Joema Carvalho poeta, escritora, contista é membro da Academia Poética Brasileira, seccional Paraná.
Participei do projeto “Quarentena Literária”, organizado pelo Prosa Nova Produções Culturais, onde escritores de Curitiba - PR, comentaram, em lives, sobre os seus autores preferidos1. Escolhi William Shakespeare, autor que mexe muito comigo. Já assisti diversas peças de teatro e filmes baseados em suas obras. Seus textos são poéticos, envolventes e muito intensos. Posteriormente, parte deste texto está no volume I da coletânea projeto “Ler Faz Crecer”, da editora Vozes de Mulher (dowload gratuito)2.
William Shakespeare nasceu em 26/04/1564 e faleceu em 23/04/1616, em Stratford-upon-Avon. Conhecido como o Bardo de Avon ou Cisnei de Avon e Poeta Nacional Inglês, maior dramaturgo de todos os tempos, atemporal e transdisciplinar. Foi dramaturgo da companhia Lord Chamberlain, chamados de Homens do Rei. Escritor de grande rapidez intelectual, percepção e poder poético. Sua agudeza da mente foi aplicada a seres humanos e sua gama completa de emoções e conflitos (3).
Em função do projeto, fiz um mergulho nas obras de Shakespeare. Em determinados dias, seguia até a madrugada lendo este autor e só parava porque o sono não permitia continuar. Iniciei lendo os sonetos, mas tive necessidade de aprofundar mais na literatura dele, então li Sonhos de uma Noite de Verão, Rei Lear e Hamlet que são peças de teatro.
Como sou engenheira florestal, observei um trecho que se relaciona com a minha área de atuação. Em Sonhos de uma Noite de Verão, uma comédia, encontrei a descrição das consequências do evento “Mudanças Climáticas”, em função da interferência humana no planeta, impacto ambiental, tão comentado atualmente e, há mais de 500 anos, presente em uma passagem onde a Titânia responde a Oberon, Rainha e Rei dos Elfos:
“Tudo isso é o ciúme que a inventar vos leva. Desde aquele verão, nunca podemos nos reunir na floresta, pelos prados, nas colinas, nos bosques, junto as fontes em que os juncos vicejam, pelas praias sonorosas do mar, para dançarmos em cor ao som dos ventos sibilantes, sem que em nossa alegria não nos víssemos perturbadas por tuas invectivas. Por isso os ventos, como em represália de em vão nos assobiarem, do mar vasto aspiraram vapores contagiantes, e estes, pelo país se derramando, tanto deixaram túmidos os rios, que as margens inundaram, de orgulhosos. Em vão os bois no jugo se cansaram; perdeu o suos o lavrador; o verde trigo podre ficou antes de a barba juvenil lhe nascer; os currais se acham vazios nas campinas alagadas; cevam-se os corvos no pertoso gado; as quadras de pelota estão desertas e cobertas de lama; quase esfeitos na verde relva os belos labirintos, porque ora já ninguém neles transita. Falta aos homens mortais o frio inverno; com hinos e canções, as noites claras já não são abençoadas como outrora. E assim, a lua, que o mar vasto impera, pálida de rancor, todo o ar deixa úmido, abundando os catarros. Em tamanha desordem vemos as sazões trocadas: do seio brando da virete rosa sacode a geada a cândida cabeça, enquanto sobre o queixo e nos cabelos brancos do velho inverno, por escarnio, brotam grinaldas de botões odoros do agradável estio. A primavera, o estio, o outono procriador, o inverno furioso as vestes habituais trocaram, de forma tal que o mundo, de assombrado, para identificá-lo não tem meios. Pois bem; toda essa prole de infortúnio de nossas dissenções, tão-só, provem; geradores e pais somos de todos”.
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1QUARENTENA LITERÁRIA. Disponível em: https://prosanova.com.br/quarentenaliteraria/
2 PROJETO LER FAZ CRESCER. Disponível em: https://www.editoravozdemulher.com.br/services-4
3WILLIAM SHAKESPEARE. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/William-Shakespeare#ref232300
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Se acharmos que fazemos algo novo, é porque não lemos o que veio antes. Se acharmos que somos modernos é porque estamos desconectados da realidade.
Acredito que um café com Shakespeare, Platão, Nietczsche, Throreau, Goethe seria algo fantástico. Com certeza seria discutido sobre a falta de sensibilidade, sapiência e a corrupção dentro das relações humanas, não apenas na política. Entraria em pauta, a problemática das castas sociais que gera impactos econômicos, sociais e ambientais que compromete a qualidade de vida de todos os seres vivos no Planeta.
Parece que de todos, Shakespeare seria mais irônico, Nietczsche e Goethe, seriam mais espirituais e filosóficos e Throreau, mais radical em suas convicções em relação a sustentabilidade e ao padrão de vida e consumo humanos. Platão foi o fio condutor, talvez ele tenha vindo de algum planeta extraterreno. No meio disto, iria entrar no contexto, o comprimento de onda dos sons, relacionado à frequência das cores, a observação dos diversos detalhes e movimentos dos elementos de um jardim, onde estaríamos tomando o café, ao som de Jonh Coltrane.
Tudo já foi dito antes, de forma clara e fantástica. Somos variaciones sobre um mesmo tema. A condição humana consiste nisto. Talvez vivemos no próprio inferno, repetindo a nossa desdita por falta de consciência.
O equilíbrio e a harmonia do contraste, a medida certa do trânsito sem preconceitos pelos diversos polos do nosso cérebro, nos falta.
A linha reta do que é certo ou errado diante do princípio da incerteza que nos representa, nos leva a antecipação do fenômeno das mudanças climáticas. Enquanto o humano for tido como centro universal, onde tudo foi feito para ele e a partir dele, em detrimento dos demais elementos bióticos e físicos, do qual, a sobrevivência dele é dependente, estará fadado ao desequilíbrio e ameaçado de extinção.
ASSIM FALOU TITÂNIA
Joema Carvalho
num sonho
duma noite de verão
sapo
príncipe?
asno
efeito sedução
findou-se
com poção
dum tombo
salto
n’ asas duma libélula
quando viu abismo
voo
assim como as demais
sentiu-se única
princesa
sapa
cadela
não deixou
de ser ela
pata?
quem pensou
é que era
anta
galinha
trouxa embotada
passou
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