Joema Carvalho*
Era noite de lua nova. O lado oculto da lua era mais expressivo do que o que era refletido pela luz do sol.
Andava sozinha. Era tarde da noite. O tempo seguia em paralelo a sombra dela, gerada pela luz que vinha daquele satélite natural.
Havia pouco vento. O suficiente para fazer virar a carta da lua que fugia sobre as lascas das pedras. Um gato escuro miou, pulou na frente dela e seguiu. O coração disparou.
Estava em uma cidade histórica. O calçamento da rua era irregular. Placas de pedras emergiam na irregularidade do terreno. Pontiagudas, faziam-na andar com cautela e lentamente. Estava de salto baixo.
Viu um vulto entrando por uma daquelas ruas estreitas. A luz era do século retrasado. Suave, iluminava com ternura e acolhimento.
Seguia atenta àquele vulto.
Estava ali para um evento profissional. A agenda dela havia mudado às 5:00 horas da manhã daquele dia. O roteiro era outro.
Estava exausta. Encerrou um trabalho de 15 dias em sete para poder viajar.
Voltar sozinha para o hotel naquele cenário, no extremo de sua energia, a fez chorar.
Mais de dez anos reconstruindo a vida após ter saltado do precipício.
O foco era claro. Exceto na luz da lua nova. A sombra tomava conta.
O vulto novamente.
O estresse misturado com as demandas que havia assumido a fez rever fatos de sua história que acreditou estarem acomodados.
Na adolescência depois de um incidente, optou por fugir. Até ser pega pela mesma rede. “Todos os caminhos levam a Meca”. Até que chegou nesta rua.
Já estava mais acostumada com o vulto. Agora sabia que ele tinha cabelos escuros e cacheados.
Tudo já era passado.
O hotel não chegava. O celular estava sem conexão e com a bateria no limite. Igual a ela.
Aquele sorriso de gato do País das Maravilhas, no céu, estava ainda menor. A noite estava cada vez mais escura. Ela se entregou ao chão. Sentou-se naquelas lascas de pedra. Parou ali. Permitiu que a sombra a alcançasse e que o silêncio a dominasse.
Desistiu de ser forte. Despediu-se de si naquele momento.
Não podia voltar para trás.
As confusões de criança, os conceitos de liberdade, o ônus e o bônus das opções. A onda vinha e tinha que tomar uma decisão. Só iria saber depois se a opção tomada tinha feito sentido ou se fora uma âncora no seu pescoço.
Optou por mudar. A diferença entre mudar e fugir era tênue. Talvez caminhassem juntas.
As princesas fogem para a floresta para processarem as mudas. Robin Wood fez o mesmo. Um banho de floresta para transmutar nossos genes deletérios. O socorro que pedimos quando não somos suficientes para resolver as demandas.
Algo trouxe um pouco mais de luz no meio daquele manto escuro superior com um risco discreto convexo que parecia sumir. Uma estrela maior do que as demais tornou-se protagonista ali. Vênus aflorou em meio as ondas do movimento das nuvens.
Das profundezas do oceano de sua sensibilidade, emergiu no céu o vulto que a acompanhava. Era quem sempre a guiava por ter saído da rota programada.
Nos limites de suas pegadas, optou por exibir aquilo que a fazia diferente e única.
Não se nivelou por baixo. Mergulhou nas águas profundas dela mesma. Nos contrastes do seu processo, fluiu.
A construção de um caminho sem roteiro, nunca foi simples ou teve fim.
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