Especial: Joema Carvalho para o facetubes.com.br
Como tornar visível a literatura e a poesia paranaense
*As ilustrações mostram importantes nomes que participaram do projeto.
Desde julho de 2020, há um palco virtual, mensal, para a poesia e a literatura paranaense. Trata-se do projeto “Às vezes, aos domingos”, idealizado e coordenado pelos escritores curitibanos Guido Viaro, 53 anos, e Marcio Renato dos Santos, 48 anos.
Inicialmente, em cada edição de “Às vezes, aos domingos”, dois autores ou duas autoras (ou um autor e uma autora) se entrevistavam, sem mediador(a), no Instagram de um(a) do(a)s convidado(a)s.
A partir de de dezembro de 2021, os encontros passaram a ser transmitidos pelo canal do YouTube Às vezes, aos domingos (https://www.youtube.com/channel/UCesJZUDSpKlbAmy4FJgPs8g), e em algumas edições, além de paranaenses, autores e autoras de outros estados brasileiros também participaram.
Mais de 30 autores e autoras locais já entraram em cena no palco virtual de “Às vezes, aos domingos”. E não apenas vozes curitibanas, mas escritores, escritoras e poetas de todas as regiões do Paraná.
Para saber mais sobre a iniciativa, Joema Carvalho entrevistou Guido Viaro e Marcio Renato dos Santos. Eles explicaram como surgiu a proposta, comentaram alguns detalhes e anunciaram planos.
Além de ser escritor, com 19 romances publicados, entre os quais O Cubo Mágico, vencedor do Prêmio Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná, Guido Viaro – formado em Letras – dirige desde 2009 o Museu Guido Viaro, espaço curitibano que exibe obras de seu avô (ambos têm o mesmo nome) e abre espaço para atividades culturais.
Marcio Renato dos Santos autografou, em 25 junho de 2022, o seu novo e nono livro de contos, Candongas não fazem festa – evento realizado no Museu Guido Viaro. Ele, que literariamente só escreve contos, também é jornalista, mestre em Estudos Literários e há alguns anos desenvolve projetos culturais.
Confira a íntegra do bate-papo:
Como surgiu a ideia do “Às vezes, aos domingos”?
Marcio: Ainda em 2019, o Guido Viaro e eu conversávamos sobre a necessidade de criar um projeto para dar voz e palco a autores e autoras paranaenses, algo que não existia até então – havia leituras públicas, mas nosso plano era viabilizar uma possibilidade de conversa dos autores e das autoras entre si e com o público.
Guido: Naquele contexto, antes da pandemia, já havia planos para esse projeto, sem saber como ou onde a proposta iria acontecer, se é que iria se tornar realidade.
Marcio: Após conversas e esboços, chegamos a um formato: realizar encontros mensais, cada edição com dois autores, ou duas autoras, sem mediador(a). Um(a) autor(a) entrevistando o(a) outro(a), com pauta livre.
Guido: E também com leitura de textos autorais. O evento poderia acontecer em uma sala, auditório ou em um teatro de Curitiba.
Marcio: 2019 acabou, veio 2020 e a pandemia.
Guido: Evidentemente, não foi possível promover encontros presenciais.
Marcio: Decidimos, então, fazer bate-papos online, inicialmente no Instagram.
Então, a parceria para fazer o projeto aconteceu dessa forma?
Guido: Sim, inclusive a pandemia em alguma medida impulsionou a realização de "Às vezes, aos domingos".
Marcio: Em junho de 2020, as lives estavam em alta. O Guido sugeriu que nós dois fizéssemos uma [live], e eu lembrei daquele projeto. Por que não fazemos uma série de lives para materializar, mesmo que em plataforma digital, a proposta de criar palco para autoras e autores?
Guido: Em 26 de julho de 2020, fizemos a primeira live do projeto “Às vezes, aos domingos”.
Como é a dinâmica do projeto?
Marcio: Desde o início, o Guido e eu convidamos para "Às vezes, aos domingos" autores e autoras paranaenses, ou radicado(a)s no Paraná.
Guido: O(a) convidado(a) não precisa, por exemplo, estar lançando livro ou ser um(a) autor(a) badalado(a)/festejado(a).
Marcio: Precisa ter uma voz, ser um autor, uma autora. Alguns ainda não publicaram livros (mas são leitore[a]s, escreveram obras e seguem inéditos), outro(a)s são veterano(a)s.
Guido: O mais importante (e óbvio, alguém poderia afirmar) é promover a literatura paranaense, pujante e plural.
Marcio: Anormal seria, por exemplo, silenciar (sobre os autores do Paraná) e, com a oportunidade e poder de divulgação, focar em outros conteúdos alegando ser cosmopolita (como se, no Paraná, não fôssemos cosmopolitas).
