Editoria de Literatura, Arte e Música da Plataforma Nacional do Facetubes
Pedreiras, terra de João do Vale e território profundamente ligado à memória do forró maranhense, é o cenário desta conversa conduzida por IVA LIMA com a sanfoneira e cantora ELI ARAÚJO. A entrevista apresenta uma artista formada no convívio familiar, nas celebrações comunitárias, na igreja e nos palcos, revelando como a tradição do forró-pé-de-serra continua sendo transmitida entre gerações e renovada por novas vozes.
Ao narrar os desafios enfrentados pelas mulheres no meio artístico, Eli Araújo transforma sua experiência pessoal em testemunho sobre resistência, desigualdade e conquista de espaço. Suas palavras destacam a importância do apoio coletivo, da persistência e da valorização das artistas que mantêm viva a cultura popular maranhense. Mais do que registrar uma trajetória, esta entrevista preserva uma memória afetiva e cultural construída pela sanfona, pela poesia e pela força feminina.
ENTREVISTA EXCLUSIVA COM ELI ARAÚJO
Por Iva Lima — Pedreiras, Maranhão
"Uma das dificuldades das mulheres envolvidas com o Forró é a invisibilidade. O pouco apoio que a gente recebe é menosprezado sendo que, nas negociações do cachê, sempre é oferecido muito menos que se pagaria a um sanfoneiro homem". (ELI ARAÚJO)
IVA LIMA: Olá, queridos leitores do FaceTubes, meu querido amigo Mhario Lincoln, aquele abraço para você. Estou aqui diretamente de Pedreiras, Maranhão, terra do nosso eterno mestre João do Vale, mostrando que o forró segue vivo. E hoje estaremos entrevistando a nossa querida artista de Pedreiras, Maranhão, Eli Araújo. Gente, antes, tenho que confessar: quando conheci a Elimara, ela só tinha 15 anos e já estava dentro dos 16. Então a pergunta: hoje você integra a força feminina no forró, o protagonismo feminino e trajetória. Portanto, como começou sua história com a sanfona?
ELI ARAÚJO: Bem, desde pequenininha, a minha avó, Dona Nezinha, juntamente com o meu tio Osmar, muito conhecido ali na região. Os dois foram os meus principais pilares de inserção no mundo artístico-cultural. Minha avó tinha um conjunto de forró, ela juntamente com os irmãos dela. Eram muito conhecidos nos interiores, tocando em casamento, batizado, sempre mantendo viva a tradição do forró pé-de-serra. Então foram eles dois que foram os principais, posso dizer, semeadores da semente do forró no meu coração.
IVA LIMA: Ser mulher no forró ainda é um desafio. Como está sendo a sua dificuldade diante disso?
ELI ARAÚJO: Olha, em todos os aspectos. Quando se trata de mulher, sempre vêm as barreiras. Então, assim como eu e muitas outras artistas que estão seguindo os caminhos do forró pé-de-serra, encontram, sim, as suas dificuldades. Uma delas, por exemplo, é a invisibilidade, o pouco apoio que a gente recebe e, às vezes, até por menosprezo, em questão de quando a gente vai acertar o valor de um evento. Aí, querem comparar o nosso valor com o valor de um homem, porque dizem que a mulher não tem tanta força física, não tem tanta capacidade como o homem tem. Dizem que o desempenho é menor da mulher e não pode tocar por muitas horas. Então, isso é uma disparidade que ainda segue viva no meio artístico. Infelizmente, o que não era para acontecer. Mas a gente segue na luta, persistindo mesmo com as dificuldades, para tentar manter viva a voz da mulher no forró pé-de-serra.
IVA LIMA: Muito bem. E quem são suas referências no forró?
ELI ARAÚJO: Sem sombra de dúvidas, o nosso mestre Luiz Gonzaga, também Marinês, que foi a que abriu as portas para as demais também adentrarem nesse mundo do forró pé de serra. Também tem a Deusa do Forró, que já é mais contemporânea. Tem a Thaís Ribeiro, que também está com o trio dela agora. Então, várias outras mulheres que também acompanho através das redes sociais estão sendo inspiração para mim, vendo que elas seguem sendo resistência no seio artístico.
