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Sobre o projeto Shakspeare: "O Escritor de Todos Os Tempos - William Shakespeare"

A acadêmica Joema Carvalho é membro da Academia Poética Brasileira

28/09/2022 14h49 Atualizada há 4 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Joema Carvalho
Joema Carvalho
Joema Carvalho

 

Joema Carvalho

William Shakespeare nasceu em 26/04/1564 e faleceu em 23/04/1616, em Stratford-upon-Avon. Conhecido como o Bardo de Avon ou Cisnei de Avon e Poeta Nacional Inglês. Foi o maior dramaturgo de todos os tempos e fez parte da companhia Lord Chamberlain, a trupe era chamada de “Homens do Rei”. Escritor de grande rapidez intelectual, percepção e poder poético. Sua agudeza da mente foi aplicada a seres humanos e sua gama completa de emoções e conflitos2.

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Joema Carvalho em montagem MHL.

 

Por que diversas vezes escolhi Shakespeare

 

Antes de ser engenheira florestal eu escrevia, mas não quis seguir uma carreira profissional voltada a literatura. Neste contexto de minha vida, fiquei um tempo afastada da leitura de textos literários, foquei nos técnicos, em função do mestrado e rotina profissional. Em um determinado momento, senti uma necessidade grande de ler literatura e resgatei Shakespeare e reli Romeu e Julieta. Neste drama ocorreu um despertar de que eu poderia unir a engenharia florestal à literatura. Depois desta leitura, cada vez a engenharia florestal foi entrando no que escrevo, até chegar a fazer parte de vários projetos de literatura e meio ambiente e integrar o Grupo de Ecocrítica da Universidade Federal do Paraná – UFPR. Recentemente, vi que Shakespeare é abordado como um autor referência dentro da ecocrítica.

 

Shakespeare e minha percepção

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Fiz parte do projeto Quarentena Literária, durante o pior momento da pandemia, o qual foi um balsamo naquele período, onde me ocupei de Shakespeare. Li várias obras dele, dentre elas, Sonhos de uma Noite de Verão. Encontrei, também, um trecho que se relaciona com a minha área de atuação, no que diz respeito às consequências do evento “Mudanças Climáticas” em função da interferência humana no planeta, impacto ambiental, tão comentado atualmente e, há 500 anos, presente em uma passagem onde a Titânia responde a Oberon, Rainha e Rei dos Elfos:

 

“ATO 11 – CENA I

 

Titânia – Tudo isso é o ciúme que a inventar vos leva. Desde aquele verão, nunca podemos nos reunir na floresta, pelos prados, nas colinas, nos bosques, junto as fontes em que os juncos vicejam, pelas praias sonorosas do mar, para dançarmos em cor ao som dos ventos sibilantes, sem que em nossa alegria não nos víssemos perturbadas por tuas invectivas. Por isso os ventos, como em0 represália de em vão nos assobiarem, do mar vasto aspiraram vapores contagiantes, e estes, pelo pais se derramando, tanto deixaram túmidos os rios, que as margens inundaram, de orgulhosos. Em vão os bois no jugo se cansaram; perdeu o suos o lavrador; o verde trigo podre ficou antes de a barba juvenil lhe nascer; os currais se acham vazios nas campinas alagadas; cevam-se os corvos no pertoso gado; as quadras de pelota estão desertas e cobertas de lama; quase esfeitos na verde relva os belos labirintos, porque ora já ninguém neles transita. Falta aos homens mortais o frio inverno; com hinos e canções, as noites claras já não são abençoadas como outrora. E assim, a lua, que o mar vasto impera, pálida de rancor, todo o ar deixa úmido, abundando os catarros. Em tamanha desordem vemos as sazões trocadas: do seio brando da virete rosa sacode a geada a cândida cabeça, enquanto sobre o queixo e nos cabelos brancos do velho inverno, por escarnio, brotam grinaldas de botões odores do agradável estio. A primavera, o estio, o outono procriador, o inverno furioso as vestes habituais trocaram, de forma tal que o mundo, de assombrado, para identificá-lo não tem meios. Pois bem; toda essa prole de infortúnio de nossas dissenções, tão-só, prove; geradores e pais somos de todos”

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Independente desta abordagem minha ambiental, Shakespeare é difuso, sistêmico, integrado, transdisciplinar. Além de sua responsabilidade com a sensibilidade humana, conectada com a sua essência livre e integrada aos elementos e dinâmica da natureza, elemento típico dos textos medievais.

