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"A FRUTA DO ABIO", da poeta e escritora Joema Carvalho

Joema Carvalho é membro da Academia Poética Brasileira.

29/01/2023 10h01 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Joema Carvalho
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A FRUTA DO ABIO

 

Poema: Joema Carvalho

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Desenho: Maria Cristina Mortean

 Quando criança, o seu pai plantou o pé de abio. Ele disse:

- Será que eu vou comer desta fruta?

Partiu antes disto. Alguns anos depois, foi diagnosticado com câncer. Na época, não havia tratamentos adequados. Mesmo viajando com frequência para São Paulo, a bomba de cobalto não resolveu. O seu pai sofreu muito, junto da família que ele amava. Não queria partir.

O pé desta fruta ficou na sombra por algum tempo. As árvores da rua impediam que os raios de sol chegassem nela.

O tempo passa. 

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A árvore ficava na lateral da casa de esquina, onde a grama não crescia em função da sombra. Passou a florir depois que começaram a colocar os restos vegetais na base dela. As árvores da calçada foram podadas e os raios do sol passaram a chegar até a copa do abio. As frutas tornaram-se abundantes no outono. Ela precisou distribuir para a vizinhança.

O vizinho, pai de família com esposa e dois filhos, adorava plantas. Também ganhou algumas frutas. Adorou. Disse um tempo depois para ela:

- Consegui uma muda daquela árvore. Será que vou comer uma fruta dela?

A filha dela que já estava na faculdade, descobriu que árvore que era aquela. Fruta suculenta, deliciosa, baga de casca amarela clara com polpa branca, típica da região amazônica.

A vizinhança da cidade pequena seguia tranquila. O asfalto mantinha-se sempre vermelho. A terra roxa fértil deixava as suas pegadas na região. Imponente, contava uma história geomorfológica da Terra ocultada pela expansão das cidades. Era uma das melhores do Planeta.

A árvore continuava ali.

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Joema Carvalho é membro da Academia Poética Brasileira.

Em um sábado, quando cozinhava, viu o filho do chefe de família ao telefone. Estava do outro lado da rua. A sua expressão tinha a sombra da distância da visão humana. 

Logo após, a frente da casa estava cheia de carros, um pouco depois, o IML chegou.

Como eram vizinhos queridos, ela deixou o almoço que estava preparando, atravessou a rua e foi ver o que estava acontecendo. Encontrou com a irmã do chefe de família. Perguntou sobre o ocorrido. Ela disse que ele havia atirado na esposa. A que estava fazendo o almoço perguntou: “E dai”? A irmã apenas balançou, negativamente, a cabeça.

Souberam que, após o tiro, o chefe de família dormiu no quarto com os filhos. A ordem foi: 

- “Não contém nada para ninguém”.

Duas crianças: uma de um ano e oito meses e a outra de nove, aquela que ela viu ao telefone, antes dos carros chegarem, com a sombra impedindo a visão da sua expressão.

Linda e com traços expressivos. Irradiava a luz do sol daquela família através de suas realizações. Adorava cultivar as flores do jardim. Tinha uma coleção de rosas e orquídeas nas árvores do quintal. O clima permitia flores durante o ano todo. Auxiliou o marido a carregar tijolos e a preparar a massa para a construção da casa deles. Através do esforço dos dois, o casal tinha acabado de trocar de carro. Era dia de Nossa Senhora, protetora e Padroeira do Brasil. Ofuscava a insegurança de quem não conseguiu se resolver com a própria sombra. O mantra que se repetia diariamente era: “Você não é companheira”. A esposa morta era uma “puta”.

A lua se pôs no dia seguinte. Depois que acordou, ele saiu do quarto das crianças e foi comprar pão para o café.  Não voltou. Neste momento, aquele que tinha nove anos pegou o telefone e ligou para a tia que a vizinha havia conversado quando viu o tumulto dos carros na frente da casa. Ele não ficou quieto. Nunca quis comer o abio. A fruta tinha o sabor da mão de quem tinha atirado na sua mãe.

O pai de família também não comeu, assim como o pai dela.

A sua admirável capacidade de pensar somente em si, alterou a vida de vários. Tanta coragem e soberba para terminar com um tiro no cérebro. 

O pai dela teve câncer, no mesmo lugar.

A fruta do abio previne tumores. Deviam a ter plantado antes.

A casa foi vendida. Hoje é comercial.

O que fica na sombra infloresce. 

Obra de Maria Cristina Mortean 

 

 

 

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Livro da autora

https://www.amazon.com.br/Luas-Horm%C3%B4nios-Joema-Carvalho-ebook/dp/B08P1Z987P

 

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JAIME Há 3 anos atrásBSB/DFO PRESIDENTE APB/FACETUBES AO PUBLICAR JOEMA, EMBELEZA O MUNDO DA POESIA!!! FORA DE SÉRIE, PELO EXCELENTE ARTIGO e CONTEÚDO!!!
Joema CarvalhoHá 3 anos atrásCURITIBAOlá Maria das Graças e Artheniza Fico muito feliz em saber que vocês apreciam os meus textos. Sejam muito bem vindas! Abraços
Maria das GraçasHá 3 anos atrásSão Luís Essa obra é linda. O Poema também. Te leio sempre aqui.
ArthenizaHá 3 anos atrásCuritibaVc é incrível. Amo de montão sua forma de eacrever Joelma.
Joema CarvalhoHá 3 anos atrásCURITIBAOlá Lunizette O Magela faz falta sim. As duas histórias que se cruzam através do abio são reais, com um toque de literatura. Que bom que gostou!! Abraço!
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