Sexta, 04 de Setembro de 2026 08:25
(xx) xxxxx-xxxx
Convidados

Escritor e poeta Paulo Rodrigues versa sobre "Salgado Maranhão e a Cicatriz da Poesia do Século XXI"

Entretenimento.

16/05/2021 10h22 Atualizada há 5 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Rodrigues
UBE/Rio.
UBE/Rio.

Foto: Paulo Rodrigues premiado em concurso literário da União Brasileira de Escritores/RJ. Na foto com a presidente da entidade, Marcia Barroca.

SALGADO MARANHÃO E A CICATRIZ DA POESIA DO SÉCULO XXI

“Vestígios

Continua após a publicidade

de pólvora nas palavras.

E quando há voz,

é a cicatriz que canta”.

(Salgado Maranhão)

* Paulo Rodrigues (Vice-presidente regional do Maranhão, da APB).

       Salgado Maranhão é filho de Caxias (MA), mas vive no Rio de Janeiro desde o ano de 1973. Fora publicado pela primeira vez na antologia Ebulição da Escrivatura (Civilização Brasileira, 1978). É autor de Aboio — ou saga do nordestino em busca da terra prometida (1984), O beijo da fera (1996) e Solo de gaveta (2005). Ganhou o prêmio Jabuti (com Mural de ventos, em 1999) e o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras (2011, com A cor da palavra). 

Continua após a publicidade

       Lançou, em 2017, pela Editora 7 Letras, o livro A Sagração dos Lobos que reafirma a inventividade, a força da sua voz e a alta capacidade de preparar os sabores da linguagem. 

      Seus poemas foram traduzidos para o inglês, italiano, francês, alemão, sueco, hebraico e o japonês. Como compositor, tem gravações e parcerias com grandes nomes da MPB, como Alcione, Ney Matogrosso, Dominguinhos, Paulinho da Viola, Ivan Lins e Elba Ramalho.

      A primeira letra do Salgado a fazer sucesso nacional foi Caminhos de Sol, que ele próprio comenta na Revista Revestrés (em março de 2017): “Numa tarde ensolarada – tipicamente carioca – atendi ao telefonema do compositor Herman Torres, que me convocava, às pressas, para ir à sua casa ajudá-lo a compor uma canção a fim de reconquistar sua mulher, que tinha ido embora. Em 30 minutos nasceu “Caminhos de Sol”, que, milagrosamente, cumpriu sua missão. A música foi um sucesso absoluto na voz de Zizi Possi, e – mais tarde – com o grupo Yahoo virou tema da novela “A Viagem”, da TV Globo”.

       Por incrível que pareça não irei abordar nenhum texto consagrado do poeta, ora estudado. Ele reúne poemas novos para organizar um novo trabalho. Coletei no Facebook, partilhado no dia 31 de julho de 2019, portanto muito recente, o poema “Tigres”:

Vejo que nos vês, agora.

Foram cinco séculos 

Continua após a publicidade

entre a Senzala e a Casa Grande. Cinco

duros séculos carregando fezes

de tua alcova; lavando

o sangue do teu mênstruo.

 

Morreram sem promessa

os nossos ancestres;

cresceu sem nome a nossa linhagem.

 

E continuamos. Lavados em nove águas, 

com a branquíssima flor dos dentes para sorrir.

 

E morder!

 

        A poesia do Salgado Maranhão nunca esqueceu o som de um reino chamado Congo. No Mapa da Tribo há um culto aos ancestrais, que nos chama para refletir sobre o universo da cultura afro-brasileira. Aliás, todo o tecer poético salgadiano incendeia a desobediência, de um bom capoeirista.    

        Tigres não é um canto. É denúncia. Grito sufocando as correntes, enterradas no chão. No início, uma voz alforriada, esquece a mitologia e os orixás para despir a sociedade escravista, em nosso país: 

Vejo que nos vês, agora.

