Colunista Esmeralda Costa, membro da Academia Poética Brasileira, seccional Ceará.
Durante décadas, a figura do poeta folheteiro foi símbolo vivo da cultura nordestina. Com a sacola a tiracolo, repleta de folhetos coloridos, e a voz firme como o solo seco do sertão, eles iam de cidade em cidade, declamando seus versos nas feiras livres, nos mercados e praças públicas. Mais do que simples vendedores, esses homens e mulheres eram mensageiros da poesia popular, cronistas do cotidiano, guardiões de causos, mitos e tradições.
Com uma habilidade rara, improvisavam estrofes, encantavam ouvintes e, entre um verso e outro, conquistavam a atenção dos feirantes e passantes. Seus cordéis falavam de amor, política, religião, bravura, humor, histórias de assombração e de heróis do povo. Era ali, no meio do burburinho das feiras, que a literatura de cordel pulsava viva, oral e acessível a todos.
No passado, eram muitos os que seguiam esse ofício. Nomes como Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Patativa do Assaré e tantos outros começaram assim: levando sua arte nas mãos e no peito. As feiras livres eram suas editoras, livrarias e palcos. Era ali que testavam a aceitação do público, ouviam críticas e ganhavam o pão com a força do verso.
Hoje, no entanto, são poucos os que ainda mantêm esse costume. Com o avanço das tecnologias, a urbanização acelerada e as novas formas de consumo cultural, a presença do folheteiro nas feiras se tornou cada vez mais rara. Muitos cordelistas migraram para o ambiente digital, outros se voltaram à publicação formal, perdendo-se o contato direto com o povo das ruas.
Mas os que ainda resistem e são poucos, fazem isso por amor, tradição e resistência. São testemunhas vivas de um tempo em que a palavra rimada era notícia, ensinamento e entretenimento. São memória ambulante da cultura popular, e onde chegam, levam um pedaço do Nordeste, da oralidade e da alma do Brasil.
Dentre os folheteiros, vamos destacar nesta edição da Coluna Cordel Brasileiro, três grandes nomes: Antônio Rufino, conhecido como Tonho do Livro, o poeta Jurivaldo Alves da Silva e o poeta José Edimar Mendes Barbosa.
Biografia de Jurivaldo Alves da Silva
Jurivaldo Alves da Silva nasceu em 1946, na cidade de Baixa Grande, estado da Bahia. É casado e pai de seis filhos. Foi ainda em sua terra natal que teve os primeiros contatos com a literatura de cordel, por meio dos títulos adquiridos na feira livre local. Como não sabia ler na época, solicitava que outras pessoas fizessem a leitura em voz alta, o que lhe permitiu memorizar os versos e recitá-los nos serões realizados nas fazendas da região.
Posteriormente, mudou-se para Feira de Santana. No início da década de 1960, conheceu o cordelista Antônio Alves da Silva e, a partir daí, fortaleceu seu vínculo com a poesia popular. Por meio dos folhetos A carta de Satanás para Roberto Carlos e A morte do motorista e a vingança do cigano, ambos de autoria de Rodolfo Coelho Cavalcante, iniciou de fato sua trajetória como folheteiro. Para exercer essa atividade, organizava uma “guia”, com a qual comercializava cordéis — especialmente os de Rodolfo — nas feiras livres da região.
Jurivaldo é o idealizador da Praça do Cordel, espaço cultural integrante da Feira do Livro – Festival Literário e Cultural de Feira de Santana (FLIFS). Sua atuação como folheteiro o motivou também a se dedicar à escrita, consolidando-se como poeta popular. Mantém ainda uma importante parceria literária com sua filha, Patrícia Oliveira da Silva, com quem compartilha projetos e produções.
Entre suas principais obras publicadas destacam-se Biografia do Cordel, Cangaceiro: Jesuíno, o Brilhante e Histórias de Motoristas, além de outros títulos que enriquecem o repertório da literatura de cordel.