 

Estas palavras e conexões começaram a fazer parte da nossa sociedade na década de 60, em decorrência na necessidade de se abandonar velhas formas de se gerir o Planeta, as quais estavam levando a sérios danos ambientais, sociais e econômicos, em função da interconexão entre estes três pilares básicos e iniciais da Sustentabilidade. Muitas pessoas ainda hoje, não conseguem fazer conexão entre estes pilares. Shakespeare é eterno porque ele pode ser visto sob a ótica de qualquer visão, justamente porque ele transcende a linha reta que compatibiliza o todo que nos cerca. Como exemplo, na sociedade atual, existe uma especialização absurda, como um médico especialista em braço e antebraço, no caso se você tem problema nestas duas situações, você tem que ir em dois médicos, em duas clínicas, situação está que vivi. Respondi para o médico que na próxima consulta enviaria o meu braço pelo correio, hoje, teria a opção de enviar por aplicativo.

 

Em Rei Lear, considerada a peça mais sanguinolenta de Shakespeare, ele consegue através de um personagem, em determinados momentos, quebrar esta tensão, no caso, o bufão. Na minha leitura, este personagem é como se fosse uma espécie de consciência do rei Lear. Facilmente, relacionamos a peça com contextos atuais dentro de famílias, considerando a relação das filhas do rei Lear com ele e o forte contexto político de tramas e de traições visando o poder, sem escrúpulos.

 

Hamlet supera em densidade, profundidade e força. Neste drama, consta o texto que é considerado o mais poético de todos os tempos:

 

“ATO III / CENA I

 

HAMLET — Ser ou não ser… Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes?

Morrer… dormir… mais nada… Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir… dormir… Talvez sonhar… É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa ideia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte — terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem. Mas, silêncio! Aí vem vindo a bela Ofélia. Em tuas orações, ninfa, recorda-te de meus pecados”.

 

Existem leituras em que Hamlet é considerado esquizofrênico, uma vez que ele falava com o pai já morto e ouvia “vozes”. Minha leitura foi de que ele era um adolescente, com uma sensibilidade muito acima do normal, com grau de mediunidade. Em função disto, conseguia captar as tramas do poder e passou a incomodar quem estava no controle. Assim como em Romeu e Julieta, o casal Hamlet e Ofélia representava a beleza, o amor e a pureza. Nas duas situações, adolescentes que morrem de forma precoce e trágica, refletindo o ambiente denso que habitamos, onde a frequência do amor é impossibilitada de coexistir. Aos poucos, os personagens vão sendo caracterizados e, no final, ganha muita intensidade. Depois que li, precisei parar, o conteúdo foi sendo absorvido aos poucos. Dentre os textos mais fortes e fantástico que já li.

 

Shakespeare está presente além das peças de teatro e poemas

 

Shakespeare deixa suas pegadas de forma marcante e eternamente atual. É responsável por neologismos que estão impregnados mundialmente em diferentes léxicos3, palavras que são utilizadas com frequência em diferentes meios:

- "Foregone conclusion" (“Conclusão precipitada”), em Otelo, o Mouro de Veneza;

- “For goodness sake” (Expressão menos cristianizada para “Pelo amor de Deus”), em Henrique VIII;

- “Good riddance” (Equivalente a “Já vai tarde”), em O Mercador de Veneza;

- “Neither here not there” (“Nem aqui, nem lá”), em Otelo, o Mouro de Veneza;

- “What's done is done” (“O que está feito, está feito”), em Macbeth;

- “Break the ice” (“Quebrar o gelo”), em A Megera Domada;

- “Catch a cold” (“Pegar uma gripe”), em Cimbelino;

- “Uncomfortable” (“Desconfortável”), em Romeu e Julieta;

- “Manager” (“Administrador”), em Sonho de uma Noite de Verão;

- “Devil incarnate” (“Diabo encarnado”), em Tito Andrônico;

- “Dishearten” (“Sem coração”), em Henrique V;

- “Eventful” (Literalmente, “Cheio de coisas/eventos/acontecimentos”; usado para dizer, por exemplo, “Tive um dia cheio”), em Como Gostais;

- “New-fangled” (Algo como “Novo e já obsoleto”), em Trabalhos de Amores Conquistado;

- “Hot-blood” (“Sangue quente”), em Rei Lear;

- “Knock knock! Who's there?” (“Toc toc! Quem bate?”), em Macbeth;

- “With bated breath” (“Com a respiração suspensa”), em O Mercador de Veneza;

- “Laughable” (“Risível”), em O Mercador de Veneza;

- “Negotiate” (“Negociar”), em Muito barulho por nada;

- “Assassination” (“Assassinato”), em Macbeth;

- “A heart of gold” (“Coração de ouro”), em Henrique V;

- “Fashionable” (“Elegante”), em Tróilo e Créssida;

