Domingo, 05 de Julho de 2026 16:50
(xx) xxxxx-xxxx
Brasil PREMIOS E VENCEDORES

1° EKOPOLIS. Prêmio Tilden Santiago de Ecologia e Política. Categoria Prosa

Participação vitoriosa da confreira (engenheira florestal e poeta) Joema Carvalho

28/12/2022 09h58 Atualizada há 4 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Joema Carvalho
Joema Carvalho, APB/PR
Joema Carvalho, APB/PR

A ILHA

 

Joema Carvalho

Continua após a publicidade

 

Uma ilha, depois das outras, atrás da baía. Chegava-se lá por mar aberto, depois da quebrada das ondas. Uma ilha rodeada por botos em busca dos peixes na rede dos caiçaras que saiam, na madrugada, em canoas de guapuruvu e guanandi. 

Mar tranquilo, quando queria. Na ressaca arrasava casas na praia, para saciar seu desejo e força, como um deus feito de sal e espumas. Arrasava o mangue, descaracterizando a vegetação. De volta, trazia os seus propágulos, numa constante construção e desconstrução. 

Lugar de encontro das águas salgadas com as doces, vindas do continente. Poucas espécies de árvores. Mangue branco, mangue vermelho e mangue preto, alguns secos outros podres, utilizados por quem ali vivia. O ambiente salobro era como um berçário natural, onde a fauna se reproduzia e se alimentava. O pássaro preto flutuava nas correntes quentes do céu e voava sereno. Voo de uma fragata no caminho certo.

Ali também o marisma, vegetação baixa, que espremia as areias da praia, nas águas agridoces, tecendo limites entre mar e terra.

Esta era fraca, sobrepunha a areia à fertilidade. A vida, contudo, era rica. Tudo acontecia como tinha que ser, dentro de um ciclo contínuo, uma necessidade mútua, entre a diversidade dos seres. Da decomposição de uns, renasciam outros, numa assimetria harmoniosa, contornada pela vegetação densa e ombrófila. Ao redor dos córregos avermelhados, os guanandis e as caxetas, madeira branca que envolvia os sons de uma rabeca, dominavam o ambiente.

Continua após a publicidade

Outra ilha, quando os urubus passaram a ser vistos voando longe, acima das timbaúvas. A dormência era quebrada com a presença de uma fogueira no alto do morro, no meio de um descampado perdido no nada. 

Bela classificação nacional.

Os índios, absorvidos pelo capitalismo do turismo e de outros mercados, sobreviveram em torno da ilha, onde se instalaram devido à perda do espaço. Contagiados pela cultura predadora dos brancos, disputavam a floresta com a fauna, deixando ali os vestígios da exploração.

Neste mundo perdido, o desespero das especulações imobiliárias. Em um lugar proibido, mausoléus e conjuntos habitacionais, o domínio de mercado na mão do invasor. O descaso de quem não arriscaria o cargo, nem relações pessoais, assegurando, assim, o próprio bem-estar e tranquilidade.

Os brancos, dentro de uma razão egoísta, ditavam regras, sem troca nem acréscimo de energia. A arte da natureza evaporava, tornando-se uma estrela difícil de ser vista entre as luzes da cidade.

Porém, sua magia é tanta que o feio se esconde - vê-se, ainda, um resto de floresta conservada nos morros mais altos. Forte e resistente ela reage, da embaúba à almesca, da capororoca à maçaranduba, talvez tudo ao mesmo tempo, quem sabe da quaresmeira à bocuva e ao alazão. Os pássaros dizem, num canto lento, que as regras seguem para reconstituir o ambiente, junto dos roedores e marsupiais, tucanos, jacutingas, arapongas ou micro-organismos da terra, da asa dos morcegos e do cocô da anta. Ciclo contínuo, biodiverso e intenso, polinizado pela benção das melíponas.

A noite cai com a chuva. As nuvens tardam a ir embora e o sol aparece no meio da manhã e do céu, escondendo as luzes das algas no mar.

Continua após a publicidade

----------------------------------------

Minibiografia - Joema Carvalho

Escritora paranaense, engenheira florestal, doutora e empresária. Colunista do Facetubes e do Observatório de Comunicação Institucional (OCI).

Autora do livro Luas & Hormônios, ed. pela

Secretaria do Estado da Cultura (2010) e pelo Selo Marianas Edições (2020). Coautora do Livro Entre Botânicas Decoloniais: As frutas silvestres de H. D. Throreau e Frutas brasileiras, ed. Appris (2022). Organizadora da coletânea Tuíra (eBook editado pela Amazon em 2020 e edição impressão editada pelo Selo Donizela em 2022). Participou de coletâneas nacionais e internacionais e de vários projetos literários. Membro da Academia Poética Brasileira - APB.

Contato:

[email protected]

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
JAIME Há 3 anos atrásBSB/DFParabéns aos temas escolhidos para premiação, Presidente pela publicação/divulgação, nobre JOEMA rica fonte.
Fátima Sampaio Há 4 anos atrásBelo Horizonte/MG Parabéns pela classificação, Joema. Muito boa a prosa.
Joema CarvalhoHá 4 anos atrásCURITIBAQue legal!!! Amo Shakespeare também!! Vamos ver se a segunda temporada acontece!!!
Giovanna LhamaHá 4 anos atrásSão Paulo.De acordo, Gracinha. Volta com nosso Shake, bela.
Maria da Graça HazirdesHá 4 anos atrásPelotasQue extraordinário uma pessoa tão importante como tu responderes pra mim. Já começa por aí a diferença entre quem escreve neste sitio e outros por aí. Obrigado de coração. Tenho lido sim os poemas das obras de tua mãe. Mas, confesso, que amo Shake. E amo o que tu consegues criar em cima dele. Vou aguardar. Bjs e muito obrigado pela resposta a esta humilde leitora. UAUUUUU!!!!
Mostrar mais comentários
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 14h01
17°
Tempo nublado

Mín. 10° Máx. 22°

17° Sensação
1.79 km/h Vento
83% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (06/07)

Mín. 11° Máx. 24°

Chuva
Terça (07/07)

Mín. Máx. 17°

Chuvas esparsas
Ele1 - Criar site de notícias