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Euclides Moreira Neto: “DESFILE DO DIA DA RAÇA E O 7 DE SETEMBRO”

... a tradição cívica, cultural e musical que São Luís se recusa a deixar morrer...

03/09/2026 11h43 Atualizada há 1 hora atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Euclides Moreira Neto
Arte: mhl/GinaiFT
Arte: mhl/GinaiFT

Reportagem Especial: Euclides Moreira NetoPh.D. em Comunicação, Linguagem e Cultura/UNAMA e Professor do Curso de Jornalismo/UFMA


São Luís do Maranhão tem duas datas que, no calendário afetivo da sua população, se confundem com o próprio som da cidade. Não é o barulho dos ônibus ou o sino da Igreja da Sé. É o rufar da caixa, o repique do tarol, o brilho do metal ao sol. É o dia 5 de setembro, o tradicional Dia da Raça, e o dia 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil. Durante décadas, essas duas datas transformaram o Anel Viário, a Avenida Beira-Mar e as principais avenidas dos bairros em uma imensa passarela cívica, onde mais de 30 escolas marchavam com suas fardas impecáveis, levando para a avenida a síntese do que somos.

O Desfile Escolar do Dia da Raça é um evento tradicional, anual e de grande porte que acontece no dia 5 de setembro em São Luís e em quase todas as cidades do interior do Maranhão. Diferente de outras capitais, aqui ele antecede e, para muitos, tem até mais força simbólica que o próprio 7 de setembro. A festividade tem o objetivo de enaltecer a identidade cultural brasileira e todos os povos que contribuíram para a formação da chamada "raça brasileira". A data entrou para o calendário oficial a partir da proclamação da Independência e, no Maranhão, ganhou contornos próprios.

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Do ponto de vista histórico, a celebração do Dia da Raça busca lembrar os estudantes brasileiros de todos os povos que ajudaram na formação do Brasil, desde o período da colonização, com a presença indígena, a diáspora africana, até a vinda dos imigrantes europeus, asiáticos e do Oriente Médio que trabalharam nas lavouras de café e nos centros urbanos. 

 

Segundo os historiadores, a raça brasileira tem sua origem na miscigenação de índios, negros e brancos, mas também na contribuição decisiva de africanos, alemães, italianos, japoneses, libaneses, holandeses, chineses e poloneses. É um sentimento de nacionalidade, semelhante ao que moveu a Inconfidência Mineira e a própria Independência, que deveria ser cultivado nas escolas.

No entanto, essa tradição foi deliberadamente desestimulada nas gestões do ex-governador Flávio Dino. A alegação oficial apresentada à época pela Secretaria de Estado da Educação era multifacetada: colocava os estudantes reféns de longo período ao sol quente, sem o fornecimento adequado de água, com transporte precário, relembrava o período da ditadura militar – quando os desfiles cívicos foram massificados como instrumento de patriotismo oficial – e demandava uma grande estrutura de pessoal e material para viabilizá-lo com segurança. Argumentos que, embora tenham um fundo de preocupação legítima com o bem-estar do estudante, foram recebidos pela cadeia produtiva da educação e da cultura como uma tentativa de apagamento simbólico.

Porque o desfile é e sempre foi aguardado com grande expectativa. Não apenas pelos alunos que ensaiam durante meses, mas por toda uma economia criativa que gira em torno dele. Estamos falando do movimento de bandas e fanfarras que mantém cultuada uma tradição cívica, cultural e musical secular. São Luís, por ser a capital brasileira com maior diversidade de manifestações culturais – do Bumba Meu Boi à Quadrilha Junina, do Cacuriá ao Tambor de Crioula – requer, permanentemente, músicos de percussão, sopro e cordas. E onde esses músicos são formados? Nas bandas escolares.

Vale ressaltar que os desfiles do Dia da Raça e de 7 de setembro colocam em evidência os músicos da região que desenvolvem uma competição silenciosa e implícita sobre as performances de cada banda escolar e a qualidade musical de seus componentes. Tanto é que até hoje é mantido no Maranhão o Campeonato de Bandas e Fanfarras por parte de suas entidades representativas, com destaque para a Federação Maranhense de Bandas e Fanfarras – FEMBAF.

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A FEMBAF tem sido a guardiã dessa resistência. O campeonato maranhense de bandas e fanfarras está cada vez mais próximo e, nas redes sociais da entidade, vemos o desfile de corporações que estiveram presentes na última edição com orgulho. O fortalecimento continua. Nesses encontros de bandas e fanfarras são realizados  Seminários Formativos de Bandas e Fanfarras – Linha de Frente e Percussão, reunindo professores, alunos e representantes das regiões do Litoral Ocidental Maranhense e Baixada Maranhense para um momento de capacitação, integração e valorização da cultura marcial. São realizadas também oficinas de percussão, linha de frente, formação e capacitação, utilizando como Tema a busca de valorização e integração entre as regiões”. Tudo isso é a prova de que a cultura marcial está viva, pulsante e se reinventa.