- “Puking” (“Vomitar”; antigamente usava-se palavras mais rebuscadas como “Regurgitar” ou “Verter”), em Como Gostais;

- “Dead as a doornail” (Equivalente a “Mortinho da silva”), em Henrique VI, Parte II;

- “Not slept one wink” (“Não dormi nem uma piscada”), em Cimbelino;

- “Obscene” (“Obsceno”), em Trabalhos de Amores Conquistados;

- “Bedazzled” (“Estupefato”), em A Megera Domada;

- “Addiction” (“Vício”), em Otelo, o Mouro de Veneza;

- “Faint-hearted” (Equivalente a “Covarde”), em Henrique VI, Parte I;

- “Vanish into thin air” (“Desaparecer no ar”), em Otelo, o Mouro de Veneza;

- “Zany” (Equivalente a “bobo”), em Trabalhos de Amores Conquistado;

- “Lonely” (“Solitário”), em Coriolano;

- “Unreal” (“Irreal”), em Macbeth;

- “Epileptic” (“Epiléptico”), em Rei Lear;

- “Arch-villain” (“Arqui-vilão”), em Tímon de Atenas;

- “Bloodstained” (“Manchado de sangue”), em Tito Andrônico;

- “All of a sudden” (“De repente”), em A Megera Domada;

- “Come what, come may” (“Aconteça o que acontecer”), em Macbeth;

 

Encerrando o Projeto Soneto de Shakespeare

 

Escrevi um poema para a minha coluna do Facetubes, como de costume, com o título “Soneto de Shakespeare”. Para a semana seguinte, escrevi outro poema, com outro título, mas esqueci de apagar o título do poema anterior, quando verifiquei, o Mhario Lincoln, editor do Facetubes e Presidente da Academia Poética Brasileira, da qual faço parte, já havia publicado o poema. Alertei para ele do ocorrido. O retorno do Mhario foi: “Vamos fazer o Projeto Soneto de Shakespeare”. Adorei! O Mhario tirou vantagem da desvantagem e o projeto aconteceu, de forma inusitada!

 

A proposta do projeto foi para eu escrever dez poemas baseados em Shakespeare. Alguns poemas fluíram, outros precisei reler as obras do autor. Como não gosto de uma rotina, transitei pelos sonetos e pelas peças de teatro. A provocação do Mhario foi um presente!

 

A energia e a profundidade dos textos do “Bardo de Avon” ainda são um fantasma para alguns ou um balsamo para outros, uma ferramenta para sobrevivermos neste mundo e também para compreender o ser humano tal como ele é.

 

O Projeto Soneto de Shakespeare foi mais uma oportunidade para eu mergulhar nas obras deste autor fantástico que sempre seduzirá e acrescentar, as releituras e inspirações a partir dele, são infinitas.

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1QUARENTENA LITERÁRIA. Disponível em: https://prosanova.com.br/quarentenaliteraria/

2WILLIAM SHAKESPEARE. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/William-Shakespeare#ref232300

3338 palavras criadas por William Shakespeare. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/blogs/estante-galileu/noticia/2016/04/38-palavras-criadas-por-william-shakespeare.html

Parte deste texto fez parte do projeto “Ler Faz Crescer” que virou coletânea, editada pela Editora Voz de Mulher. Disponível em: https://www.editoravozdemulher.com.br/product-page/ler-faz-crescer-volume1

 

 

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Joema Há 4 anos atrásCuritiba, PROlá Salomé Todas as ilustrações foram criadas pelo editor do Facetubes e presidente da Academia Poética Brasileira, Mhario Lincoln. Ele autorizou a reprodução! Ficamos felizes por estar acompanhando o projeto e por apreciar o nosso trabalho. Grande abraço!
Joema Há 4 anos atrásCuritiba, PRLudmila e família Que legal!! ...a escritora aqui precisa de tempo! Foi um projeto prazeroso demais, graças aos retornos como o de vocês, mas também muito intenso!! Apareçam sempre!! Grande abraço!
Joema Há 4 anos atrásCuritiba, PRProf. Narda Lima, assim como você, outros pesquisadores de Shakespeare comentaram os poemas do projeto. Sem saber, muito menos sem ter tido a intenção...acho que o projeto foi aprovado por uma banca da "Pós"! Ter a presença de quem estuda Shakespeare válida e fortalece o projeto. Agradeço! Abraço!
Joema Há 4 anos atrásCuritiba, PRAgradeço, agradeço e agradeço demais a presença de todos por aqui!! O ego chora de felicidade e se curva!! Desde o início do projeto, os comentários foram lindos e especiais. O retorno foi maravilhoso!!
WilsonHá 4 anos atrásCuritibaMaravilhoso texto.
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