Conduz a entrevista: IVA LIMA, (Pedreiras-MA), colunista da Plataforma Nacional do Facetubes
Nascido em Pedreiras, no Maranhão, Jamilsen Oliveira Jansen construiu uma relação profunda com a cultura nordestina. Cirurgião-dentista por formação, ele também pesquisa festas, personagens, músicas e lugares ligados à história regional. Trianguleiro, zabumbeiro e estudante de sanfona, percorre cidades do Nordeste em busca de relatos, documentos, museus e tradições que ajudam a compreender a identidade de seu povo. Nesta entrevista a Iva Lima, Jamilsen explica como as letras das canções orientam suas viagens, analisa o espaço do forró de raiz no presente e defende a escola como território decisivo para a preservação cultural. Abaixo, a ENTREVISTA:
IVA LIMA — O que as viagens representam em sua vida?
JAMILSEN JANSEN — Viajar é uma das experiências que mais me realizam. Uma viagem não significa apenas sair de um lugar e chegar a outro. Ela amplia a visão de mundo, aproxima pessoas, permite conhecer costumes e mostra que cada cidade guarda uma maneira própria de viver. Sempre digo que, antes de investir apenas em coisas materiais, vale considerar o que uma viagem pode acrescentar à memória e ao conhecimento. Eu prefiro desbravar, observar e voltar para casa levando histórias.
IVA LIMA — Como nasceu sua paixão pelo forró de raiz?
JAMILSEN JANSEN — Essa paixão se formou em dois momentos. O primeiro aconteceu ainda na infância, em Pedreiras. Por volta dos oito anos, eu já participava de quadrilhas de adultos, mesmo sendo o menor do grupo. Dançávamos ao som das músicas instrumentais de Luiz Gonzaga, especialmente os arrasta-pés. Foi ali que o forró entrou em minha vida de maneira espontânea, ligado às festas, à comunidade e à alegria coletiva. O segundo momento ocorreu quando fui estudar em São Luís. Eu tinha um vizinho e amigo, José Silva, conhecido como Baleu, que ouvia muito João do Vale, Luiz Gonzaga, Falamansa, Santana Cantador, e outros nomes do gênero. Como morávamos perto, eu escutava aquelas músicas diariamente. Passei a procurar obras que ainda não conhecia e a prestar mais atenção às letras, aos ritmos e às histórias. A partir daí, o interesse deixou de ser apenas afetivo e passou também a ser uma busca por conhecimento.
IVA LIMA — Ter nascido em Pedreiras, terra de João do Vale, influenciou esse caminho?
JAMILSEN JANSEN — Influenciou muito. Pedreiras carrega a presença de João do Vale em sua identidade. Quando viajamos e dizemos de onde somos, muitas pessoas respondem imediatamente: “Você é da terra de João do Vale”. Isso produz orgulho, mas também responsabilidade. A cidade tem uma força cultural muito grande, tanto nas manifestações populares quanto na formação humana de sua gente. João do Vale é respeitado em Pedreiras, mas ainda merece uma valorização maior e mais permanente. Sua obra ultrapassou as fronteiras do Maranhão e traduziu, com poesia e consciência social, experiências do trabalhador, do migrante e do homem nordestino. Crescer em uma cidade marcada por essa memória inevitavelmente influencia quem se dispõe a observar a cultura.
IVA LIMA — O que o motivou a pesquisar a cultura nordestina?
JAMILSEN JANSEN — A principal motivação veio das letras das músicas. Eu não consigo ouvir uma canção apenas como entretenimento. Procuro entender o que ela está dizendo, onde aquela história aconteceu, quem são os personagens e qual contexto aparece por trás das palavras. Quando encontro uma expressão, um lugar ou um episódio que não conheço, sinto necessidade de pesquisar. Existe uma visão reducionista segundo a qual a música nordestina fala apenas de seca e pobreza. Ela também fala de riqueza cultural, fé, trabalho, amor, humor, paisagem, resistência, festa, religiosidade e personagens históricos. Luiz Gonzaga cantou as dificuldades do Nordeste porque precisava chamar atenção para elas, mas sua obra é muito mais ampla. As canções funcionam como documentos afetivos e sociais. Muitas de minhas viagens começam justamente com uma pergunta despertada por uma letra.
IVA LIMA — O que Luiz Gonzaga representa para você e para o Nordeste?