Para conhecer melhor o poeta Jurivaldo Alves da Silva, o leitor pode acessar os seguintes links:
https://youtu.be/Bi8NqnHRzjA?si=dESU1V9Sz-uOWr_v
https://youtu.be/B8xjLmZRetA?si=nTLp-6tFRwU9BNvN
Biografia de José Edimar Mendes
José Edimar Mendes Barbosa nasceu em Piripiri, no estado do Piauí. Foi alfabetizado por sua mãe ainda na infância, com o intuito de ler folhetos de cordel para os vizinhos. Aos cinco anos de idade já tinha contato frequente com essa literatura, uma vez que seus pais compravam muitos folhetos. No ano seguinte, aos seis anos, teve a oportunidade de ouvir, pela primeira vez, os folheteiros de cordel cantando na feira da cidade de Altos (PI).
Em 1966 iniciou os estudos formais, e, aos finais de semana, frequentava assiduamente a feira local para ouvir os vendedores de folhetos apresentarem e comercializarem seus romances, como eram chamados, à época, os atuais folhetos de cordel.
Em março de 1973, incentivado por colegas que já reconheciam sua vocação poética, escreveu o seu primeiro folheto, baseado em fatos reais, intitulado Terra de Fuxiqueiros. Três anos depois, em 1976, mudou-se para Teresina, onde conciliou trabalho e estudos, sem, no entanto, se afastar da Literatura de Cordel, do Repente e da Cantoria de Viola.
Seu primeiro emprego foi como comerciário, função que exerceu de 1978 a 1989. Posteriormente, em 1990, passou a trabalhar no setor de transporte público, atividade que desempenhou até 2007. Paralelamente, continuava participando de eventos ligados à cantoria, acompanhando repentistas em Teresina, escrevendo folhetos de cordel e se apresentando como cantador.
Sua atuação no meio artístico levou-o a integrar a Associação de Violeiros e Poetas Populares do Piauí (AVIPOP), onde exerceu o cargo de secretário. Em 2011, juntamente com outros poetas, fundou a Associação dos Poetas Populares de Timon e Região dos Cocais (ASPOPT), da qual foi presidente por dois mandatos. Também idealizou a Cordelaria Estrada das Flores, em Timon, e participou da fundação da Cordelaria Chapada do Corisco (COCHACOR), em Teresina, instituição na qual exerce atualmente a função de secretário.
Ao longo de sua trajetória, José Edimar publicou quatro livros e dezenas de folhetos em cordel, consolidando-se como importante representante da cultura popular nordestina.
Biografia de Antônio Rufino (Tonho do Livro)
Tonho do Livro é um grande representante e divulgador da literatura de cordel e dos poetas cordelistas, folheteiro há 50 anos vendendo livros e cordéis de vários poetas cordelistas brasileiros. Tonho, não é cordelista, mas foi criado pelo grande poeta Minelvino Francisco Silva, cordelista baiano. Vendo seu pai adotivo vender os cordéis na feira, ele tomou gosto por essa arte que é o cordel e desde menino tornou-se declamador e vendedor de folhetos. Seu principal objetivo é preservar e divulgar a cultura do cordel no Brasil.
Para conhecer mais sobre Tonho do Livro você pode acessar os links:
https://youtu.be/tkbwhjrgozE?si=zIJ9tT0xyZ8YMW74
ENTREVISTA COM O POETA DECLAMADOR E FOLHETEIRO (TONHO DO LIVRO - BAHIA)
1. Para começar, Tonho, como nasceu em você o gosto pela literatura de cordel? Lembra do seu primeiro contato com um folheto
Lembro sim, o primeiro livro que fui vender foi em 1966, meu pai de criação estava trabalhando na feira livre e inclusive tinha um livro que era muito vendável, ele era muito interessante e nós vendemos muito, ele é intitulado: A Mulher de Sete Metros Que Apareceu em Itabuna, criatividade do poeta e do seu imaginário. Eu vendia esse livro dia e noite, porque eu não dormia, assombrado com essa mulher de sete metros.
