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Cultura 19 de abril

No Dia do Índio, a vivência direta da escritora Joema Carvalho e seu filho, batizado na aldeia

“Fique em silêncio E a terra falará com você”. (Frase indígena).

19/04/2021 12h56 Atualizada há 3 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Joema Carvalho.
Batizado na aldeia.
Batizado na aldeia.

 

SAPEÁ

Joema Carvalho

 

Metade da montanha subimos dentro de uma kombi velha. A porta, estragada, precisava ser fechada do lado de fora. Quando o restante do percurso se tornou mais íngreme, seguimos a pé.

Chegamos à tarde na aldeia, na Serra do Mar, local envolvido por um fragmento de floresta atlântica — dentro dos 9% que ainda restam ao longo da costa. Um desmembramento do Peabiru, caminho de mato amassado.

Agostinho, o cacique, recepcionava todos. Contemplava cada um no seu tempo, diferente do nosso, por isso despendido à vontade, sem preocupação com o relógio. A comida, em atmosfera de harmonia, era farta e distribuída entre pessoas de todas as regiões do Brasil. Artistas, professores universitários e advogados aguardavam o batismo na tribo guarani. Entre elas, Ian, nosso filho de três anos. Como não seguíamos nenhuma religião convencional, julgamos essa benção como a mais adequada a ele, por respeito à espiritualidade.

Batizado na Aldeia.

A cerimônia ocorria em uma oca, com uso de erva-mate, milho e água —elementos sagrados. Às mulheres só era permitido entrar com saia, todos descalços. A noite avançava. Ian passou a resmungar de sono, cada vez mais irritado. No momento certo, dirigi-me com ele à presença do pajé, no centro da oca. Fomos envolvidos por um movimento de mãos. Ele se acalmou, parou de chorar. Senti-me batizada também.

Após a cerimônia, vieram a dança e o petynguá: uma pitada e uma cuspida, todos ainda descalços e com profundo sentimento de paz. Pernoitamos na aldeia. Na oca maior, instalavam-se barracas — não tínhamos levado a nossa. Dividimos outra oca, desta vez menor, com outras pessoas. Ian, num saco de dormir dobrado emprestado, eu em duas cadeiras juntas, meu companheiro, no chão, sobre o seu anorak.

Regressamos no dia seguinte, a pé, montanha abaixo. O filhote ia de cavalinho. Acolheu o nome indígena, sem padrinhos. Seu guia é o índio amigo e ele, o Sapeá.

 

 

Poesia:

 

Fique em Silêncio

 

“Fique em silêncio

E a terra falará com você”

(frase indígena, autor não encontrado)

 

Fique em silêncio

Escute a verdade da pulsação

 

Fique em silêncio

Perceba o seu gesto

O seu cheiro

O prazer

 

Fique em silêncio

Descubra o óbvio

O segredo do que se vê

Do que está refletido em tudo

No si mesmo

Fique em silêncio

Para os pássaros trazerem a hora certa

Através do néctar

Um beija flor

 

Fique em silêncio

Para a poesia penetrar nos teus espaços vazios

E fazer o trabalho do vento

 

Fique em silêncio mais uma vez

Sem ter que tentar

Não pense pelo menos um pouco

Encoste a cabeça em um ferro velho

E simplesmente seja sua própria vontade

 

Joema Carvalho.

(Poema publicado na Revista da Academia Poética Brasileira, edição especial Indigenista, 2019).

 

Joema Carvalho é cronista do facetubes.com.br e escreve todas as segundas-feiras

 

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