A FRUTA DO ABIO
Poema: Joema Carvalho
Desenho: Maria Cristina Mortean
Quando criança, o seu pai plantou o pé de abio. Ele disse:
- Será que eu vou comer desta fruta?
Partiu antes disto. Alguns anos depois, foi diagnosticado com câncer. Na época, não havia tratamentos adequados. Mesmo viajando com frequência para São Paulo, a bomba de cobalto não resolveu. O seu pai sofreu muito, junto da família que ele amava. Não queria partir.
O pé desta fruta ficou na sombra por algum tempo. As árvores da rua impediam que os raios de sol chegassem nela.
O tempo passa.
A árvore ficava na lateral da casa de esquina, onde a grama não crescia em função da sombra. Passou a florir depois que começaram a colocar os restos vegetais na base dela. As árvores da calçada foram podadas e os raios do sol passaram a chegar até a copa do abio. As frutas tornaram-se abundantes no outono. Ela precisou distribuir para a vizinhança.
O vizinho, pai de família com esposa e dois filhos, adorava plantas. Também ganhou algumas frutas. Adorou. Disse um tempo depois para ela:
- Consegui uma muda daquela árvore. Será que vou comer uma fruta dela?
A filha dela que já estava na faculdade, descobriu que árvore que era aquela. Fruta suculenta, deliciosa, baga de casca amarela clara com polpa branca, típica da região amazônica.
A vizinhança da cidade pequena seguia tranquila. O asfalto mantinha-se sempre vermelho. A terra roxa fértil deixava as suas pegadas na região. Imponente, contava uma história geomorfológica da Terra ocultada pela expansão das cidades. Era uma das melhores do Planeta.
A árvore continuava ali.
Em um sábado, quando cozinhava, viu o filho do chefe de família ao telefone. Estava do outro lado da rua. A sua expressão tinha a sombra da distância da visão humana.
Logo após, a frente da casa estava cheia de carros, um pouco depois, o IML chegou.
Como eram vizinhos queridos, ela deixou o almoço que estava preparando, atravessou a rua e foi ver o que estava acontecendo. Encontrou com a irmã do chefe de família. Perguntou sobre o ocorrido. Ela disse que ele havia atirado na esposa. A que estava fazendo o almoço perguntou: “E dai”? A irmã apenas balançou, negativamente, a cabeça.
Souberam que, após o tiro, o chefe de família dormiu no quarto com os filhos. A ordem foi:
- “Não contém nada para ninguém”.
Duas crianças: uma de um ano e oito meses e a outra de nove, aquela que ela viu ao telefone, antes dos carros chegarem, com a sombra impedindo a visão da sua expressão.
Linda e com traços expressivos. Irradiava a luz do sol daquela família através de suas realizações. Adorava cultivar as flores do jardim. Tinha uma coleção de rosas e orquídeas nas árvores do quintal. O clima permitia flores durante o ano todo. Auxiliou o marido a carregar tijolos e a preparar a massa para a construção da casa deles. Através do esforço dos dois, o casal tinha acabado de trocar de carro. Era dia de Nossa Senhora, protetora e Padroeira do Brasil. Ofuscava a insegurança de quem não conseguiu se resolver com a própria sombra. O mantra que se repetia diariamente era: “Você não é companheira”. A esposa morta era uma “puta”.
A lua se pôs no dia seguinte. Depois que acordou, ele saiu do quarto das crianças e foi comprar pão para o café. Não voltou. Neste momento, aquele que tinha nove anos pegou o telefone e ligou para a tia que a vizinha havia conversado quando viu o tumulto dos carros na frente da casa. Ele não ficou quieto. Nunca quis comer o abio. A fruta tinha o sabor da mão de quem tinha atirado na sua mãe.
O pai de família também não comeu, assim como o pai dela.
A sua admirável capacidade de pensar somente em si, alterou a vida de vários. Tanta coragem e soberba para terminar com um tiro no cérebro.
O pai dela teve câncer, no mesmo lugar.
A fruta do abio previne tumores. Deviam a ter plantado antes.
A casa foi vendida. Hoje é comercial.
O que fica na sombra infloresce.
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