
*Mhario Lincoln
Tive ontem uma grata surpresa ao ir atender à campainha de meu apartamento, logo pela manhã. Eis que, à porta, nada menos que o poeta espanhol, nascido na maravilhosa Almendralejo (Bajadoz), que acumula também a função profissional de Engenharia Técnica em Indústrias Agrárias, o fantástico Juan Bote Valero (Entrelíneas Editores), fato que imediatamente me lembrou nossa confreira poeta, escritora e engenheira florestal Joema Carvalho. (APB/PR).
Essa visita me deixou bastante emocionado e me chegou através do meu distinto amigo Genoíno Savaris, a quem tenho uma imensa admiração. Claro que trocamos obras e dele, tive a honra de ganhar – “Coliardos-Mix”. Embrenhei-me nessa leitura logo após o fim da visita. Excelentes poesias com lírica que evoca um pulsar poderoso. Apaixonei-me imediatamente por “Anônimo” ao ler: "faz meu corpo sentir tudo aquilo que minha boca se envergonha de pronunciar".
Nesse verso, intestino, pessoalíssimo, o poeta é tomado por uma tensão íntima entre o não-dito e o visível, como se os sentidos aparecessem de dentro de si, insurgindo contra o silêncio social que pretende contê-los. Veja que toque sutil: a repetição de "só tú; el que humilla mi persona e engrandece mis sentidos", leva o poema no rumo dessa figura que despoja ‘o eu’ de sua modéstia, ao mesmo tempo que o eleva, tornando-a única, passível de atravessar muralhas e adentrar vergonhas. (Corajosamente fantástico). Vide:
"Anónimo Haces que mi cuerpo sienta todo aquello que mi boca se avergüenza pronunciar. Haces que mi cuerpo tiemble, que crepite y se estremezca. Sólo tú; el que humilla mi persona y engrandece mis sentidos, tú y sólo tú, a quien permito que atraviese la muralla y a quien consiento que se adentre en mi vergüenza, Tú y nadie más, el único que rebaja mi esperanza y enloquece mi deseo. Por tu belleza vivo y en el placer renazco".
Anônimo
Fazes com que meu corpo sinta
tudo aquilo que minha boca
se envergonha de pronunciar.
Fazes com que meu corpo estremeça,
que crepite e se agite.
Só tu; aquele que humilha minha pessoa
e engrandece meus sentidos, tu e só tu,
a quem permito atravessar a muralha
e a quem consinto adentrar minha vergonha.
Tu e ninguém mais, o único que abate minha esperança
e enlouquece meu desejo.
Por tua beleza vivo e no prazer renasço.
(Numa noite qualquer na praça de Las Ventas).
O jogo entre humilhação e exaltação, mais o desejo que enlouquece — tudo converge num instante de renascimento, resquícios fortes de uma noite qualquer na praça de “Las Ventas”. Há erotismo, mas também rendição e ressurreição, no embate entre corpo e linguagem, vergonha e beleza.
Claro que o livro – em seu total - mostra também uma lírica forte, que foge do institucionalismo, que se mistura à sátira e crítica os poderosos, esses mesmos senhores feudais, o Clero, até mesmo o Papa, além de temáticas báquicas (Baco), em composições por vezes, dissolutas.
Ouso dizer – e mesmo assim - que há uma poesia ardente, íntima e sensual, subversiva e até histórica. Uma mostra, possivelmente, da ironia contemporânea, onde o oculto pelo riso, pela provocação, pela crítica seja real, sem, contudo, abandonar a potência emocional do corpo e do desejo.
Aliás, sempre que resenho grandes autores, procuro fazer um diálogo entre contemporâneos. Desta forma, fui buscar outros grandes poetas espanhóis que dialoguem com essas estéticas de Juan Bote Valero e usem, igualmente a crítica social, a ironia combativa, mas com ampla consciência poética: e desses, há muito vigor comparativo com Jorge Riechmann, poeta e ensaísta madrileno, apontado como representante da chamada "poesia de la consciencia" ou “nova poesia social”.
Outro que encontrei em minhas pesquisas, foi Enrique Falcón, valenciano, que desenvolve uma escrita de conflito. Mas de forma experimental, fragmentária e desorganizadora. Também muito perto do que escreve originariamente Valero, está Antonio Orihuela, de Moguer, que converte o poema em ferramenta de denúncia, empregando linguagem direta e clara, alicerçada numa poética do realismo crítico.
Como se vê, ainda tenho que reler várias vezes “Coliardos-Mix”, a fim de me inteirar em copo e alma, com a escrita produtiva, íntima e livre, de Valero. Agora, por outro lado, ter conversado com ele me foi simplesmente maravilhoso, pois pude aprender e a conhecer ainda mais a literatura da Espanha, como um todo, não fraccionada, e ainda por cima, ganhar um originalíssimo “Don Quijote de La Mancha”, na língua-pátria de Miguel de Cervantes, livro raro e riquíssimo com comentários introdutórios de grande valia para quem estuda Cervantes, há anos, como eu.
Obrigado Genoíno Savaris, pelo presente de conhecer Valero, esse poeta, mais que forte, mais que corajoso e que, através de seu livro, faz com que minha cabeça amplie meus sentidos e torne realidade vários momentos em que a humanidade ‘real’ tem se apresentado ao Mundo, infelizmente, com violento ‘depurismo’ preconceitual, com mentiras ideológicas ou mortais ciladas. Parabéns Juan.
Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira.
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