Joema Carvalho entrevista Beatriz Matoso, Culinarista artesã
Fotos: Divulgação
1 - JOEMA CARVALHO - De onde surgiu a ideia de cozinhar com poesia?
BEATRIZ MATOSO - Estou na estrada a duas décadas. A ideia do meu trabalho surgiu quando conheci Clarinda Lucas, bibliotecária que criou o blog Modos de Olhar. Através deste blog, conheci Lívia Garcia Roza, escritora do Rio de Janeiro, que escreveu a frase: "O único tempo que nos salva e o dá delicadeza". Senti que esta frase não podia ficar só comigo. Senti que a frase tinha relação com o resgate da essência humana, com gesto de delicadeza, bondade, e generosidade e com o como a boa palavra muda o dia de alguém, pois uma palavra bem dita é uma benção. Disto nasceu a ideia das Caixas Poemas.
2 - JC - O que são as Caixas Poemas?
BM - As Caixas Poemas surgiram em 2010. Elas são a união do doce com a doçura das palavras. A ideia foi da pessoa degustar os doces mas também que ela ficasse com algo para recordar. O objetivo era alimentar o corpo e a alma. pois a poesia para mim, é o alimento da alma, a emoção que encontra o pensamento que se encontra com a palavra.
3 - JC - O que isto significa para você?
BM -A poesia é o meu mundo, é o que me move. Sem poesia e música eu fico triste, a palavra me salva. Eu amo amar a poesia e a todos aqueles que a amam.
4 - JC- O seu ateliê nos faz entrar na casa da bruxa feita de doces da história João e Maria ou na casa do Papai Noel ou em uma casinha de boneca. Qual a relação deste local aconchegante com a sua culinária?
BM - O que busco é despertar encantamento, então criei um ambiente aconchegante, acolhedor, desde a entrada. Quero passar que aqui tem uma boa comidinha, uma boa prosa e muita hospitalidade. Eu sempre gostei do bem receber, do acolhimento. Quando alguém que gosta de poesia chega, para mim é um prato cheio, uma tarde encantada.
5 - JC - Você tem um lema, fale qual é e o porquê dele?
BM - O meu lema é: "O que eu posso fazer para tornar o seu dia mais feliz hoje" Eu gosto de ajudar e ser útil. O meu ofício é espalhar alegrias “disfarçadas” de doces palavras, através de bolos e doces. Eles são feitos para adoçar a vida das pessoas.
6 - JC Comprei dois kits do Chá do Cuidado para dar de presente para duas amigas, no dia que fui buscar os presentes você me serviu o Chá da Alegria. Fale sobre ele.
BM - O Chá da Alegria é composto de 10 ervas e especiarias que auxiliam no humor e bem-estar. Eleva os pensamentos, alimenta a sua vitalidade e traz novas energias, estimulando a felicidade. É composto por alecrim, que é conhecido como a erva da alegria, sendo o principal componente do chá, e por isto, o nomeia e faz uma mistura alquimia. Além do alecrim, este chá contém: erva doce, camomila, endro, canela, sementes de mostarda, salvia, hortelã, chá verde e tomilho. Conheci este chá em 2018. Eu sempre tive a curiosidade de encontrar a bruxinha que havia criado esta poção mágica. Neste ano de 2022, tive contato com um vídeo do Globo Repórter que fala do Chá da Alegria e da sua criadora, a doutora Ana Vladia, professora e pesquisadora da UFV. A alegria foi tanta que fiz questão de levar o vídeo para as minhas redes sociais.
7 - JC - Junto do Chá da Alegria, você serviu para mim bolachinhas de castanhas. Lembrei do livro e do filme Como Água para Chocolate da autora Laura Esquivel. Senti as células do meu corpo vibrarem com o sabor da bolachinha. Em cada mordida, uma sinapse diferente. De onde veio esta alquimia? É hereditária?
BM - Eu criei três kits com o Chá do Cuidado que levam leva bolo de maçã de crocante de nozes, chás, biscoitos, afeto & poesia em forma de presente. O petit four de castanha faz parte dos kits 02 e 03. Os petit four de castanha é considerado o meu biscoito mais queridinho, principalmente, pelas gestantes. Adoram para servir na maternidade e oferecer como lembrancinha. A minha paixão pela culinária vem da minha avó paterna, minha mãe também gostava muito de cozinhar. Mas, adotei outras receitas.
8 - JC - Como você teve a ideia de criar o Chá do Cuidado?
