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"O que é verdade no mundo contemporâneo?!" Mais um texto da articulista Alessandra Leles Rocha

“Usuários de redes sociais que leem apenas os títulos das matérias pequenas obtêm apenas pequenas doses de informação, mas têm confiança em excesso"

19/08/2021 17h22 Atualizada há 4 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Alessandra Leles Rocha
original do texto
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Por Alessandra Leles Rocha

Foi preciso que as conjunturas beirassem o extremismo radical, para que um sinal de alerta soasse, em relação às FakeNews. De repente, as pessoas começaram a entender que não se tratavam de “simples” mentiras; mas, de um enviesamento da ética, da moral, da civilidade, que compromete pela perversidade e crueldade, as relações humanas e sociais. Assim, busquei traçar um fio condutor para compreender melhor a respeito.

O recorte temporal contemporâneo mostrou-se altamente permissivo, o que explica as pessoas ansiarem muito mais pela liberdade do que pela segurança. Pensam que podem tudo e não se responsabilizam por absolutamente nada, porque depositam a chave dos seus direitos existenciais nas suas escolhas, as quais são impulsionadas por meros desejos e vontades. Portanto, sua visão de mundo, de coletividade, foi reduzida às perspectivas do seu próprio individualismo.

No entanto, tendo em vista que a contemporaneidade se exibe rotulada pela pressa, pela efervescência dos acontecimentos, pelo volume de afazeres e obrigações, o individualista utiliza disso para justificar a superficialidade no trato das suas ações e comportamentos. Vivendo sob um regime de metas e objetivos implacáveis a serem alcançados. Tudo precisa ser ágil, rápido, para que possa ser cumprido.

Dentro desse contexto, a comunicação e as linguagens foram remodeladas para se ajustarem a esse movimento. São bilhões de informações por minuto percorrendo as vias tecnológicas de última geração, para promover uma atualização, quase que, em tempo real. Acontece que, por mais integrado que o ser humano esteja a tudo isso há uma impossibilidade natural de absorção das notícias e a decodificação delas para a consolidação do conhecimento. Passam, então, a existir cada vez mais lacunas que comprometem a percepção e a compreensão da realidade. Algo que é acrescido, também, pelo fato da insuficiência e ineficiência do letramento humano.

Durante muito tempo foi cultuada uma crença de que a alfabetização era suficiente para dotar o indivíduo de uma apropriação comunicativa satisfatória. Mas, há algumas décadas, já se sabe que não. Alfabetizar é um processo no qual se aprende a conhecer e organizar os sinais, códigos e símbolos existentes na linguagem escrita verbal e não-verbal, com o propósito de ler e escrever corretamente. Já o letramento se refere a um processo pedagógico de aquisição e domínio da leitura, escrita e interpretação textual, a partir dos diferentes contextos sociais. Sendo assim, está se proliferando um contingente imenso de pessoas comunicativamente vulneráveis.

De acordo com um estudo publicado no Research and Politics 1, em 2019, “usuários de redes sociais que leem apenas os títulos das matérias pequenas obtêm apenas pequenas doses de informação, mas têm confiança em excesso. [...] a maioria das pessoas não consome os conteúdos na íntegra – o usuário de Facebook mediano clica em apenas 7% das matérias sobre política que aparecem em seu feed – e, mesmo, com o baixo nível de aprofundamento, muitos deles acreditam ter mais conhecimento do que realmente possuem; principalmente aqueles com sentimentos e opiniões mais fortes” 2.

O que demonstra uma porta aberta para a disseminação e incorporação das FakeNews. Conforme explica a neurocientista cognitiva Maryanne Wolf, da Universidade da Califórnia (UCLA), em Los Angeles, “[...] o fato de lermos cada vez mais em telas, em vez de papel, e a prática cada vez mais comum de apenas ‘passar os olhos’ superficialmente em múltiplos textos e postagens online podem estar dilapidando nossa capacidade de entender argumentos complexos, de fazer uma análise crítica do que lemos e até mesmo de criar empatia por pontos de vista diferentes do nosso”. Querendo ou não, “tudo isso tem o poder de impactar desde a nossa performance individual no mercado de trabalho até nossa tomada de decisões políticas e a vida em sociedade” 3.

Portanto, lidar com as FakeNews, evitando graves prejuízos, passa diretamente pela compreensão de que a sociedade contemporânea está exposta a novas formas de produção e circulação de informação e de conhecimento. Isso significa a necessidade de desenvolver outras habilidades de leitura, interpretação e comunicação; além daquelas tradicionais, para que se efetivem construções de sentido mais apuradas.

Sem esse discernimento, o raciocínio “globalizante” poderá, sempre, conduzir à crença de que qualquer informação, desconsiderando fonte, forma e conteúdo, é o suficiente para mantê-lo integrado à sua “bolha” social. Aí, antes que perceba, você terá sido lançado em queda-livre, sem redes de proteção, aos braços da Pós-Verdade, esse mecanismo peculiar, de criar e modelar a opinião pública, no qual apequena e distorce os fatos pela utilização demasiada de artifícios simbólicos apelativos.  

 

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