JAMILSEN JANSEN — Luiz Gonzaga representa desenvolvimento. Sua obra deu visibilidade ao Nordeste, levou a música regional para o país e ajudou a construir uma consciência sobre as necessidades do sertão. Ele foi mais do que cantor e sanfoneiro: tornou-se porta-voz de uma região. Cantou estradas, migração, seca, fé, trabalho, festas, personagens e esperança. Quando penso no desenvolvimento nordestino, lembro também de Delmiro Gouveia, ligado à modernização industrial e energética no início do século XX. Cada um atuou em um campo diferente, mas ambos simbolizam iniciativa e transformação. Gonzaga fez isso por meio da música e da representação cultural. Se tivesse de resumir sua importância em uma palavra, seria justamente “desenvolvimento”: cultural, histórico e social.
IVA LIMA — Há alguma música de Gonzaga que tenha significado especial?
JAMILSEN JANSEN — A escolha muda conforme o momento. “Acauã” ficou marcada por uma viagem com minha esposa pela Serra do Araripe. Ela ainda não conhecia a canção e se encantou quando a ouviu. A música passou a guardar a lembrança daquela paisagem e daquele instante. Outra obra que me toca é “Salmo dos Aflitos”, também conhecida como “Abandrai”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. A canção pede que sejam abrandados os corações dos ignorantes e dos poderosos. É uma mensagem social e espiritual que permanece atual. Gonzaga tinha essa capacidade de unir linguagem popular, religiosidade e crítica social em uma composição acessível.
IVA LIMA — Como funciona sua pesquisa durante as viagens?
JAMILSEN JANSEN — Primeiro escolho uma festa, uma cidade, uma personalidade ou um tema. Depois pesquiso o que existe naquele território e procuro conversar com moradores, mestres da cultura, músicos, responsáveis por museus e pessoas que guardam memórias locais. Gosto de conhecer o lugar para além dos pontos turísticos. Quero saber como a comunidade vive, celebra e transmite seus costumes. As músicas de Luiz Gonzaga oferecem inúmeros caminhos porque citam cidades, festas, paisagens e personagens. A Festa de Santana, em Caicó, e a Festa de Santo Antônio, em Barbalha, por exemplo, reúnem religiosidade, teatro, procissões, música e rituais populares. Ao visitar uma região, procuro também manifestações como Maracatu, Côco, Bumba-Meu-Boi, Cacuriá etc. A pesquisa se completa quando a história registrada encontra a experiência de quem vive naquele lugar.
IVA LIMA — Qual descoberta mais o marcou nessas caminhadas?
JAMILSEN JANSEN — Uma das experiências mais marcantes ocorreu na região de Piranhas, em Alagoas, e Canindé de São Francisco, em Sergipe, ligada à história de Lampião e de seu bando. Eu queria localizar a antiga escadaria de Piranhas onde, após a morte do grupo na Grota do Angico, as cabeças dos cangaceiros foram expostas. Ao chegar ao prédio, percebi que a estrutura havia sido modificada. Fiquei impactado porque se trata de um lugar associado a um episódio histórico doloroso, cuja materialidade ajuda a compreender o passado. Também me marcou perceber que os espaços históricos não são estáticos. Eles sofrem reformas, abandono, enchentes e mudanças que podem apagar referências importantes. Por isso, preservar não significa celebrar a violência, mas conservar elementos que permitam estudar o que aconteceu. A memória precisa ser tratada com seriedade, contexto e respeito.
IVA LIMA — Você encontrou resistência ou versões conflitantes durante as pesquisas?
JAMILSEN JANSEN — Na maior parte das vezes, as pessoas recebem bem quem demonstra interesse verdadeiro. Há, porém, temas que provocam desconforto, principalmente quando envolvem controvérsias sobre o Cangaço, Lampião e Maria Bonita. Alguns pesquisadores e guias evitam determinadas perguntas porque defendem uma interpretação específica ou consideram certos relatos pouco confiáveis. Quando percebo esse limite, procuro respeitar o entrevistado e buscar outras fontes. Também encontrei museus nos quais faltava acompanhamento ao visitante. Isso prejudica a experiência, porque objetos sem explicação perdem parte de seu significado. O mais fascinante é justamente comparar narrativas. Na Grota do Angico, por exemplo, ouvi explicações diferentes sobre a sequência dos acontecimentos. Às vezes surge uma informação nova; em outras, aparecem contradições. O pesquisador precisa escutar, confrontar versões e reconhecer que a história oral pode carregar lembranças, interpretações e lacunas.
IVA LIMA — O que o Nordeste possui que o mundo ainda precisa conhecer melhor?
