Especial: Joema Carvalho, da Academia Poética Brasileira. Texto, fotos e idealização.
Indicação: Jul Leardini, um dos organizadores da exposição, para o Facetubes.
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ENTREVISTA – LAVALLE
INTRODUÇÃO
Antes de entrevistar o Lavalle, visitei o blog dele. Foi um impacto devido a qualidade do trabalho, algo que destoa da “normoise”. Em um segundo olhar, vi a presença de mitos, diversos símbolos, um conjunto de tendências de várias épocas e inspirações da arte.
É forte no artista a exposição do ser humano no aqui e no agora, tal qual ele é. O retrata em igual importância a tudo o que é vivo. De forma fantástica, traz à tona o antropoceno, o ser humano que influência, é influenciado e sofre as consequências de suas intervenções no Planeta.
No terceiro olhar, encontro um artista com uma personalidade própria e consciência do plano que habita. Através dos limites do espaço de uma tela, permite e provoca um universo inteiro de reflexões sobre uma mesma obra.
O ciclo vida-morte-vida é uma constante. Através das vísceras expostas de um humano em decomposição, brotam trepadeiras com flores, que nos traz a força da resiliência da vida, o seu poder de regeneração diante do caos, que em teoria, explica a sua própria existência.
Bioformas é um conjunto destes elementos que são típicos do Lavalle. A entrevista com ele reforçou as primeiras impressões que tive sobre o seu trabalho.
A ENTREVISTA
Ser artista plástico foi uma opção?
Desde que me conheço, sempre desenhei. Por este motivo, fiz faculdade na FAP, cursei licenciatura em Artes Plásticas, onde a ideia de ser professor e artista vieram ao mesmo tempo, foi uma consequência da própria formação.
Como percebeu esta vocação?
Quando criança dizia que queria ser desenhista, na época, não conhecia a definição artista plástico!! Posteriormente, na pré-adolescência, foi quando pensei com mais seriedade. Fiz um curso de quadrinhos onde tinha que criar uma capa e uma história, porém, fiquei o tempo todo na capa, trabalhando com a técnica de nanquim. O professor disse que eu me encaixava mais em aula de pintura artística. Depois disto passei a pesquisar artistas e respectivas obras. Em casa havia uma bíblia com as pinturas dos grandes mestres. Eu gostava de ficar folheando para ver as figuras.
Ao fazer um curso de teatro com o Paulo de Moraes do Cia. Armazém, em Londrina, PR, ele dizia que atuar era “arrancar espremendo”. Lembrei disto quando vi sua obra. Você desnuda o ser humano, expõe suas vísceras. Quais são as suas influências?
Quando eu era mais jovem as influências eram mais perceptíveis, com o tempo, fui diluindo estas influências. Hoje foco no meu trabalho e em leituras. Alguns artistas ainda são fundamentais para mim como Adriana Varejão, Daniel Senise, Tunga e os alemães Anselm Kiefer e Gerhard Richter. Gosto muito da pintura alemã contemporânea.
Tem uma linha da literatura que é a Ecocrítica, abordagem ambiental sobre uma determinada obra literária. Verifiquei em vários trabalhos seus o ser humano integrado, interferindo e sendo interferido pela natureza e, gerando consequências para si desta relação. Como exemplo, na série Futuro Primitivo e também, nesta nova exposição, Bioformas. Esta abordagem é intencional?
a) - Com certeza! Procuro dosar esta temática com o conceito da pintura. Esta narrativa está ali, mas equilibrada com os conceitos e problemáticas da pintura. Me influencio por estas questões atuais ligadas a natureza, a tudo o que está acontecendo nos últimos anos, derivados do impacto do consumo da carne, do desmatamento, que estão diretamente ligados e a pandemia que também está atrelada a isto.
b) - Em relação a influência da leitura na minha obra, tem o livro que se chama “O Futuro Primitivo”, sobre a antropologia anárquica, que nomeia uma das séries do meu trabalho. Outro livro que me influencia bastante é “A Política Sexual da Carne”, um livro muito impactante para se entender a questão do consumo da carne, da carne da mulher e da carne do ser humano. São as minhas leituras mais atuais.
c) - Tem um trabalho que estará na Bioformas que chama “Retalhamento”, que é o título dado ao processo industrial que é feito com a carne. Coloco o humano, o vegetal e o animal nesta mesma situação.
