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Convidada Especial: Joema Carvalho, "SAPEÁ"

17/08/2020 11h35
Por: Mhario Lincoln

SAPEÁ

Convidada: Joema Carvalho

 

Metade da montanha subimos dentro de uma kombi velha. A porta, estragada, precisava ser fechada do lado de fora. Quando o restante do percurso se tornou mais íngreme, seguimos a pé.

Chegamos à tarde na aldeia, na Serra do Mar, local envolvido por um fragmento de floresta atlântica — dentro dos 9% que ainda restam ao longo da costa. Um desmembramento do Peabiru, caminho de mato amassado.

Agostinho, o cacique, recepcionava todos. Contemplava cada um no seu tempo, diferente do nosso, por isso despendido à vontade, sem preocupação com o relógio. A comida, em atmosfera de harmonia, era farta e distribuída entre pessoas de todas as regiões do Brasil. Artistas, professores universitários e advogados aguardavam o batismo na tribo guarani. Entre elas, Ian, nosso filho de três anos. Como não seguíamos nenhuma religião convencional, julgamos essa benção como a mais adequada a ele, por respeito à espiritualidade.

Petynguá (cachimbo), feito com coco
de piaçaba, bambu e penas de aves sagradas.

A cerimônia ocorria em uma oca, com uso de erva-mate, milho e água —elementos sagrados. Às mulheres só era permitido entrar com saia, todos descalços. A noite avançava. Ian passou a resmungar de sono, cada vez mais irritado. No momento certo, dirigi-me com ele à presença do pajé, no centro da oca. Fomos envolvidos por um movimento de mãos. Ele se acalmou, parou de chorar. Senti-me batizada também.

Após a cerimônia, vieram a dança e o petynguá: uma pitada e uma cuspida, todos ainda descalços e com profundo sentimento de paz. Pernoitamos na aldeia. Na oca maior, instalavam-se barracas — não tínhamos levado a nossa. Dividimos outra oca, desta vez menor, com outras pessoas. Ian, num saco de dormir dobrado emprestado, eu em duas cadeiras juntas, meu companheiro, no chão, sobre o seu anorak.

Regressamos no dia seguinte, a pé, montanha abaixo. O filhote ia de cavalinho. Acolheu o nome indígena, sem padrinhos. Seu guia é o índio amigo e ele, o Sapeá.

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Guadalupe Vivekananda FabryHá 6 anos atrásCuritiba - PR Adorei essa história, Joema. Bem no seu estilo.
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