2. De onde vem esse apelido curioso, “Tonho do Livro”? Tem uma história por trás?
Esse apelido, Tonho do Livro, foi colocado por um amigo meu, que é radialista em Bom Jesus, na Rádio Bom Jesus da Lapa e a partir daí, quase ninguém me conhece por Antônio Rufino Do Nascimento, só me conhece por Tonho do Livro.
3. Como é a sua rotina de trabalho como folheteiro? Quais cidades você costuma visitar e como organiza suas viagens?
Me preparo para as minhas viagens e participo de todas as feiras que estão no meu roteiro, geralmente são cidades próximas umas das outras.
4. A feira livre é seu principal palco. Como o público reage quando você chega declamando seus versos? Já viveu alguma situação marcante durante essas andanças?
Já sim, muitas situações marcantes acontecem e uma delas é quando alguém procura um livro que narra a história que o pai dele contava, e a pessoa chega pra mim e pergunta se eu tenho o livreto que conta a história de um pavão. Então eu começo a ler o Romance do Pavão Misterioso e a pessoa diz que é esse mesmo.
5. Você divulga nas feiras e vende apenas seus cordéis ou também revende obras de outros autores? E como você escolhe os temas que vai apresentar?
O sol brilha para todos, então quando eu vou às feiras, eu levo também livros de vários amigos que também precisam ganhar o pão. Assim como eles vendem os meus, eu também vendo os deles, um ajudando o outro. Existe muita amizade e cordialidade entre os meus amigos poetas, não há rivalidades, a gente sempre anda juntos nessa empreitada de colaborar uns com os outros.
6. Hoje em dia é raro encontrar poetas que ainda percorrem feiras vendendo folhetos. Por que você acredita que essa tradição está desaparecendo?
Na verdade, antigamente havia muitos poetas folheteiros, mas hoje as pessoas perderam o hábito de ir às feiras para vender, com a Internet e as facilidades das negociações a distância, perdeu-se o tão bonito hábito de levar o cordel à feira livre, hoje são raros os poetas que fazem isso.
7. Como você vê o papel do folheteiro na preservação da cultura popular nordestina? Acredita que seu trabalho tem impacto além da venda dos cordéis?
Tem sim, pois além de vender eu explico o que é o cordel, muitas vezes, chegam crianças perguntando: o que são essas revistinhas e eu explico que são livretos de cordel e que trazem uma grande riqueza cultural para a vida das pessoas, pois trazem muitas histórias, lições e conhecimentos. Então o impacto maior é a divulgação do Cordel, da sua importância e essência na cultura da nossa gente.
8. Em tempos de redes sociais e livros digitais, como você enxerga o futuro do cordel impresso? O papel ainda tem força no coração do povo?
Tem sim, o importante é que as pessoas nunca percam o prazer de ver, tocar, folhear o cordel, pois além de prazeroso é uma grande riqueza, um livreto frágil, carregado de simplicidade e de muito conhecimento.
9. Que tipo de apoio você gostaria de receber — seja de governos, escolas ou instituições culturais — para continuar esse trabalho?
O cordel é cultura, brasileira e com certeza precisaria que os governantes investissem nessa arte cultural, promovendo apoio para os cordelistas e incentivando novos talentos por meio de ofertas de minicursos, palestras e oficinas, ou até mesmo incluindo a literatura de cordel como disciplina na arquitetura escolar e estabelecendo que os professores sejam pessoas que tem realmente conhecimento do que é o cordel.
10. Para fechar: que mensagem você deixa para os jovens que têm talento para escrever, mas ainda não se arriscaram no mundo da poesia popular?
Precisa ter força de vontade , criatividade e claro, o apoio que já citei anteriormente para poder dar continuidade a essa missão, tudo isso somado com talento e com muita maestria.
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Em tempo: Valorizar os poetas folheteiros é preservar uma tradição rica, criativa e essencial para a identidade cultural brasileira. Que nunca se apague a voz desses andarilhos da poesia, que transformam a rua em palco e a vida em verso.
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