Porque o nome da série Eugenia?
a) - Tenho muitos trabalhos e muitas series que a palavra tem mais de um sentido. Eu parto do título, mas acabo pintando outra coisa. O título é dúbio e eu acabo trabalhando com questões irônicas. Esta série é um pouco mais antiga, de 2019, foi uma sequência de retratos. Eugenia se refere a limpeza étnica, feita na Alemanha nazista, a ideia da pureza na raça. As pinturas nesta serie representavam líderes de comunidades e indígenas que foram assassinados nos últimos anos no Brasil, em decorrência de uma política que visou o enfraquecimento destes povos.
b) - Na época, eu estava pesquisando o efeito da água sanitária sobre tecidos pretos. Ela ia manchando estes tecidos e, a partir disto, produzia estes retratos. O que gerou um trabalho bem politizado, violento e intenso. A água sanitária é uma alusão a limpeza étnica que foi feita no Brasil também. A água sanitária sobre o tecido escuro faz o embranquecimento. A Bioformas está mais poética, mais velada nestas questões, mas também relaciona-se a estas temáticas.
Você escancara o mórbido, mas também a vida. Fale um pouco do ciclo vida-morte-vida na sua obra?
Eu sempre vou estar explorando isto. Acho que comecei a desenvolver esta temática a partir da obra do Tiziano, “As Três Idades do Homem”, que mostra o bebê, as várias idades do homem, até a um velho segurando uma caveira. Esta obra me despertou a discutir isto no meu trabalho, a passagem do tempo e estes processos da natureza como da História, que vejo como cíclicos. Atualmente, voltaram muitas questões que achávamos que nunca iriam retornar. A princípio são obras apocalípticas, tem uma distopia, mas deixo sempre uma possibilidade, uma esperança, no sentido de, ainda tem uma saída.
Você partiu de alguma mitologia para desenvolver a exposição Bioformas?
Utilizo referencias mitológicas, híbridos que vem de pinturas medievais, mas procuro sempre reinterpretar, reinventar estes mitos. As vezes estão mais evidentes, outras vezes não tanto. A própria mitologia Grega e passagens bíblicas têm coisas que acho interessante, muitas vezes, subverto de forma irônica. O meu trabalho é uma homenagem a pintura, a estes grandes temas que acabo explorando, atualizando e trazendo para uma discussão atual. Vou construindo à minha maneira de pensar na arte.
Existe uma simbologia, um mito implícito na sua arte. Acredito que ela cumpri com a sua função e reflete a psique humana. Sente que é isto?
Quando eu faço o meu trabalho busco o sublime, por mais romântico e antiquado que seja isto, quero que as pessoas fiquem incomodadas de alguma forma. Que reflitam sobre a vida, sobre a nossa existência, o porquê de tudo isto, que pensem a pintura, os problemas dela, como a cor, os tratamentos: liso, rugoso, as transparências, mas que tenham uma discussão existencial. Quero que o meu trabalho gere impacto. Produzo trabalhos para se ter tempo de observação, eles têm muitos símbolos e camadas. É o que busco.
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FICA TÉCNICA
Artista: Luiz Lavalle Filho
Profissão: Artista plástico e professor
Organizador da exposição: Jul Leardini
Coordenadora: Monica Drummond
Curador: Fabricio Vaz Nunes
Local: Galeria Mezanino da Caixa Cultura
(Endereço: Rua Conselheiro Laurindo, 280, Centro, Curitiba, Paraná)
Exposição: "As Bioformas", do Artista Visual Lavalle
Abertura: dia 01.12 as 19h. Vale a visita.
Abertura: 01 de dezembro de 2022, às 19 às 21:30 horas. Entrada Franca.
Período expositivo: 02 de dezembro de 2022 a 12 de março de 2023
Visitação: Terça a Sábado, das 10h às 20h e Domingos e Feriados das 10h às 19h.
Indicação Etária: Livre
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