EXCLUSIVO: Por Dra. Flora Guilhonm, orientadora ocupacional, England, United Kingdom, correspondente da Plataforma Nacional do Facetubes.
Caro editor-sênior. Hoje eu trago um assunto que afeta milhões de pessoas no Mundo. Inclusive você, leitor, que está lendo este meu texto, neste exato momento. Por incrível que possa parecer, aqui, onde estou, na Inglaterra, o índice de mortalidade geral é de aproximadamente 1 morte por minuto (cerca de 1,02 mortes por minuto se considerarmos a Inglaterra isoladamente, ou 1,09 mortes por minuto ao incluir o País de Gales). Assim, há quem pense, estude, chore, discute, grite e escreve grandes tratados sobre a Morte. E o tema é discutido em todas as áreas possíveis. Nas religiões, sistemas filosóficos e diferentes escolas espiritualistas procuram há séculos responder à mesma pergunta: quando o organismo deixa definitivamente de funcionar, encerra-se também aquilo que chamamos consciência ou alguma dimensão da existência prossegue? O tema atravessa a filosofia grega, as tradições indianas, o espiritismo de Allan Kardec e, em outro campo de investigação, pesquisas contemporâneas sobre experiências de quase-morte, mediunidade e estados incomuns de consciência.
Uma das concepções presentes no pensamento espiritualista ocidental do início do século XX descreve a morte como processo, e não como ruptura instantânea. Nessa interpretação, a consciência passaria por um período de adaptação, repouso e reorganização antes de alcançar outro estágio. Mortes repentinas poderiam produzir desorientação, enquanto a existência recém-encerrada seria revista pela própria consciência, numa espécie de balanço das experiências, escolhas e consequências acumuladas. Trata-se de formulação metafísica, sem comprovação científica estabelecida, cujo interesse está na maneira como enfrenta uma das angústias mais antigas do ser humano: a possibilidade de a identidade sobreviver à perda do corpo.
Allan Kardec apresentou concepção semelhante em pontos importantes de O Livro dos Espíritos. Na doutrina espírita, a morte física não representaria o desaparecimento do indivíduo, mas a separação entre corpo e espírito. Kardec descreveu um período chamado de “perturbação”, cuja duração e intensidade dependeriam das circunstâncias da morte e das condições do próprio espírito. Em casos de morte súbita, essa perturbação poderia ser mais intensa. A aproximação com outras correntes espiritualistas é evidente na ideia de transição; a diferença está na estrutura doutrinária formulada pelo espiritismo, segundo a qual o espírito permanece ativo e prossegue em processo de aprendizado e evolução.
A reflexão atinge também aqueles que ficam. O desejo de conservar perto de si alguém que morreu é uma reação humana produzida pelo vínculo, pela memória e pela ausência. Sob uma leitura espiritual, permitir que o morto prossiga significaria não tentar retê-lo pelo sofrimento. Sob a perspectiva psicológica, o movimento encontra paralelo no trabalho do luto: reconhecer que a presença física terminou sem apagar a relação afetiva construída durante a vida. Em ambos os casos há uma conclusão humana semelhante: amar não significa esquecer, mas aprender a continuar quando já não é possível impedir a partida.
A filosofia formulou respostas muito diferentes para esse problema. Platão sustentou a imortalidade da alma e construiu parte importante de seu pensamento em torno da separação entre aquilo que é corporal e aquilo que poderia sobreviver ao corpo. Epicuro seguiu direção oposta ao afirmar que “a morte não é nada para nós”: enquanto existimos, a morte não está presente; quando ela chega, já não estaríamos presentes para experimentá-la. Montaigne retomaria a questão séculos depois com a expressão “filosofar é aprender a morrer”. São três posições distintas: uma procura compreender o que pode continuar, outra procura retirar da morte o poder do medo e a terceira transforma a consciência da finitude em instrumento para compreender a própria vida.
A Índia trabalha esse problema há milênios. Na Katha Upanishad, Nachiketa (Nachiketa questiona a atitude de seu pai em um ritual e, em um momento de raiva, o pai diz que o entrega à morte). O menino, então, viaja sem medo até a morada de Yama, o deus da morte e pergunta diretamente para ele, se alguma coisa permanece depois que uma pessoa morre. O questionamento tornou-se uma das grandes formulações filosóficas sobre permanência, consciência e identidade. Swami Vivekananda, posteriormente, defenderia no pensamento Vedanta que o verdadeiro Eu — o Atman — não se resume ao organismo e não estaria submetido ao nascimento e à morte da mesma maneira que o corpo. Jiddu Krishnamurti tomou caminho diferente: interessava-lhe investigar se o desejo humano de continuar existindo não condicionaria previamente nossas respostas sobre aquilo que chamamos imortalidade.
Então, tomo a liberdade de falar também sobre o Brasil. Esse país ocupa posição particular nesse debate. Você sabia, caro leitor brasileiro, que pesquisadores ligados à Universidade Federal de Juiz de Fora e à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo têm estudado experiências espirituais, religiosas e chamadas experiências anômalas sem assumir antecipadamente que elas comprovem qualquer doutrina. Em pesquisa com mais de mil brasileiros, foram investigados relatos de experiências místicas, mediúnicas, de quase-morte e de supostas lembranças de vidas anteriores. Entre os pesquisadores nacionais que se destacam nessa área está o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, professor da UFJF e coordenador de trabalhos sobre espiritualidade, consciência e relação mente-cérebro.
Essa produção acadêmica exige uma distinção fundamental: registrar cientificamente uma experiência, não equivale a provar a interpretação espiritual atribuída a ela. Uma pessoa pode relatar sensação de sair do corpo, comunicação com alguém falecido ou percepção de acontecimentos durante uma situação crítica; cabe à pesquisa verificar circunstâncias, padrões, explicações possíveis e qualidade das evidências. A ciência ainda não estabeleceu como fato que a consciência continue após a morte cerebral. Também continua investigando fenômenos que não devem ser descartados apenas porque desafiam explicações correntes.
É nesse território que filosofia, religião e ciência podem dialogar sem serem confundidas. Kardec oferece uma doutrina da continuidade; o Vedanta apresenta uma concepção de consciência que ultrapassa a personalidade física; Epicuro rejeita a necessidade de temer aquilo que não poderá ser experimentado; Platão procura demonstrar racionalmente a permanência da alma; pesquisadores contemporâneos examinam experiências humanas sem transformar hipótese em certeza. Cada campo utiliza métodos e pressupostos próprios. Colocá-los lado a lado não significa declarar que dizem a mesma coisa, mas reconhecer que partem de uma inquietação comum.
No fundo, a questão da vida depois da morte contém outra pergunta, dirigida aos vivos. Se existe continuidade, que espécie de consciência estamos construindo? Se não existe, que uso fazemos do tempo disponível? Entre a possibilidade da sobrevivência espiritual e a hipótese do fim biológico definitivo permanece uma responsabilidade que nenhuma teoria elimina: a vida presente continua sendo o único território sobre o qual podemos agir agora. Talvez por isso a discussão sobre a morte atravesse tantos séculos. Ao tentar compreender o que existe depois dela, o homem termina inevitavelmente interrogando aquilo que faz antes de chegar até lá.
Exclusivo para a Editoria de Pesquisa e Extensão — Plataforma Nacional do Facetubes
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