BM - Foi quando reli o poema de Clara Baccarin uma jovem poetiza que escreveu o texto com o título: “Você já tomou um Chá de Cuidado?” Quando li aquele texto tive a ideia deste chá. Trata-se de um texto lindo e poético que fala do afeto que envolve o alimento, da delicadeza da vida, do alimento do corpo e da alma. Assim tive a ideia. Apresentei para a autora está ideia que prontamente acolheu e autorizou. A ideia do Chá do Cuidado, na pandemia, foi levar aquele abraço que não podíamos dar de forma presencial, através de uma xícara de chá bem quentinha. Passado o período de emergência da pandemia, este projeto deu tão certo que quis dar continuidade a este carinho. Ele tornou-se também, um abraço que chega na forma de uma xícara de chá para os dias alegres e difíceis, um carinho embrulhado em doces palavras. O Chá do Cuidado leva um doce chá feito de afeto e de poesia em forma de presente.
Em tempo: Texto escrito pela Roberta Gasparotto sobre a admiração da Beatriz Matoso por Rubem Alves, postado no Facebook no dia 04/04/2020.
Da série: diga-me uma história e eu conto sua memória. Apresentando a vocês, Beatriz Matoso
"Duas grandes figuras masculinas marcaram profundamente a minha vida. Uma delas foi meu pai. A outra, foi o Rubem Alves. Na verdade, revisando o texto que escrevo agora para você, achei um pouco estranho conjugar o verbo no passado. Afinal de contas, a palavra dos dois continua fazendo eco em mim. Com papai, eu convivi desde sempre. Já Rubem Alves, eu fui apresentada aos dezessete anos de idade, durante as minhas aulas no magistério. Naquela época, eu nem fazia ideia do impacto que ele teria sobre mim.
O tempo passou, a vida foi seguindo seu curso e eu posso lhe afirmar que um dos dias mais tristes da minha vida, foi o dia em que esse grande escritor faleceu, em julho de 2014. Lembro que chorei compulsivamente. E havia nesse choro, além de muita tristeza, certo sentimento de culpa. Sentia-me culpada de nunca haver expressado o quanto ele contribuiu para o meu desenvolvimento. De modo que, depois do seu falecimento, eu prometi a mim mesma sempre externar a minha gratidão a todos os escritores e poetas, que porventura, viessem a contribuir na minha formação. E são tantos, e são muitos!
Para eles, eu não penso duas vezes, sempre que posso eu manifesto o meu afeto e agradecimento. Como não amar quem faz meus dias mais felizes, com palavras que são verdadeiras canções para os meus ouvidos? De forma que eu escrevo esse texto para homenagear todos os artistas que marcaram a minha trajetória. E, como não quero deixar ninguém de fora, não citarei nomes, porque, como já disse, são muitos. Mas sei que eles sabem quem são. Como sabem? Eu digo isso a eles, em alto e bom som. Digo e repito, sem medo de parecer cansativa, cada vez que eles tocam no meu coração. E, para isso, eu uso da mesma arma que eles: o verbo. Faço isso não com o intuito de deixá-los envaidecidos. Eu faço isso, para deixá-los enternecidos. Gosto de enternecer quem tanto me enternece.
Hoje em dia tenho a grande alegria em dizer que me tornei amiga de muitos deles, inclusive da Raquel, uma das filhas de Rubem Alves. Repare como a vida é fascinante: um dos dias mais tristes que eu vivi foi a morte do Rubem, como lhe contei. E um dos dias mais felizes, foi quando eu viajei até Campinas e fui ao Instituto criado em sua homenagem. Mais que conhecer aquele lugar incrível, eu conheci, nesse dia, a Raquel. Abracei-a com imensa ternura, e senti como se estivesse abraçando, através da filha, o pai dela (Raquel é essa bela mulher que aparece com expressão divertida e as mãozinhas pra cima). Ela é assim: de coração e alma leve.
Tão leve que, imagina você, nesse dia em que eu visitei o Instituto - que foi fundado por Raquel - tinha mais ou menos umas duas semanas que ela havia perdido sua mãe. E mesmo em meio à dor do luto, ela me recebeu com todo amor que ela tem naquele coração. Presenteou-me, inclusive, veja só, com uma das cadernetinhas de sua mãe. Gesto de gente generosa, que dá por puro afeto, e, ao contrário do avarento, que sofre ao dar, o generoso sabe que aquilo nada lhe tira. Muito pelo contrário: o generoso sabe que, toda vez que ele compartilha algo, ele é o primeiro a ganhar."
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