Dia de Vento
Convidada: imortal APB, Joema Carvalho
Finados sempre é dia de vento.
Saiu de casa para visitar os mortos, como de costume.
Deixou a bíblia aberta no Salmo 90: “Deus confirma a nossa vida!”: “Mil anos são aos teus olhos / como o dia de ontem, que passou, / uma vigília dentro da noite.”
Era idoso, mas tinha anos de vida pela frente. A vida toda praticou atividade física. Em um determinado momento, teve uma academia. Fora halterofilista. Todos os dias caminhava, pela manhã, mais de duas horas e fazia 400 abdominais. Estimulava os netos a fazerem exercícios.
Teve um time de futebol, na época, com expressão na cidade. Os seus filhos eram jogadores, além dos sobrinhos. Torcia para o “Porco”. Tinha brasão na sala e nos demais cômodos da casa, nas canecas e nas bandeiras espalhadas por tudo. Verde era a cor que não faltava. Quando ia para São Paulo, visitava o estádio e fazia sessão de fotos com os jogares. O primeiro presente que dava para netos era a camisa do seu time.
Sua vaidade física não aceitava a passagem do tempo. Até quando deu, pintou o cabelo. As manchas nos braços e nas mãos eram uma afronta. Não podia aceitá-las. Não tinham relação com a sua história. Lembravam daquilo que ele fugia. Sabia que era em vão.
Quando faziam doce, ficava com a vasilha e um pedaço era dividido com os demais. O diabetes lhe consumiu três dedos do pé. Quase morreu pela boca.
O câncer de próstata lhe educou. De machista convicto, tornou-se alguém mais flexível. A perda do filho mais velho tirou de si o controle. Tornou-se vulnerável.
Educou alguns netos. Devido à várias conjecturas acabavam ficando ali.
Não teve a oportunidade de assistir as inúmeras representações da bisneta e do bisneto imitando o momento da sua morte.
No velório, em vez de choro, risos. O que se lembrava eram das piadas dele. Todos riam. Ele permanecia sério.
Houve muitas homenagens e presença de pessoas na cerimônia da despedida. Homenagem dos escoteiros que fizeram o ritual deles. Quando vido, levava a sério a sua função de chefe de escoteiro. Homenagem de partido político, fora candidato a vereador. Homenagem do departamento de saúde do município, fora agente de saúde pública. Homenagem de grupos religiosos, havia passado por diversos, do católico ao Seicho-No-Ie. Fora maçon, também recebeu homenagem da Maçonaria. Inúmeras coroas de flores. Tivera uma vida modesta e uma coroa no umbigo. Marca hereditária.
Através do carrinho de rolimã que fazia para os netos, escapou ladeira abaixo e não voltou mais. Faleceu no cemitério enquanto conversava com conhecidos. Sua esposa estava do seu lado. As demais, não. Não pudera permanecer ali. Precisaram preparar o corpo. Tinha que ser colocado no caixão. Havia o velório. A sua cova seria cavada por outros.
Naquele ano, as canas que ele havia plantado no quintal estavam mais doces. As mangueiras deram mais frutos. Foram plantadas na calçada em frente da casa. Expressavam a vontade dele de estar vivo e sempre jovem.
O quintal parou. Apenas as ervas da Dona Olga foram capazes de dizer o seu motivo.
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