Mhario Lincoln*
Toda vez que leio Joema Carvalho vem aquela sensação tão forte por causa da sua liberdade poética, com explícitos conceitos da Biolírica (termo que criei para expressar a produção poética dela).
Nesta composição, Joema Carvalho propõe uma viagem sensorial entre paisagens imaginárias, reforçadas pelas referências à natureza — água, terra, fogo, aromas e flores — que sustentam o fio condutor da “Rota da Seda”.
Por isso a força da “BioLírica” de Joema. Ela sempre produz imagens orgânicas, como se o texto brotasse das substâncias naturais — o “sangue” que irriga a memória, as “raízes suspensas” fincadas na ancestralidade cultural.
Essa inserção da natureza não é meramente descritiva; ela se entrelaça à liberdade poética, apresentando símbolos de transformação (a “pirâmide”, a “caravana”, a “naja” em movimento) que ampliou a minha ideia sobre vários modos de existir e sentir.
Por isso, é muito bom ler Joema (da APB/PR), porque ela realinha a sensibilidade poética com a observação das forças da natureza, dando-lhes voz e movimento na poesia. Sua escrita se abre à liberdade formal de um verso que flui como o vento, ao passo que reaviva em minha memória, a presença essencial e transformadora do ambiente que nos cerca — o que é justamente o cerne de uma poética que se quer viva, atual e em permanente germinação.
Abaixo, a obra.
ROTA DA SEDA
um jardim caminhou
no reflexo das águas
no cheiro das pétalas
uma sedução catalã
refletiu o som
da castanhola
o sabor árabe
brindou o cálice
das rosas
nos quadrantes dum espaço
os elementos
compunham a magia
duma pirâmide
através do vento
percorria a caravana
no fogo simétrico
persistia o desejo
duma nação
n´água se fazia
a dança do ventre
nos movimentos da naja
na terra nasciam
as gerações
no ritmo da citara
o jardim crescia
na rota imaginada
o aroma das ervas
transcreveu uma história
irrigou o sangue
da memoria
impregnou nos genes
de quem ainda a sente
as raízes suspensas
e as notas elevadas
dum perfume
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