Para o público leigo, tudo parece igual. Mas não é. E essa distinção é fundamental para entender a riqueza técnica envolvida. Quando você pensa em Bandas e Fanfarras, qual é a primeira coisa que vem à sua cabeça? Se for o dia 7 de setembro, você pensou como a maioria. Mas o universo é muito mais complexo. Existem várias categorias oficiais reconhecidas pela Confederação Nacional de Bandas e Fanfarras – CONEBAF.

A Banda de Percussão é a base. Nela encontramos apenas instrumentos que marcam o ritmo: bombo, caixa ou tarol, quadriton, surdo e prato. É a cozinha rítmica.
A Banda Marcial já avança. Ela contém todos os instrumentos de percussão mais os instrumentos de sopro de metal com pisto, como tuba, trompete, trombone de vara e bombardino. É o som clássico que embala os hinos.
A Banda Musical é uma junção da percussão com a marcial, mas com um acréscimo sofisticado: os instrumentos de sopro que usam palheta, como saxofone, clarinete e flauta transversal. É a mais completa em termos de harmonia.
A Banda Show usa o máximo de instrumentos, mas sua diferença está na evolução. Ela não apenas marcha, ela coreografa, faz movimentos em quadra, é espetáculo visual e sonoro.

E a Fanfarra Simples, talvez a mais tradicional nas escolas públicas do interior, é aquela que tem instrumentos de percussão e apenas instrumentos de sopro sem pistos, como a corneta lisa. Mais simples, mas nem por isso menos emocionante.

Essa classificação técnica revela o quanto o desfile escolar é, na verdade, uma escola de música a céu aberto.
Ressalte-se um dado crucial para o Maranhão que poucos gestores compreendem: no nosso estado, os integrantes das bandas que desfilam no Dia da Raça ou no dia 7 de setembro são abundantemente absorvidos pelos grupos de Bumba Meu Boi, quadrilhas juninas, cacuriás e outras manifestações culturais da região. O trompetista que hoje sola no cortejo religioso do Divino foi formado na fanfarra do Colégio Liceu Maranhense. O percussionista que garante o contratempo do Boi de Axixá aprendeu o paradiddle na banda do Anjo da Guarda. Acabar com o desfile é secar a nascente de músicos que mantém viva a nossa cultura popular. É um tiro no pé econômico e cultural.
São Luís, cidade que já realizou diversas edições do Cortejo em homenagem a Santa Cecília, no dia 22 de novembro, data em que se comemora a padroeira da música, com músicos saindo do centro histórico (Praia Grande), passando pela Igreja do Carmo até a rua Grande, não pode se dar ao luxo de abandonar seu civismo musical.

O desfile do Dia da Raça não é saudosismo da ditadura. É ritual de pertencimento. Ver o filho fardado, a filha como baliza, o sobrinho tocando corneta, gera na família maranhense um orgulho que nenhum discurso ideológico consegue apagar. É preciso, sim, garantir água, transporte digno, protetor solar, horário adequado – desfilar no início da manhã, como já se fez – e estrutura de segurança. O que não se pode é, sob o pretexto de proteger, proibir e desestimular.

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O Brasil comemorou em 2022 o Bicentenário da Independência. O Maranhão comemorou em 2023 os 200 anos de Adesão à Independência. E o que ficou? Ficou a constatação de que a pátria não é uma abstração de Brasília. Ela se materializa no bairro. No Anel Viário tomado por famílias com cadeiras de praia, guarda-sóis e a merendeira na mão, esperando sua escola passar.

Resgatar o Desfile do Dia da Raça e fortalecer o de 7 de Setembro não é ato de retrocesso. É ato de futuro. É garantir que a cadeia produtiva da educação continue a formar cidadãos que conheçam o Hino Nacional, o Hino do Maranhão, que saibam o que é uma semibreve, que tenham disciplina, coletividade e amor à sua terra. Porque sem música, sem banda na rua, sem o brado retumbante de um povo heroico ecoando no bumbo, São Luís perde um pedaço fundamental da sua alma.

Que voltem os desfiles. Com água, com sombra, com dignidade e com o respeito que a nossa Raça, essa mistura bendita que nos fez Maranhão, merece.

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Luis CaldasHá 60 minutos atrásSão Luis do MaranhãoVocê falou de um assunto muito importante, professor.
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