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João Batista do Lago analisa axioma de Mhario Lincoln: "A Faca de Dois Gumes"

Prosa&Verso

17/09/2021 às 18h26 Atualizada em 18/09/2021 às 07h30
Por: Mhario Lincoln Fonte: João Batista do Lago
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Faca de Dois Gumes JB do Lago.
Faca de Dois Gumes JB do Lago.

Nota do Editor: 

Não é fácil para um homem comum ir 'de encontro', sob o animus da surpresa, a um texto de tão alto índice de gramatura inteligível, como esse, do poeta e escritor João Batista do Lago. Deveras pueril a minha alcunha ter imaginado o grau de observância filo-sociológica, que tal axioma poderia emergir dessa quimera, alinhavada por um sentimento poético exponencial.

Porém, acredito que tal fato possa estar relacionado com algo marcante na minha vida profissional. Da mesma forma que Kant influenciou Foucault, João Batista foi-me de maestria abundante, quando trabalhamos juntos, durante 10 anos, na lida do Portal "Aqui Brasil", até meados de 2014. Acredito que, de minha parte, torna-se indissociável a influência dele na evolução do meu pensamento e isso é explícito quando me alvoroço por sobre as palavras e as coisas, na averiguação do compasso lírico ou mesmo, nas interpretações fundamentadoras da minha concepção de Mundo.

Como se no percurso discursivo que tenho traçado ultimamente, nem sempre entre Freud e Lacan, o 'eu', como sujeito, me fizesse esconder, nas filigranas das minhas construções axiomáticas, a revelação - somente para alguns poucos - do meu 'dark side of the moon". Acho que foi nesse sentido que João Batista do Lago colheu o que escreveu abaixo, deixando-me deveras feliz - que não por elogios - contudo, pela hermenêutica plural do meu pensamento, implodido pela minha própria existência. (Mhario Lincoln).

 

A Faca de Dois Gumes

De João Batista do Lago

Hoje faço uma pausa sobre a série de artigos que estou escrevendo relacionados a questão “O que pode um corpo?”. Há uma razão lógica para esse interstício, qual seja, um axioma da lavra do poeta Mhario Lincoln (presidente da Academia Poética Brasileira - APB), que me chama atenção e provoca-me para uma tipologia de debate:

“Têm pessoas

que nos deixam

vivas por fora,

para nos matar

por dentro.”

Evidência cirúrgica? Sim. Claro que sim. Tais palavras no contexto do axioma são o nexo para a construção de um pensamento filosófico, para além de sociológico e antropológico. E diria, também, psicanalítico. Cada palavra é faca de dois gumes cortando sem dó nem piedade a mediocridade moralística que se nos é imposta pelo conjunto de nossas vivenças, experiências e pertenças (ou pertencimentos) culturais, educacionais, sociais, políticos, econômicos etc. 

Axioma de Mhario Lincoln.

Claro, não vou aqui traçar perfis quaisquer, contudo, tentarei demonstrar que a evidente verdade apresentada por ML choca na medida em que não se está preparado para introjetá-la como um processo de disrupção; mais ainda, e por mais paradoxal que pareça, um processo de in-volução na cadeia evolutiva da formação do Si.

Complicado? Sim, parece mas, aos meus olhos é simples assim: tanto o processo de disrupção, quanto de in-volução, que se afirmam axiomaticamente e que sugeri acima não se definem unicamente pelos seus significados do ponto de vista gramático-dicionarístico. Noutras palavras: há significantes, isto é, imagens acústicas ou manifestações de signos no espírito do axioma do poeta. 

E isso é o fluxo espiritual daqueles que tomam conhecimento deste axioma. Se, pois, nos dermos ao prazer de pensar cada palavra, de per se, mas sem suprimi-las do todo axiomático, percebemos logo que produzem-se imagens e sons, além de sentimentos de repugnância ou simpatia, no interior de cada um de nós. O mesmo vai acontecer com a palavra in-volução.

Explicando melhor: o texto em análise, aos meus olhos, poderia ser tomado – pura e simplesmente – como trocadilho (inteligente) de palavras, o que não é o caso deste. Quando o poeta infere que “tem pessoas que nos deixam vivas por fora” resta, aí, significantes que nos remetem ao conjunto social, à sociedade propriamente dita, ao ser humano moderno, com toda a sua liquidez latente (Zigmunt Bauman), com todas as suas inferências antropossociológicas (Claude Lévi-Strauss), ou seja, assoma uma imagem/som de tipologia dantesca, já que, o “por fora” é uma afecção (Baruch Espinosa) possível de acontecer, isto é, de nos afetar. E essa afecção redundará, necessariamente, na expressão “para nos matar por dentro”.

Neste ponto gostaria de chamar atenção para os termos disrupção e in-volução que grafei acima. Para mim, ambos os vocábulos são, exatamente, o contrário dos seus significados conteudísticos originais. Portanto, para mim, o axioma do poeta Mhario Lincoln, não deve ser entendido ou compreendido como uma espécie de niilismo, de negação, de infirmação da vida. 

O que o escritor maranhense prega em seu axioma é muito mais uma afirmação evolutiva da formação do sujeito de si, que necessariamente uma tipologia de decepcionismo com o ser humano. E de que forma ele o faz? Chamando o leitor para um processo de criticidade. Explicando melhor, ML nos envia para campos de subjetividades e nos aproxima de autores como Friedrisch Nietzsche (Genealogia da Moral) e Michel Foucault (Vigiar e Punir), por exemplo.

Portanto, para finalizar, o autor, aos meus olhos, se nos apresenta uma crítica ferina (muito embora não esteja expressa concretamente), em estilo e modos faca de dois gumes, às morais ou ao moralismo, às religiões ou teologias, à ética dos dominantes – mas também dos dominados – à política, à economia, à educação, ao familismo, enfim, à sociedade. Em todas essas categorias com suas hierarquias pretensamente seculares “tem pessoas/ que nos deixam/ vivas por fora,/ para nos matar/ por dentro”.

 

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