Foram cinco séculos 

Continua após a publicidade

entre a Senzala e a Casa Grande. Cinco

duros séculos carregando fezes

de tua alcova; lavando

o sangue do teu mênstruo.

      Vivemos num país escravista desde o zero ano de sua fundação. Dominamos o tráfico de homens e mulheres negras. Sem piedade, o colonizador aprendeu a bater e humilhar os que foram arrancados da Costa da Guiné, da Costa da Angola e da Costa da Mina. Não tinham alma, dizia a Santa Igreja. Por isso, “os cinco duros séculos carregando fezes”. O poeta consegue, com um golpe, retirar o mito da democracia racial, entre nós.

       Em seguida, Salgado Maranhão diz que nunca existiu solidariedade e irmandade com os homens afro-brasileiros. Relendo o discurso sociológico de Jessé Souza, pesquisador contemporâneo, autor de A Elite do Atraso da Escravidão a Bolsonaro encontro: “a condição de não humanidade dos escravos não permitia que eles acessassem algum direito ou tivessem participação social, portanto, a eles era renegado qualquer tipo de dignidade ou reconhecimento”. 

        Salgado segue a vigília: 

Morreram sem promessa

os nossos ancestres;

cresceu sem nome a nossa linhagem.        

        Morreram mesmo, poeta, sem nome e sem promessas. O mais trágico é que continuam morrendo homens e mulheres negras (invisíveis). Pesquisa do Atlas da Violência 2018, ligado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que setenta e um por cento dos assassinados por ano são pretos. Há uma guerra de cor, entre nós. 

       O Prof. Doutor José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, disse em conferência que fez na Academia Brasileira de Letras (06/06/2019): “lutamos para tonar legal a cota de dez por cento de alunos negros nas universidades federais. Queríamos dar oportunidade intelectual aos nossos irmãos excluídos historicamente. Observem o seguinte aspecto. Só no Rio de Janeiro tivemos quatrocentos mandatos de segurança contra as cotas”.  A exclusão continua na perversão histórica, da república antidemocrática do Brasil.

       Salgado Maranhão é universal. Um ser que ganha o mundo através da poesia. Mas nunca esqueceu os espaços de ‘ajuda mútua’ como meio para conquistar a liberdade.  Enfim, um tigre com flores nos dentes para sorrir e morder.

------------------------------

TEXTO: PAULO RODRIGUES – Professor de literatura, poeta, escritor e autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018) e membro da Academia Poética Brasileira.  

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Professora Nora PrazeresHá 5 anos atrásBrasília/DFÉ eterno o que aqui se publica. É amostra de que a poesia vive, respira. Poeta Paulo Rodrigues é com imensa alegria que aqui chego para informar que eu amei suas palavras (profissionais e abundantes) com relação à poesia única de SALGADO MARANHÃO. Sem blablabla. Mas com consciência de escrever o que sente, analisa e retribui.
SALGADO MARANHÃOHá 5 anos atrás*whats"Obrigado, meu nobre poeta, pelo seu olhar sensível em torno da minha obra. Super abraço do conterrâneo que muito lhe admira".
Kalil Guimarães Há 5 anos atrásBrasília-DFPaulo Rodrigues, parabéns pelo sucesso literário! Salgado Maranhão poeta, letrista foi premiado pela União Brasileira de Escritores, Prêmio Jabuti de Literatura e Prêmio ABL de Poesia, entre outros. “Vestígios de pólvora nas palavras E quando há voz é a cicatriz que canta” Esses versos expostos no papel têm um estilo que lembra o neoconcreto. Magnífico!
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 05h01
12°
Tempo limpo

Mín. 13° Máx. 26°

12° Sensação
0.45 km/h Vento
96% Umidade do ar
100% (2.05mm) Chance de chuva
Amanhã (05/09)

Mín. 10° Máx. 17°

Chuva
Domingo (06/09)

Mín. Máx. 11°

Chuvas esparsas
Ele1 - Criar site de notícias