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Brasil Convidadas

Imortal APB, poeta e contista Joema Carvalho escreve novo conto. Desta feita, fala sobre, "Dia do Vento"

Joema Carvalho é membro da Academia Poética Brasileira, seccional Paraná.

08/11/2021 20h34 Atualizada há 5 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Joema Carvalho
Ilustração: ML (Joema Carvalho, autora).
Ilustração: ML (Joema Carvalho, autora).

Dia de Vento

Convidada: imortal APB, Joema Carvalho

Finados sempre é dia de vento.

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Saiu de casa para visitar os mortos, como de costume. 

Deixou a bíblia aberta no Salmo 90: “Deus confirma a nossa vida!”: “Mil anos são aos teus olhos / como o dia de ontem, que passou, / uma vigília dentro da noite.”

Era idoso, mas tinha anos de vida pela frente. A vida toda praticou atividade física. Em um determinado momento, teve uma academia. Fora halterofilista. Todos os dias caminhava, pela manhã, mais de duas horas e fazia 400 abdominais. Estimulava os netos a fazerem exercícios. 

Teve um time de futebol, na época, com expressão na cidade. Os seus filhos eram jogadores, além dos sobrinhos.  Torcia para o “Porco”. Tinha brasão na sala e nos demais cômodos da casa, nas canecas e nas bandeiras espalhadas por tudo. Verde era a cor que não faltava. Quando ia para São Paulo, visitava o estádio e fazia sessão de fotos com os jogares. O primeiro presente que dava para netos era a camisa do seu time.

Sua vaidade física não aceitava a passagem do tempo. Até quando deu, pintou o cabelo. As manchas nos braços e nas mãos eram uma afronta. Não podia aceitá-las. Não tinham relação com a sua história.  Lembravam daquilo que ele fugia. Sabia que era em vão.

Quando faziam doce, ficava com a vasilha e um pedaço era dividido com os demais. O diabetes lhe consumiu três dedos do pé. Quase morreu pela boca.

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O câncer de próstata lhe educou. De machista convicto, tornou-se alguém mais flexível. A perda do filho mais velho tirou de si o controle.  Tornou-se vulnerável. 

Educou alguns netos. Devido à várias conjecturas acabavam ficando ali.

Não teve a oportunidade de assistir as inúmeras representações da bisneta e do bisneto imitando o momento da sua morte. 

No velório, em vez de choro, risos.  O que se lembrava eram das piadas dele. Todos riam. Ele permanecia sério. 

Houve muitas homenagens e presença de pessoas na cerimônia da despedida. Homenagem dos escoteiros que fizeram o ritual deles. Quando vido, levava a sério a sua função de chefe de escoteiro. Homenagem de partido político, fora candidato a vereador. Homenagem do departamento de saúde do município, fora agente de saúde pública. Homenagem de grupos religiosos, havia passado por diversos, do católico ao Seicho-No-Ie. Fora maçon, também recebeu homenagem da Maçonaria. Inúmeras coroas de flores. Tivera uma vida modesta e uma coroa no umbigo. Marca hereditária.

Através do carrinho de rolimã que fazia para os netos, escapou ladeira abaixo e não voltou mais. Faleceu no cemitério enquanto conversava com conhecidos. Sua esposa estava do seu lado. As demais, não. Não pudera permanecer ali. Precisaram preparar o corpo. Tinha que ser colocado no caixão. Havia o velório. A sua cova seria cavada por outros. 

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Naquele ano, as canas que ele havia plantado no quintal estavam mais doces. As mangueiras deram mais frutos. Foram plantadas na calçada em frente da casa. Expressavam a vontade dele de estar vivo e sempre jovem. 

O quintal parou. Apenas as ervas da Dona Olga foram capazes de dizer o seu motivo.

 

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Contato:

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Livro da autora

https://www.amazon.com.br/Luas-Horm%C3%B4nios-Joema-Carvalho-ebook/dp/B08P1Z987P

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Joema CarvalhoHá 5 anos atrásCURITIBAObrigada Luciah! Não temos como ir contra. Grata pelas suas palavras!
Luciah LopezHá 5 anos atrásCuritiba - PRA aceitação da velhice é um exercício que deve ser praticado diariamente, porque envelhecemos sem que nada possa ser feito para evitar, então nada melhor que viver a vida pela vida. O seu personagem, me parece ter feito isso e também aprendeu algumas das lições que a vida nos ensina, e foi capaz de uma sintonia com a natureza, mesmo no final da sua vida terrena. Gostei muito. Abração procê!!
Rogério RochaHá 5 anos atrásSão Luís-MAExcelente texto. Muito bom o seu conto.
Joema CarvalhoHá 5 anos atrásCURITIBAMorgana Não tenho muito compromisso com a clareza!!! Grata por expor!! Abraço!
Joema CarvalhoHá 5 anos atrásCURITIBAQue legal Francisco! Que bom que o texto trouxe lembranças!!
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