O “Chá de vó” de Joema Carvalho é texto que eu particularmente gostei muito. É como se o leitor estivesse ligando a vida prática, a natureza, a concepção popular e a espiritualidade a um mesmo momento reflexivo.
A residência da avó, que abrigava plantas medicinais e procedimentos culinários religiosos à família, se tornou um microcosmo, um componente em que o macrocosmo é expresso. Joema descreve os detalhes sensoriais com uma impressão significativa: há cheiro de açúcar cozido queimado e sabor de folha de hortelã, a textura do musgo na alvenaria. Esses detalhes, combinados com reflexões filosóficas em a vida e a morte, me preencheram com um sentimento de introspecção e nostalgia.
Joema dá a esse texto um toque sensível e junto com alguns pensamentos filosóficos sobre a vida e a morte, cria a sensação de nostalgia e introspecção. A avó é retratada como um símbolo, uma ponte entre o mundo físico e espiritual, o passado e o presente. Sua doença e morte são abordadas com uma certa aceitação, vista como parte do ciclo normal da vida.
Para mim, “Chá de Vó” é um tributo à vida em toda sua complexidade e contradição, uma homenagem ao poder de longa duração de memórias e tradições familiares.
Leia o texto:
CHÁ DE VÓ
Joema Carvalho
Chegava naquela casa de madeira, todo o final de semana. Na frente tinha uma magnólia-amarela e nos fundos, urucum, pé de figo, mangueira, limoeiro, árvores, arbustos e herbáceas da casa da vó.
Sobre o fogão, cascas de laranjas secas. Ela dizia que tinha que ter em casa. Era bom para um monte de coisa. O sabugueiro também era, assim como as outras.
Queimava o açúcar, colocava cravo, canela e as cascas secas da laranja, deixava cozinhar até homogeneizar com o açúcar queimado. Jogava água quente, esperava o açúcar derreter. O cheiro continua até hoje. Na geladeira, arroz-doce temperado com canela, cravo e folha de figo. Temperava a calda de ameixa do manjar de coco com estas folhas também, hoje seria gourmet.
Dividíamos o pudim de leite entre todos, o resto da tigela ficava para o vô. Isto custou-lhe três dedos do pé. Menosprezou a diabetes.
Nas laterais da casa e nos fundos, herbáceas baixas e de porte médio, todas serviam para cura. As vias de acesso de tijolo cheio de musgo separavam os canteiros inexistentes da casa de madeira. As plantas cresciam do jeito que queriam.
Ela carregava e doava mudas medicinais. Sabia para que serviam. Dizia que tinha que ter em casa.
Foi uma referência para mim. Descobri depois. Acredito que os princípios ativos das plantas tenham alguma relação com a distribuição dos grupos ecológicos. Plantas de sombra que ocupam o piso da floresta, plantas de luz que buscam o dossel. As intermediárias que preferem não estar plenamente na sombra e tão pouco sobre a intensidade dos raios de uma estrela de quinta grandeza. As de água, de pedra, de areia têm uma dinâmica peculiar, o metabolismo delas é fantástico. O metabolismo ativo no organismo de um ser vivo é alquimia. A maioria dos problemas se resolvem ativando o metabolismo e reduzindo o pH. Imagine a energia de uma planta que se estabelece na adversidade!
Quem é ligado em planta sabe o lugar delas. No quintal e dentro de casa, se reproduz no micro, o macro. Uma forma de controle passional.
As plantas têm um jeito também. De longe dá para ver quem é, assim como uma pessoa que conhecemos.
Quem tem planta sabe disso.
Foram-se os anos. A vó teve parkinson avançado, parte do seu organismo deixou de processar sua função. Teve um problema de varizes que a acompanhou desde muito tempo. A ferida da perna concentrou uma escolha, onde abdicou da menina brava que sumia por entre as árvores e tomava banho de rio. Tudo tem um preço. Deus é banqueiro, cobra juros e multas se não fizermos o que tem que ser feito. Ser o que somos. Talvez ela fosse só espírito e não precisasse do corpo.
Ela incorporava espíritos. Eu nunca vi. Diziam que dava para perceber quando não era ela.
Morreu sentada no sofá. No final, era pele e osso. Semblante de paz, como um chá de camomila ou do hortelã do caminho da entrada da casa dela que eu comia a folhinha quando criança.
Ela aguardou a vinda de todos os filhos e netos. Os de São Paulo, Curitiba e Santa Catarina. Não deu tempo de mudar o tratamento. Optou por seguir.
(O texto foi inspirado pelo trecho do livro Afrodite da Isabel Allende, onde ela diz que o doce que ela mais gosta é o arroz doce e que o sabor tem algo sentimental e que a confortou diante da doença da filha. Quando li, sento o sabor do doce que minha avó fazia).
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