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Escritor e poeta Paulo Rodrigues versa sobre "Salgado Maranhão e a Cicatriz da Poesia do Século XXI"

Entretenimento.

16/05/2021 10h22 Atualizada há 4 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Rodrigues
UBE/Rio.
UBE/Rio.

Foto: Paulo Rodrigues premiado em concurso literário da União Brasileira de Escritores/RJ. Na foto com a presidente da entidade, Marcia Barroca.

SALGADO MARANHÃO E A CICATRIZ DA POESIA DO SÉCULO XXI

“Vestígios

de pólvora nas palavras.

E quando há voz,

é a cicatriz que canta”.

(Salgado Maranhão)

* Paulo Rodrigues (Vice-presidente regional do Maranhão, da APB).

       Salgado Maranhão é filho de Caxias (MA), mas vive no Rio de Janeiro desde o ano de 1973. Fora publicado pela primeira vez na antologia Ebulição da Escrivatura (Civilização Brasileira, 1978). É autor de Aboio — ou saga do nordestino em busca da terra prometida (1984), O beijo da fera (1996) e Solo de gaveta (2005). Ganhou o prêmio Jabuti (com Mural de ventos, em 1999) e o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras (2011, com A cor da palavra). 

       Lançou, em 2017, pela Editora 7 Letras, o livro A Sagração dos Lobos que reafirma a inventividade, a força da sua voz e a alta capacidade de preparar os sabores da linguagem. 

      Seus poemas foram traduzidos para o inglês, italiano, francês, alemão, sueco, hebraico e o japonês. Como compositor, tem gravações e parcerias com grandes nomes da MPB, como Alcione, Ney Matogrosso, Dominguinhos, Paulinho da Viola, Ivan Lins e Elba Ramalho.

      A primeira letra do Salgado a fazer sucesso nacional foi Caminhos de Sol, que ele próprio comenta na Revista Revestrés (em março de 2017): “Numa tarde ensolarada – tipicamente carioca – atendi ao telefonema do compositor Herman Torres, que me convocava, às pressas, para ir à sua casa ajudá-lo a compor uma canção a fim de reconquistar sua mulher, que tinha ido embora. Em 30 minutos nasceu “Caminhos de Sol”, que, milagrosamente, cumpriu sua missão. A música foi um sucesso absoluto na voz de Zizi Possi, e – mais tarde – com o grupo Yahoo virou tema da novela “A Viagem”, da TV Globo”.

       Por incrível que pareça não irei abordar nenhum texto consagrado do poeta, ora estudado. Ele reúne poemas novos para organizar um novo trabalho. Coletei no Facebook, partilhado no dia 31 de julho de 2019, portanto muito recente, o poema “Tigres”:

Vejo que nos vês, agora.

Foram cinco séculos 

entre a Senzala e a Casa Grande. Cinco

duros séculos carregando fezes

de tua alcova; lavando

o sangue do teu mênstruo.

 

Morreram sem promessa

os nossos ancestres;

cresceu sem nome a nossa linhagem.

 

E continuamos. Lavados em nove águas, 

com a branquíssima flor dos dentes para sorrir.

 

E morder!

 

        A poesia do Salgado Maranhão nunca esqueceu o som de um reino chamado Congo. No Mapa da Tribo há um culto aos ancestrais, que nos chama para refletir sobre o universo da cultura afro-brasileira. Aliás, todo o tecer poético salgadiano incendeia a desobediência, de um bom capoeirista.    

        Tigres não é um canto. É denúncia. Grito sufocando as correntes, enterradas no chão. No início, uma voz alforriada, esquece a mitologia e os orixás para despir a sociedade escravista, em nosso país: 

Vejo que nos vês, agora.

Foram cinco séculos 

entre a Senzala e a Casa Grande. Cinco

duros séculos carregando fezes

de tua alcova; lavando

o sangue do teu mênstruo.

      Vivemos num país escravista desde o zero ano de sua fundação. Dominamos o tráfico de homens e mulheres negras. Sem piedade, o colonizador aprendeu a bater e humilhar os que foram arrancados da Costa da Guiné, da Costa da Angola e da Costa da Mina. Não tinham alma, dizia a Santa Igreja. Por isso, “os cinco duros séculos carregando fezes”. O poeta consegue, com um golpe, retirar o mito da democracia racial, entre nós.

       Em seguida, Salgado Maranhão diz que nunca existiu solidariedade e irmandade com os homens afro-brasileiros. Relendo o discurso sociológico de Jessé Souza, pesquisador contemporâneo, autor de A Elite do Atraso da Escravidão a Bolsonaro encontro: “a condição de não humanidade dos escravos não permitia que eles acessassem algum direito ou tivessem participação social, portanto, a eles era renegado qualquer tipo de dignidade ou reconhecimento”. 

        Salgado segue a vigília: 

Morreram sem promessa

os nossos ancestres;

cresceu sem nome a nossa linhagem.        

        Morreram mesmo, poeta, sem nome e sem promessas. O mais trágico é que continuam morrendo homens e mulheres negras (invisíveis). Pesquisa do Atlas da Violência 2018, ligado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que setenta e um por cento dos assassinados por ano são pretos. Há uma guerra de cor, entre nós. 

       O Prof. Doutor José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, disse em conferência que fez na Academia Brasileira de Letras (06/06/2019): “lutamos para tonar legal a cota de dez por cento de alunos negros nas universidades federais. Queríamos dar oportunidade intelectual aos nossos irmãos excluídos historicamente. Observem o seguinte aspecto. Só no Rio de Janeiro tivemos quatrocentos mandatos de segurança contra as cotas”.  A exclusão continua na perversão histórica, da república antidemocrática do Brasil.

       Salgado Maranhão é universal. Um ser que ganha o mundo através da poesia. Mas nunca esqueceu os espaços de ‘ajuda mútua’ como meio para conquistar a liberdade.  Enfim, um tigre com flores nos dentes para sorrir e morder.

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TEXTO: PAULO RODRIGUES – Professor de literatura, poeta, escritor e autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018) e membro da Academia Poética Brasileira.  

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