IVA LIMA: Certo. ELimara, e qual foi o momento, durante toda a sua trajetória na música, como sanfoneira, cantora? E qual foi o momento mais marcante da sua trajetória?
ELI ARAÚJO: Foi como uma escadinha. Primeiramente, eu comecei a ter contato com o público declamando poesias na escola, coisas que eu escrevia, e as professoras colocavam para declamar em eventos na escola. Aí, depois, quando o meu tio me deu a sanfona e ele começou a me dar as primeiras lições, as primeiras aulas, fui tocar na igreja, ali naquele universo religioso, tocando nas missas, às vezes em encontro de orações, encontro de comunidades. E, logo depois, veio a oportunidade com a nossa repórter, a Iva Lima. Juntamente com toda a sua família, a equipe de Forrozeiros do Maranhão me proporcionou a oportunidade de me apresentar na capital, São Luís, me deu reconhecimento e também ajudou a adquirir a minha sanfona, que é a que eu toco atualmente nos palcos, porque eu estava precisando, pois a minha sanfona já estava com alguns defeitos. Então, foi um dos momentos primordiais. Mas vale contar que foi em 2022, quando eu adquiri a sanfona. Depois disso, tive mais contato com pessoas que vivem essa essência do forró pé-de-serra diariamente, como o seu Raimundinho, tocando forró. Então, para mim, foi um ano que realmente me marcou, de fato. Foi em 2022, foi um ano em que podemos dizer que a carreira subiu.
IVA LIMA: Eu me sinto honrada em fazer, eu e minha família, parte da sua história enquanto musicista, sanfoneira, cantora. E o que eu sempre falo isso para você: o que a gente puder fazer para cada vez mais estar abrindo espaço, fortalecendo, principalmente, outros músicos, outras meninas que venham adentrar esse universo da música, da música popular maranhense, principalmente, sendo mulher. Isso é muito importante para a gente.
ELI ARAÚJO: E fica aqui a minha eterna gratidão, viu? Muito obrigada por reconhecer isso, isso é gratificante. Deus a abençoe.
IVA LIMA: E, continuando aqui, como você define o seu estilo musical?
ELI ARAÚJO: Ah, certamente, o forró pé-de-serra raiz, aquele mesmo dos cafundós do interior, aquele que mesmo faz levantar poeira.
IVA LIMA: Bom demais, né? Querida Eli Araújo, qual mensagem você deixa para as mulheres que querem adentrar esse universo, que querem ser sanfoneiras?
ELI ARAÚJO: Que sejam persistentes, resilientes e insistentes, que não baixem a guarda, briguem por espaço, vão à luta, não desistam. De fato, não é fácil, fácil não é. A gente encontra muitas barreiras, mas a gente vence, mas com muito esforço, com muito esforço a gente vence. Então, o que eu deixo é isso: que o forró precisa da docilidade, precisa da versatilidade feminina dentro desse aspecto cultural que é tão masculinizado. Então, que sejam persistentes, resilientes e insistentes. Vamos brigar por seu espaço dentro da cultura.
IVA LIMA: Eli Araújo, desde já obrigado por conceder essa entrevista maravilhosa. Eu estou aqui maravilhada! Porque só em pisar nessa terra sagrada, (Pedreiras-MA), que é a terra do nosso eterno, eterno mestre João do Vale, já é uma benção. E agora você, uma artista genuína que representa muitas mulheres, muitas, todas, na verdade, todas as mulheres. E é lindo e gratificante ver essa força no forró, viu? Então, desde já, que Deus te abençoe, que Deus abençoe tua trajetória e que mais portas possam estar se abrindo para você.
ELI ARAÚJO: Amém, amém! Eu que agradeço o espaço. Muito obrigada. Obrigada ao editor da Plataforma Nacional do Facetubes, jornalista Mhario Lincoln. Um abraço, Mhario, que Deus abençoe ricamente. Muito obrigada por essa força que você está somando juntamente com a Iva Lima, que também é uma grande defensora do forró pé-de-serra do nosso Maranhão. Então, obrigada pelo espaço de dar voz e vez a essas vozes que muitas vezes parecem esquecidas, mas que seguem atuantes na nossa cultura. Muito obrigada.
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