Quinta, 03 de Setembro de 2026 12:17
(xx) xxxxx-xxxx
Cidades Colunistas FT

DINO DE ALCÂNTARA: “O ESGULEPE DA ILHA”

Dino de Alcântara é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes.

03/09/2026 11h11
Por: Mhario Lincoln Fonte: Dino de Alcântara (autor)
Original do texto.
Original do texto.

DINO DE ALCÂNTARA

Seu Egídio, morador de uma porta e janela na Rua das Afogados, tinha uma particularidade ou patologia – para ser mais sincero na qualificação – que a todos os que o viam se assustavam: era o nariz. Mas não era um nariz qualquer. Era um senhor nariz, daqueles em que nenhum caricaturista conseguiu desenhar, nem mesmos aqueles que ampliavam consideravelmente os órgãos do corpo humano.  

Em São Luís dos anos 50 e 60, seu Egídio era um farejador de comida boa nas casas a cujos donos era familiar. Diziam sempre, que à hora do almoço, se ele batesse em alguma casa, era com certeza para se deliciar com alguma iguaria.  E os frutos do mar eram o seu ponto fraco. E o dono ou a dona da casa não conseguia se livrar, porque se abrissem a porta, já o nariz do glutão estava dentro da cozinha, sentindo o cheirinho do arroz de cuxá, da torta de caranguejo, do camarão frito no azeite de coco, do peixe frito, do siri, do sururu ao leite de coco, etc.

Continua após a publicidade

Certa feita, em casa de Gregório Maracajá, na Fonte das Pedras, na celebração do aniversário de 7 anos de Mariquinhas, foi só abrirem a porta, que logo soube que haveria um banquete, com uma camaroada ao leite de coco como prato principal. Sentou-se à mesa antes dos donos. Já com uma colher na mão.

E, quando a cozinheira, dona Santoca, pôs o caldo no prato para fazer o pirão (que ele adorava), não teve cerimônia com a farinha d’água. Botou até o pirão ficar seco. Dona Santoca, vendo a farinha dominar a cena, pôs mais caldo, e ele mais farinha; ela mais caldo, ele mais farinha. Nisso, o pirão foi aumentando. Dizia ele que um pirão não podia ser nem seco, nem muito molhado. Assim, nessa tentativa de encontrar o ponto certo, o caboco (por sinal, o diabo era de Alcântara) meteu um pirão tão grande na pança com uma pratada de camarão branco, mais ainda uma boa posta de curijuba pescado no Espinhel de Zé Mole, mais ainda um bom pedaço de torta de caranguejo e muito mais. Quando soube que havia na cozinha um alguidar cheio de vinho de juçara, não fez cerimônia.

Com uma cuia que lhe deram, pôs mais de meio litro dentro e boa quantidade de farinha seca, mexida na casa do forno de Carrau, para as bandas do Sá Viana. O vinho do precioso líquido teve dificuldade de encontrar o caminho do estômago, que, ao que parece, estava escritinho o bonde do Anil de tardinha.      

Quando chegou a sobremesa, pudim, doce de leite e goiabada, seu Egídio não conseguia mais botar nada na boca. Tece sérias dificuldades para engolir o doce de leite. A comida parecia estar na garganta, porque não havia mais espaço nem para um camapu no estômago. Foi preciso o dono da casa, Gregório Maracajá e dona Santoca levantarem o homem, que começou a passar mal. Os pulmões foram comprimidos pelo estômago. Correram atrás de Mundoca Fala Fraco, ali na Farmácia do Povo, para ver se o homem acudia. O farmacêutico chegou esbaforido.

Examinou a cena e, descobrindo que havia uma quantidade enorme de farinha no ventre do glutão, teve uma ideia rápida:  meteram o esgulepe dentro do tanque de água para que a farinha se acomodasse, e não inchasse tanto no estômago, tomando o espaço dos outros órgãos, levando-o ao cajueirinho (leia-se cemitério).

Foi tiro e queda. Duas horas depois, saía de dentro do tanque, escritinho um pinto molhado, com os beiços até roxos, seu Egídio. Dizem as más línguas que estava com a cara arrastando no chão. Pediu desculpas aos donos da casa, e fez um pedido: que aquilo ficasse em segredo, que não fosse motivo de conversa na praça.  

Continua após a publicidade

Até hoje, ninguém sabe quem foi o linguarudo que saiu espalhando a notícia na cidade. Eu juro que não fui eu. Meto até a mão de Zé Sarney no fogo, se for preciso.  

No dia seguinte, na Garapeira de Guará não se falava de outra coisa, que não do esgulepe da ilha.  Quando seu Egídio ia ao Mercado Central ou à casa de Gregório Maracajá, não passava na Praça João Lisboa, que não queria atirar pedra em quem gritasse: – Lá vai o Esgulepe!     

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
São Luís do Maranhão - MA

São Luís do Maranhão - Maranhão

Sobre o município
Participação especial do cronista DINO DE ALCÂNTARA
Curitiba, PR
Atualizado às 11h01
19°
Tempo limpo

Mín. 10° Máx. 23°

18° Sensação
3.6 km/h Vento
44% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (04/09)

Mín. 14° Máx. 24°

Chuvas esparsas
Sábado (05/09)

Mín. 10° Máx. 14°

Chuva
Ele1 - Criar site de notícias