PONTE AÉREA
*Joema Carvalho
O dia passava na marcação da caneta. Batucava na mesa do escritório e escrevia no seu diário. Continuava a sentença, na releitura de momentos que escorriam na vontade de dar voltas pelo espaço contraditório de onde se encontrava. Talvez a cegonha houvesse errado de endereço. Os sentimentos demonstravam ternura.
Em um dia, sofreu de enjoou do marasmo da cidade pequena de interior onde residia. Vomitou bílis quando acordou. Não tinha doença.
Em alguns dias de sol, emburrava-se no quarto. Priorizava estar com os seus livros. As crianças da família aproveitavam a oportunidade do dia. Era uma adolescente velha. Posteriormente, ficou mais nova. Entendeu o que Drummond havia escrito: “Ai que prazer não cumprir um dever”. Não substituía o subir em uma montanha.
Na sua nave interna encontrou semelhanças dos enuis com outros ancestrais seus. Um espírito não respeita limites geográficos. No mergulho da calda das baleias, naquelas águas frias, a sua busca.
Nas passagens que emergiam nas páginas do seu diário, resgatou uma peça onde palhaços falavam sobre a “poesia ativa”. Aquela que se relacionava com o ambiente e com as pessoas. O texto ou a poesia ativa foram sendo caracterizados ao seu modo.
Tomou consciência de que éramos tetradimensionais. Possuíamos vários corpos. O texto era vivo nestas dimensões, independe de qual fosse a sua verdade.
No seu momento de reflexão, entendeu que o espiritual era movimento. Prazer, sinônimo de deus.
Faltavam poucas páginas para fechar outro diário. Este possuía a figura de um Pierrô na capa. Perdeu-se de diversas formas, completando mais um capítulo de uma trajetória.
Através da ponte aérea, chegou quase onde admirava. O piano estava mais leve, podia levar nas costas se quisesse. Tocar a noite e a madrugada.
Sabia da densidade e do ciclo vida morte e vida. Nada era permanente. O equilíbrio, um furacão, girar em sua parceria.
Iniciava outro diário de capa dura. Seu filho seguia no voo da semente do dente de leão. Um recomeço sendo delineado. A base bem consolidada, seguia outro rumo, inesperado, fora de controle.
O que fora escrito, guardado em Pandora, conectava o desejo com as tramas no salto que partia a masmorra cefálica.
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