Guido: Fundamental, também, é evitar a chamada "ação entre amigos", prática que é quase regra, e consiste em envolver apenas brothers (and sisters) em projetos culturais.
Marcio: "Às vezes, aos domingos" tem a meta de ser plural, inclusivo e, para comprovar isso, basta conferir os nomes, e a produção desses nomes, que participaram das quase 30 edições que realizamos até hoje. De Oscar Nakasato a Jaqueline Conte. De Paulo Venturelli a Andréia Carvalho Gavita. De Roberto Nicolato a Maureen Miranda. De Marco Aurélio de Souza a Daiana Pasquim. De Ademir Demarchi a Salma Ferraz. De Carlos Machado a Jô Bibas. De Luiz Felipe Leprevost a Francine Cruz. De Jonatan Silva a Etel Frota. De Alexandre Gaioto a Eliege Pepler. De Fabiano Vianna a Marianna Camargo. De Otto Leopoldo Winck a Priscila Prado. Trupe Periferia, Antonio Cescatto, Luísa Cristina dos Santos Fontes, Roberto Prado, Luiz Andrioli, Marco Aurélio Cremasco, Willy Bortolini, Andrey Luna Giron, Ernani Buchmann, Ayrton Baptista Junior, entre outros e outras, como você, Joema. Inclusive, a única live que o Fábio Campana (1947-2021) fez foi em uma edição de "Às vezes, aos domingos", em 21 de março de 2021.
Guido: O Paraná tem uma formação plural e não seria coerente, muito menos em um projeto literário, focar em grupos, panelas, nem mesmo repetir padrões, e vícios, badalando os nomes já badalados pela imprensa.
Marcio: O que não nos impede de convidar autoras e autores festejados, mas não só eles e elas.
Em 25 de junho deste ano, no dia do lançamento de Candongas não fazem festa, o novo e nono livro de contos do Marcio, evento realizado no Museu Guido Viaro, a Claudia Lubi, apoiadora (por meio da Soma de Ideias) do projeto “Às vezes, aos domingos”, disse que, em um curso de literatura na Europa, ela não soube citar escritores paranaenses. Respondi que eu também não conhecia, e percebemos a importância do “Às vezes, aos domingos”, iniciativa que tem gerado oportunidades para que escritoras e escritores paranaenses mostrem os seus trabalhos. Este foi o objetivo da parceria de vocês?
Guido: Você compreendeu perfeitamente. O Marcio faz um trabalho brilhante de assessoria de comunicação para a divulgação dos escritores que participam de “Às vezes, aos domingos”.
Como é este trabalho, Marcio?
Marcio: Antes e além da live, "Às vezes, aos domingos" produz divulgação dos convidados. Faço entrevistas exclusivas para o projeto e, a partir do conteúdo, escrevo releases e envio o material de imprensa para sites e blogs. Também posto quase todos os dias notas inéditas, sobre os entrevistados, em meu Facebook, no meu Instagram e nos blogs Minda-au (minda-au.blogspot.com) e Tulipas Negras (tulipasnegraseditora.blogspot.com).
Guido: Vale acrescentar que, com a intensa divulgação prévia, também fomentamos a literatura e a poesia, espalhando os nomes e as obras dos autores por toda essa grande, vasta e, em tese, infinita rede virtual.
Guido, como você atua no projeto?
Guido: Converso com o Marcio, pelo menos uma vez por semana, há anos. E nesses bate-papos informais geralmente surgem ideias, nomes e sugestões para uma nova edição de “Às vezes, aos domingos”. Convido alguns autores e autoras, às vezes o Marcio faz o convite, enfim, é um trabalho em parceria.
Além de vocês quem mais dá suporte ao “Às vezes, aos domingos”?
Guido: Tem a Tulipas Negras Editora, que abre espaço no blog e no Facebook. Já a Soma de Ideias, da Claudia Lubi, é a empresa responsável pelos banners virtuais, o que imprime, desde a primeira edição, uma identidade visual ao projeto. São banners, sem exagero, muito bem feitos, com poderosa sugestão de comunicação. Também temos apoio da Coalhada Artesanal Preciosa, empresa que, entre tantos benefícios, viabiliza esporadicamente o sorteio de coalhadas durante os encontros e também, em algumas edições, oferece coalhadas aos participantes.
Marcio: E tem o público, que nos acompanha e está presente durante as lives ou revendo os bate-papo armazenados em nosso canal do YouTube.
Como as pessoas podem conhecer o “Às vezes, aos domingos”?
