A ILHA
Joema Carvalho
Uma ilha, depois das outras, atrás da baía. Chegava-se lá por mar aberto, depois da quebrada das ondas. Uma ilha rodeada por botos em busca dos peixes na rede dos caiçaras que saiam, na madrugada, em canoas de guapuruvu e guanandi.
Mar tranquilo, quando queria. Na ressaca arrasava casas na praia, para saciar seu desejo e força, como um deus feito de sal e espumas. Arrasava o mangue, descaracterizando a vegetação. De volta, trazia os seus propágulos, numa constante construção e desconstrução.
Lugar de encontro das águas salgadas com as doces, vindas do continente. Poucas espécies de árvores. Mangue branco, mangue vermelho e mangue preto, alguns secos outros podres, utilizados por quem ali vivia. O ambiente salobro era como um berçário natural, onde a fauna se reproduzia e se alimentava. O pássaro preto flutuava nas correntes quentes do céu e voava sereno. Voo de uma fragata no caminho certo.
Ali também o marisma, vegetação baixa, que espremia as areias da praia, nas águas agridoces, tecendo limites entre mar e terra.
Esta era fraca, sobrepunha a areia à fertilidade. A vida, contudo, era rica. Tudo acontecia como tinha que ser, dentro de um ciclo contínuo, uma necessidade mútua, entre a diversidade dos seres. Da decomposição de uns, renasciam outros, numa assimetria harmoniosa, contornada pela vegetação densa e ombrófila. Ao redor dos córregos avermelhados, os guanandis e as caxetas, madeira branca que envolvia os sons de uma rabeca, dominavam o ambiente.
Outra ilha, quando os urubus passaram a ser vistos voando longe, acima das timbaúvas. A dormência era quebrada com a presença de uma fogueira no alto do morro, no meio de um descampado perdido no nada.
Os índios, absorvidos pelo capitalismo do turismo e de outros mercados, sobreviveram em torno da ilha, onde se instalaram devido à perda do espaço. Contagiados pela cultura predadora dos brancos, disputavam a floresta com a fauna, deixando ali os vestígios da exploração.
Neste mundo perdido, o desespero das especulações imobiliárias. Em um lugar proibido, mausoléus e conjuntos habitacionais, o domínio de mercado na mão do invasor. O descaso de quem não arriscaria o cargo, nem relações pessoais, assegurando, assim, o próprio bem-estar e tranquilidade.
Os brancos, dentro de uma razão egoísta, ditavam regras, sem troca nem acréscimo de energia. A arte da natureza evaporava, tornando-se uma estrela difícil de ser vista entre as luzes da cidade.
Porém, sua magia é tanta que o feio se esconde - vê-se, ainda, um resto de floresta conservada nos morros mais altos. Forte e resistente ela reage, da embaúba à almesca, da capororoca à maçaranduba, talvez tudo ao mesmo tempo, quem sabe da quaresmeira à bocuva e ao alazão. Os pássaros dizem, num canto lento, que as regras seguem para reconstituir o ambiente, junto dos roedores e marsupiais, tucanos, jacutingas, arapongas ou micro-organismos da terra, da asa dos morcegos e do cocô da anta. Ciclo contínuo, biodiverso e intenso, polinizado pela benção das melíponas.
A noite cai com a chuva. As nuvens tardam a ir embora e o sol aparece no meio da manhã e do céu, escondendo as luzes das algas no mar.
----------------------------------------
Minibiografia - Joema Carvalho
Escritora paranaense, engenheira florestal, doutora e empresária. Colunista do Facetubes e do Observatório de Comunicação Institucional (OCI).
Autora do livro Luas & Hormônios, ed. pela
Secretaria do Estado da Cultura (2010) e pelo Selo Marianas Edições (2020). Coautora do Livro Entre Botânicas Decoloniais: As frutas silvestres de H. D. Throreau e Frutas brasileiras, ed. Appris (2022). Organizadora da coletânea Tuíra (eBook editado pela Amazon em 2020 e edição impressão editada pelo Selo Donizela em 2022). Participou de coletâneas nacionais e internacionais e de vários projetos literários. Membro da Academia Poética Brasileira - APB.
Contato:
Reviravolta BOMBÍSSIMA: Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Orígenes Lessa sem editora brasileira
Convidados FT Textos escolhidos: “Um dia o espelho me chamou de Macabéa”, por Vitória Duarte
Colunistas FT ESPECIAL: “Evoluímos quando enxergamos além dos reflexos”. Por Sharlene Serra
SÃO JOÃO DO MA São João do Maranhão “vara” julho e reafirma o bumba meu boi como eixo da cultura popular brasileira
COLUNISTAS FT APB na posse da Procuradora de Justiça Maria de Fátima Rodrigues Travassos Cordeiro
NÚMEROS do SJ São João movimenta no Nordeste bilhões de reais, fora do eixo tradicional do turismo Mín. 10° Máx. 22°
Mín. 11° Máx. 24°
ChuvaMín. 8° Máx. 17°
Chuvas esparsas
Coluna de RUY PALHANO Psiquiatra Ruy Palhano: “Todos se casam com seus pais em qualquer idade da vida”
Coluna SILVÂNIA TAMER, Literatura, arte e eventos APB na posse da Procuradora de Justiça Maria de Fátima Rodrigues Travassos Cordeiro
O Mundo Digital do Antes e do Depois “Fenomenologia do Espírito”: Hegel, o pensador da consciência em movimento
A LINGUAGEM DA INTERNET Por que os filhos tem odiado tantos os pais? Há uma razão para isso?