Apresentação: Mhario Lincoln
A poesia diferenciada de Joema Carvalho se manifesta através de uma disposição cuidadosa das palavras no espaço da página, buscando criar efeitos visuais e transmitir significados por meio da forma poética. Os versos apresentam imagens evocativas e simbólicas, explorando temas como a complementaridade entre elementos naturais, a complexidade da comunicação, o acaso e a conexão com a natureza.
Aí está uma razão explícita para comprovar as diferentes maneiras de se construir um símbolo lírico, com forma, estrutura e figuras de linguagem, como metáforas, aliterações, assonâncias, entre outras. Joema usa muito esses recursos estilísticos - no conjunto de sua obra - para ajudá-la a criar imagens vívidas, emoções e transmitir significados simbólicos. Isso a faz uma poeta expressiva e densa.
Vale ressaltar ainda o lado de suas descrições sensoriais detalhadas para criar uma representação visual ou vivencial de um objeto, pessoa ou cena. Com isso, ela repassa ao leitor mais ativo, significados profundos permitindo uma interpretação ampla, apesar, de algumas vezes, subjetiva.
Nestes versos em particular, no primeiro, sente-se a repetição da palavra "só", seguida de uma quebra de linha para "sol" e outra quebra de linha para "lua", sugerindo uma associação entre a solidão e os elementos naturais, criando uma imagem poética e evocativa. A disposição dos versos no espaço também reforça essa ideia de separação e complementaridade entre o sol e a lua.
No segundo verso, a poeta faz uso de termos como "signo", "algoritmos" e "hieróglifos" para fazer com que o leitor respire uma certa liberdade (foge aos complexos clássicos), na disposição dos versos em diferentes linhas. A mim me parece que há um cheiro de concretismo ao levar o leitor a visualizar múltiplas possibilidades e acessos ao significado.
O terceiro verso explora a ideia de encontro fortuito e a entrega ao acaso. A expressão "deu nó em linhas retas" sugere uma quebra de padrões e a introdução da incerteza. A imagem do "pingo d'água" pode ser interpretada como uma metáfora do acidente, da imperfeição e da fluidez.
Já no quarto verso, Joema faz uso de metáforas relacionadas à natureza, buscando sensações através do sentido do tato. A conjugação dos "três tempos" e a referência à clorofila indicam uma percepção mais profunda e conexões com o mundo natural. (Ela é engenheira florestal também). A descrição das nervuras das folhas como "flexíveis" e o uso da palavra "dinâmica" sugerem movimento e vida.
Em tempo: apenas a pretexto de curiosidade, fui pesquisar sobre esse estilo da poesia sensorial, magnificamente incluída nestas produções de Joema Carvalho. Muitos poetas exploram a complexidade da experiência humana por meio de uma linguagem sensorial, utilizando imagens, cores, texturas e cheiros para transmitir sensações e emoções. Algumas poetas se destacaram nesse tema. Por exemplo, no Brasil, Adélia Prado, que combina o mundo sensorial em seus versos com elementos de cores, cheiros e sabores para transmitir emoções e experiências humanas.
Nos Estados Unidos destaca-se Emily Dickinson. Ela usa, com frequência, elementos da natureza e sensações físicas para explorar temas como amor, morte e transcendência em seus poemas.
No poema de Dickinson, (Há um certo Slant da luz do inverno (Poema 258), ela menciona o canto de um pardal e utiliza elementos visuais, como o "ébano pálido" e as "vidraças do Sul"; "É esse o Éter de que aprendemos/ Através do Nosso Janelão/ Ele aponta no ébano pálido/ Através das Vidraças do Sul/ Ao dia nascente, ou a cada crepúsculo/ A própria vida corre". Como vemos, Emily Dickinson ao combinar esses elementos sensoriais, acaba criando uma imagem vívida e uma sensação de presença, que transporta para o ambiente lírico. São conjecturas e análises individuais, onde cada poeta traduz seus sentimentos a sua maneira. E isso é saudável, ao meu ver.
O importante, destarte, é a interpretação de cada um. Por isso, vale muito ler esses versos, abaixo, de Joema Carvalho, convidada da SEGUNDA POÉTICA, da Academia Poética Brasileira:
01
só
sol
e lua
diferenças completam-se
em partes
no si encontro-me
sou
céu
enclave sol
02
signo sombra
traduz-me nos algoritmos
transcrevo hieróglifos
em sonhos
nunca mapeada
diversos acessos
03
no encontro do acaso
entrega
de quem se banhou
rotas diversas
deu nó em linhas retas
junto da incerteza
pingo d´água
erro
parceiro
tempero que faltava
04
no translúcido das folhas
busco o cheiro
através do tato
verde
toco e sinto
os três tempos
conjugo o que interessa
na lâmina lisa
percorro as nervuras
flexíveis
refletem clorofila
na dinâmica
do que vejo
Evoé, poeta!
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