrais da literatura chinesa do século XX, e avança até Jung Chang, escritora que transformou a história de sua família e do próprio país em matéria literária. Nesse percurso, literatura e História caminham juntas, revelando um território marcado por guerras, deslocamentos, pobreza, conflitos ideológicos e sucessivas rupturas.
Ao comentar o romance protagonizado por Xiangzi, jovem trabalhador que sobrevive puxando um riquixá pelas ruas de Pequim, Magalhães destaca a presença do realismo social e de procedimentos associados ao modernismo. A cidade deixa de funcionar apenas como cenário e assume a condição de personagem, com suas ruas, seus bairros, seus trabalhadores e suas desigualdades. O uso da linguagem popular, dos diálogos cotidianos e das descrições urbanas aproxima Lao She de escritores que também transformaram a pobreza, o êxodo rural e a luta pela sobrevivência em matéria literária.
A leitura proposta amplia-se com Jung Chang e suas obras dedicadas às transformações chinesas desde os últimos anos do Império até o período maoísta. Ao relacionar romances, biografias e acontecimentos históricos, Leonardo Magalhães mostra como a literatura permite acompanhar a passagem de uma sociedade agrária e imperial para uma nação atravessada por revoluções, invasões e guerras civis. Sua análise convida o leitor a conhecer a China para além das imagens simplificadas, reconhecendo na ficção um instrumento de acesso à memória, à diversidade cultural e às experiências humanas preservadas pela palavra.
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