JAMILSEN JANSEN — O Nordeste possui uma cultura que está em tudo: na música, na culinária, na religiosidade, no modo de falar, no trabalho, nas festas, na maneira de cuidar da casa, do corpo e das relações comunitárias. Cultura não é somente aquilo que está em um palco ou em um museu. Ela também está nos saberes cotidianos e nas soluções construídas por gerações. Somos uma região de identidades muito fortes. Assim como o povo gaúcho preserva símbolos, roupas, músicas e tradições, o Nordeste precisa continuar valorizando suas referências. Essa preservação não deve transformar a cultura em peça parada no tempo. Ela precisa permanecer viva, dialogar com o presente e continuar reconhecível para as novas gerações.
IVA LIMA — Como você enxerga o forró de raiz na atualidade?
JAMILSEN JANSEN — O forró de raiz precisa ser apresentado aos jovens. Ninguém valoriza aquilo que nunca teve oportunidade de conhecer. Muitas pessoas crescem expostas apenas ao que recebe maior investimento comercial, maior divulgação e espaço constante nas mídias. Quando entram em contato com o xote, o baião e o arrasta-pé, percebem que essa música também é dançante, sofisticada e capaz de reunir gerações. Há um episódio atribuído a "Xand Avião", que ilustra isso: durante parte de um show, o público permanecia com o celular nas mãos; quando começou um xote, as pessoas guardaram os aparelhos, se abraçaram e foram dançar. O forró cria encontro. Seu valor não depende de rejeitar outros estilos, mas é necessário diferenciar o forró tradicional de produtos musicais muito distantes de sua estrutura. A mistura pode acontecer, desde que não apague a identidade do gênero.
IVA LIMA — O forró recebe a valorização que merece?
JAMILSEN JANSEN — Ainda não. Existe uma tendência de associar qualidade ao tamanho do cachê, à estrutura do espetáculo ou à exposição midiática. Isso leva muitas cidades a contratar atrações caríssimas enquanto artistas ligados à própria tradição local recebem pouco espaço. O público acaba sendo conduzido a acreditar que somente aquilo que possui grande investimento merece atenção. Ao mesmo tempo, festas tradicionais mostram que há público para o forró de raiz. Em Barbalha, vi multidões acompanhando manifestações populares e apresentações de pé de serra. Em cidades menores, um artista do gênero pode reunir pouca gente simplesmente porque não existe trabalho contínuo de formação de público. Quando a cultura é apresentada com qualidade, contextualização e frequência, ela encontra ouvintes.
IVA LIMA — A cultura popular está ameaçada ou fortalecida?
JAMILSEN JANSEN — As duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Em alguns lugares, as tradições foram fortalecidas por festas bem organizadas, grupos atuantes e participação comunitária. Em outros, há perda de interesse, substituição das manifestações locais por atrações comerciais e redução dos espaços destinados aos mestres da cultura. Barbalha mostra que é possível incorporar elementos modernos sem abandonar o ritual do "Pau da Bandeira" e a identidade da "Festa de Santo Antônio". No Maranhão, o São João ainda possui enorme força graças aos sotaques do Bumba-Meu-Boi, ao Tambor de Crioula, ao Cacuriá e a outras expressões de matrizes africanas, indígenas e sertanejas. O visitante procura justamente aquilo que é autêntico. Quando uma comunidade enfraquece sua própria tradição, perde também uma parte de sua memória e de sua capacidade de se apresentar ao mundo.
IVA LIMA — O que deve ser feito para assegurar a continuidade dessas tradições?
JAMILSEN JANSEN — A escola é o ponto principal. A cultura nordestina precisa estar presente no ensino básico e também nas universidades, não apenas em datas comemorativas. Os alunos devem conhecer os artistas, ritmos, festas, instrumentos, histórias e mestres de sua região. Apresentações, oficinas, visitas a museus e encontros com grupos populares ajudam a transformar informação em experiência. Os próprios grupos culturais também precisam registrar suas trajetórias, formar novos integrantes e dialogar com o público jovem. A modernização pode existir, mas deve ser feita com sensibilidade. Como ensinava Moraes Moreira, renovar não significa retirar o que existe de original e substituí-lo por qualquer novidade. Quando a mudança destrói a essência, já estamos diante de outra coisa. Preservar é permitir que a tradição continue viva, reconhecível e capaz de produzir novos sentidos.
VÍDEO-BÔNUS
(Cacuriá de D.Teté, de Mhario Lincoln & Chiquinho França. Bela interpretação de ANDRÉA FRAZÃO)
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PERFIL — Jamilsen Oliveira Jansen nasceu em Pedreiras, Maranhão, em 1980. É cirurgião-dentista formado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), com formação em Ortodontia, Implantodontia e Saúde da Família. Pesquisador e amante da cultura nordestina, toca triângulo e zabumba, estuda sanfona e já participou de apresentações do Trio NAV.
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