Guido: Basta curtir, dar um like, no canal do YouTube Às vezes, aos domingos (https://www.youtube.com/channel/UCesJZUDSpKlbAmy4FJgPs8g), que a pessoa vai receber a notificação das lives. Ou acessar o blog tulipasnegraseditora.blogspot.com. Ou então digitar no Google “Às vezes, aos domingos”. Assim pode aparecer notícia das próximas e até das lives anteriores. Tenho acompanhado este trabalho, também tive a honra de já ter participado, junto da Priscila Prado, da 18.ª edição, em 24 de outubro de 2021, e 1 poema meu foi lido pela Trupe Periferia em 27 de julho deste ano, na edição 27 de “Às vezes, aos domingos”.
Percebo que tem ocorrido mudanças na configuração do projeto. Comentem sobre este processo. Tem algumas metas que poderiam ser compartilhadas?
Guido: De julho de 2020 até novembro de 2021, os encontros aconteciam no Instagram. A partir de dezembro de 2021, criamos um canal do YouTube, o Às vezes, aos domingos.
Marcio: De dezembro de 2021 até junho deste ano, realizamos uma sequência de encontros, já no canal do YouTube Às vezes, aos domingos, com a participação de um autor ou autora paranaense e convidados e convidadas de outros estados brasileiros.
Guido: Dessa maneira, viabilizamos uma espécie de intercâmbio dos paranaenses com vozes de outras regiões do Brasil, incluindo a presença de André Sant’Anna, Ana Apolinário, Paulino Júnior, Divanize Carbonieri, Henrique Rodrigues, Samanta Holtz e grande elenco.
Marcio: Alteramos o formato durante a passagem do tempo. O meu sonho é levar o “Às vezes, aos domingos” para uma TV aberta. Ou, então, para uma rádio.
Guido: Outra possibilidade é realizar os encontros em um teatro ou auditório, como planejamos inicialmente.
Neste mundo egocêntrico, o projeto gera oportunidades para diversos autores. Qual é o entendimento de vocês em relação a esta entrega voluntária à literatura paranaense?
Marcio: O Guido desde 2009 está à frente de um projeto amplo de difusão da cultura, que é o Museu Guido Viaro, espaço que exibe obras do avô dele, Guido Viaro (1897-1971), e também abre espaço para exposições, cursos, além de ter uma sala dedicada ao legado do Dalton Trevisan, e outra em que há uma mostra permanente sobre a obra do Federico Fellini. Também há lançamentos de livros, já lancei alguns dos meus lá, é sempre bom, ótimo. O Museu Guido Viaro é um dos espaços culturais mais interessantes e agradáveis do Paraná.
Guido: O Marcio também fomenta a cultura há algum tempo, seja com o projeto Tulipas Negras, que já lançou livros-contos, em formato de cardápio, de diversos autores e autoras, do Dalton Trevisan até Izabel Campana, Renan Machado, Cristiano Castilho, entre outros e outras.
Marcio: No momento, estou à frente de “Ampliando Horizontes: Poesia e Ficção”, projeto realizado com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura – Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura Municipal de Curitiba. Com produção da Máquina de Escrever, a proposta ofereceu 3 oficinas de criação literária, uma de romance (com o Otto Leopoldo Winck), outra de contos (com o Cezar Tridapalli), e uma terceira de haicais (com o Alvaro Posselt). Os cursos foram realizados na Biblioteca Pública do Paraná, instituição que apoiou a iniciativa. A ação envolveu dezenas de alunas e alunos, estimulando a criação e oferecendo recursos e repertório para as pessoas desenvolverem arte.
Guido: Ou seja, nós, além de individualmente escrevermos literatura, também participamos de propostas culturais há algum tempo.
Marcio: No Paraná (e no Brasil), muitas pessoas estão escrevendo, publicando, e isso precisa de um palco. Ao invés de reclamar (a falta de divulgação), o Guido e eu criamos “Às vezes, aos domingos”. Tem outras propostas interessantes, como a “Ilha do Fogo”, do Amarildo Anzolin, que uma vez por semana abre espaço para um(a) artista local – o conteúdo é gravado na Galeria 373, em Curitiba, e posteriormente o áudio do bate-papo é exibido na Rádio Cultura AM 930 Khz. Sensacional essa ideia do Amarildo, que inclusive lançou ano passado um excelente livro de poemas, Central de Despachos Nossa Senhora das Graças. E, reforço, se alguém quiser nos patrocinar, aceitamos. Gostaríamos de pagar cachê aos participantes. Tem que profissionalizar. Enfim, repetindo, se alguém, empresa ou pessoa física, estiver interessado, é só nos procurar.
VÍDEO-BÔNUS:
"Às vezes, aos domingos" | Edição 26 | Maureen Miranda e Marco Aurélio de Souza
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